quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O apicultor


Era guarda fiscal e nas horas vagas apicultor. Vivia numa casa rodeada por pequenas parcelas de terreno em socalcos e toda a propriedade era fechada com um enorme portão de ferro.
Com ele viviam também duas filhas gémeas muito bonitas e na casa dos 20 anos mais ou menos.
Era muito bem falante, tinha um rosto triangular e a sua figura quando fardado, lembrava um cavaleiro.
Desconhecia-se o estado civil e quem era a mãe das filhas. Era pouco dado a conversas com estranhos e nunca falava da sua vida privada.
Com os colegas mantinha uma certa distância. Era orgulhoso e muito vaidoso.
Fez amizade com um casal que tinha duas filhas e uma delas, a mais velha, tinha muito jeito para aprender coisas novas, mesmo que fossem difíceis. Gostava sobretudo das coisas ligadas à natureza.
Em conversa com a mãe dessas duas meninas, o apicultor, exultou a ciência de cuidar das abelhas e o bem que fazia ter um cortiço ou dois no seu terreno para poder tirar o mel, imprescindível à alimentação e à saúde. A mãe comentou ao jantar que o guarda fiscal tinha cortiços com abelhas e tirava muito mel durante o ano.
Perguntou às filhas se não queriam aprender a lidar com as abelhas. A mais nova disse que não, porque picavam, mas a mais velha mostrou-se curiosa.
Certo dia a mãe pediu ao guarda fiscal para que mostrasse às filhas os cortiços das abelhas e se elas gostassem, se ele podia ensinar alguma coisa a respeito. Disse logo que sim e que ensinaria tudo o que soubesse.
E lá foram as meninas para casa do apicultor, que as apresentou às filhas.
A mais velha das meninas reparou em tudo ao seu redor: como e o que tinham em casa, no terreno à volta da casa, como eram lindas as gémeas, como uma delas varria a sala, onde havia muita poeira e tudo o resto que que fosse diferente e interessante.
Reparou também que as gémeas pouco ligaram ao pai e às recém chegadas, ignorando simplesmente a sua presença.
Depois o guarda fiscal levou as duas irmãs para verem as abelhas, mas de longe, para que não fossem picadas.
Mostrou-se muito solicito e sobretudo muito didático. A sua atenção virou-se exclusivamente para a mais velha das duas e qualquer explicação ia sempre acompanhada de um abraço terno e paternal.
As irmãs gostaram muito da tarde e comentaram com a mãe. Foram a casa do guarda mais umas duas vezes, para ver outra vez as abelhas e pouco mais.
O guarda nunca as deixava sózinhas a não ser numa dessas tardes que disse às filhas para ficarem com a mais nova enquanto ele ensinava umas coisas à mais velha.
As gémeas consentiram, mas a irmã mais nova não quiz deixar a irmã e foi atrás dela. Tudo se passou com a máxima normalidade.
A irmã mais velha reparou nalgum nervosismo do guarda, que não parava de dizer à mais nova que ela podia ficar a brincar com as gémeas em casa, porque não percebia nada de abelhas, como se a mais velha já fosse muito entendida no assunto.
Propôs então a subida aos socalcos, onde havia muitas flores e as abelhinhas iam buscar o pólen para fazer o mel.
As mocinhas lá foram entusiasmadas. As gémeas que nunca saiam de casa vieram ao encontro do pai e fizeram questão em acompanhar o grupo.
Distanciaram-se um pouco e chamaram pela mais nova das irmãs, ficando o guarda sozinho com a mais velha.
Estrategicamente parou num ponto do muro que dividia os socalcos e onde havia um pequeno buraco e atraiu a rapariga para ver o que estava lá dentro. A rapariga olhou para o grupo da frente e reparou que iam sair do seu alcance, mas como estavam perto, acedeu ao convite.
Aproximou-se do buraco e tentou espreitar lá para dentro, mas não viu nada. Quando se virou para dizer que nada tinha visto o guarda abraçou-a e deu-lhe um beijo na boca. Surpreendida a rapariga desembaraçou-se do guarda e fugiu atrás do grupo onde estva a irmã.
Mal as alcançou disse à irmã que iam embora naquele mesmo momento. Quer as gémeas, quer o guarda, tudo fizeram para as segurar mais um tempo. Mas foi em vão.
Quando chegou a mãe, perguntou como fora a tarde na casa do guarda. A mais velha respondeu secamente que nunca mais lá voltaria.
A mãe ficou admirada e perguntou o porquê de tal atitude.
- Não vou mais, já disse. E escusa de me obrigar, porque não vou!
- Porquê? Que foi que te fizeram?
- Nada. Não quero ir mais. Prefiro ficar em casa a passar a ferro...
- Como queiras. E tu também não queres ir para lá? - perguntou à mais nova.
- Não.
A conversa ficou por ali, mas a mãe sabia que as filhas não desistiam assim, sem mais. Resolveu indagar por conta própria. Afinal não se sabia muito dessa gente, a não ser sobre o comportamento profissional do guarda.
Falando com alguém que conhecia muito pessoas, porque era uma cabaneira de mão cheia, foi sabendo que ali, naquela casa e naquela família, havia muito mistério!...
Constava-se até que ele abusava das duas filhas.
A senhora não quiz saber mais nada! Resolveu falar de imediato com a filha mais velha sobre o que realmente se passara, e porque não queria mais saber de abelhas e de apicultura.
A filha não disse nada, mas não lhe faltou vontade para dizer à mãe que ela acreditava em tudo e todos e muitas vezes a colocava em perigo.
Resolveu ficar calada. A mãe percebeu que algo se passara, mas não ia tirar nada a não ser o silêncio da filha.
Mais tarde, o guarda comentou com a senhora que as filhas nunca mais lá tinham ido e se se passara alguma coisa que elas não tivessem gostado. A mãe não comentou nada, desculpou as filhas pela ausência, devida ao recomeço do ano escolar e a coisa ficou por ali.
As gémeas deixaram o pai sozinho e partiram para sempre. Nunca mais se ouviu falar delas, mas do pai comentou-se que abusara de uma menina da mesma idade das duas irmãs e por isso ia responder em juízo.
O pedófilo, guarda e apicultor era useiro e vezeiro nesse tipo de comportamento.
Quando o caso já não era segredo, a mãe, preocupada, perguntou à mais velha se ele tinha abusado dela.
- Não abusou, mas faltou pouco!
A partir daí as irmãs nunca mais foram entregues a pessoas a não ser da família directa.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Freira



De criança rebelde, irrequieta, incontrolável, desobediente e má, passou a adolescente humilde, dada às práticas religiosas, tocava no coro da igreja, dava catequese, era filha de Maria, enfim, um amor de rapariga que fazia o orgulho dos pais.


Um dia, conversando com uma das freiras que acompanhavam o seu percurso escolar, resolveu perguntar a uma delas o seguinte:
- Irmã, o amor que nós sentimos por Cristo é igual ao amor que se sente por um homem?
A freira inclinou a cabeça em jeito de pensar a resposta que iria dar... Depois, calmamente, respondeu que sim. Que era igual ao amor por um homem.
Ela pensou na mentira que acabara de ouvir e agradecendo virou costas.
Não era essa a resposta que a adolescente pretendia e a pergunta tinha sido intencionada. Dir-se-ia, até provocante. Ela sabia que uma coisa é o amor a Cristo e outra o amor a um homem. O primeiro, manifesta-se pela forma solidária e desinteressada como se reparte entre todos os seres humanos, independentemente do sexo, religião ou confissão. O segundo, depende de muitos factores, sendo mais um sentimento puxado por interesses carnais ou societários, que propriamente altruístas.
Mas a adolescente não quiz desvendar que a pergunta tinha sido insidiosa. Quando ela pensava num homem ou rapaz, não via nele Cristo, via-o como ele era e queria amá-lo com todos os seus sentidos.
A mãe dessa adolescente, numa visita que fez com a filha ainda pequena a um colégio de freiras, caiu no ridículo de dizer que a criança pensava ser um dia freira. À pergunta de uma velhinha irmã, se era de facto essa a sua vontade a, ainda menina, respondeu que sim. Hipócritamente logo se viu, para não deixar a mãe ficar mal na fotografia. E toda a comunidade religiosa, ali mesmo, fez questão de orar pelas boas intenções da pequena e a sua futura integração numa ordem religiosa. Ela sentiu o peso dessa responsabilidade, mas sabia que só seria freira se quisesse e fosse responsável.
Volvidos alguns anos, já adolescente sabida, a moça olhava nostalgica para aquelas carinhas lindas das freiras, sempre aprumadas no seu hábito negro, sempre de livrinho de orações nas mãos e nos bolsos o terço. E adorava a sua vida recatada, monótona, entregue às coisas do Céu... Tinham apenas que se preocupar com a Igreja, aulas, catequese, brincadeiras no recreio, festinhas de Natal, de fim de ano! Parecia tudo tão sossegado e tão bom que ficava a pensar se realmente não seria boa escolha ir para freira. Pensava então no dia em que uma legião de freiras rezou pela sua vocação para freira.
Mas a sua vocação não era ser freira...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A médium





A vida de algumas pessoas pode assemelhar-se a um enorme lago: manso, profundo, escuro, constante, misterioso...


Mas ao mais pequeno movimento, provocado por qualquer pedrinha, que cai na mansidão das águas, o lago ondula suavemente em circunferências simétricas. De onda em onda há um hiato. Nesse hiato aparem coisas que se desconhecem. Que não são reais. Que a mente quer descodificar, mas sem efeito...


Tinha uns vinte anos. Namorava e a sua vida era um lago todo azul, igual a um dos lagos das Sete Cidades. A mãe pedira-lhe um pequeno grande favor. Que a acompanhasse numa visita breve a uma médium que, de vez em quando, dava consultas a troco de algum dinheiro. O que as pessoas podiam ou queriam dar. Contrariada, lá foi.

A casa da vidente ficava numa rua estreitinha, de paralelo, que subia da margem do rio até à parte alta da freguesia. Perdia-se o fôlego na subida. Quando se bateu à porta, uma velhinha aproximou-se e abriu. Na sala pequena e abafada estavam umas cadeiras a toda a volta da sala e nelas, sentadas, mulheres cujo grupo etário ia dos 40 aos 70 e muitos. Puseram os olhos nas recém-chegadas e nos seus olhares podia-se adivinhar todo o tipo de perguntas: - Será falta de dinheiro? Falta de trabalho? Intrigas? Afastamento de casal? Porque vem uma nova e outra mais velha? Serão mãe e filha?

A moça sentiu-se apalpada, como se uma cacheadeira estivesse a percorrer todo o seu corpo com luvas brancas e um fochinho de funcionária pública. Mas não ligou. Alguém fez um gesto para que uma delas se sentasse numa das cadeiras, talvez para cuscar a vida das duas e o motivo da visita. A mais nova, a filha, nem um gesto fez para agradecer, mantendo-se quieta à porta de entrada, com ar de quem estava a perder o seu tempo. A mãe perguntou baixo se estava alguém com a médium. Notava-se um certo desconforto por ter que suportar tão longa espera. Se fosse o caso teria que desistir e a viagem teria sido um desperdício...

Algumas das presentes cochichavam, adivinhando-se pelo olhar, àcerca de quem.

O tempo passava e a mãe estava impaciente. A filha, aparentemente calma, olhava para o relógio de vez em quando. Depois passava um olhar indiferente sobre os presentes, pressentindo que continuava a ser olhada de uma estranha forma. Não sabia explicar, mas eram olhares que incomodavam.

A porta de acesso à sala da mediunidade abriu-se de rompante. Uma das perssoas saiu pela porta fora e a outra fitou de forma singular todas as pessoas que se encontravam na sala. Muda e com um semblante preocupado, retomou o exercício, olhando cada pessoa nos olhos. Parecia procurar algo. Até que se quedou no olhar da moça que entrara com a mãe em último lugar e sem mais, disse-lhe:

- Você vem para uma consulta?

Com ar superior e desdenhando respondeu:

-Eu??!! Não! É a minha mãe.

E a mãe levantou-se sem perceber nada.

- Entrem, senão não consigo trabalhar!

Mãe e filha entreolharam-se, mas nada disseram, apenas se admiraram por terem sido as últimas a entrar e as primeiras, das presentes que já lá estavam, a serem consultadas.

O espaço que agora as acolhia era indescritível! Num pequeno altar estavam amontoados quase todos os Santos que se veneram na Religião Cristã. Havia velas acesas aos pés de quase todos eles, o que tornava a atmosfera irrespirável. Alguns vasos com flores pretendiam dar ao "santuário" um ar fresco e colorido, mas esse efeito não foi conseguido. Imperava uma falta de gosto e um desalinho nas coisas, que parecia um armazém de figuras. Um livro sobre uma mesa redonda. Mais Santos espalhados pelo resto do cubículo e umas cadeiras para os consulentes.

A mãe disparou:

- Não imaginei que fosse tão rapidamente atendida... Estão tantas pessoas à espera!

- Essas pessoas não me incomodam e esta senhora sim.

- A minha filha?!!

- Se é sua filha não sei. Só sei que desde que vocês entraram não consegui concentrar-me e não gostei nada que tivessem vindo cá...

- Desculpe, mas a minha filha não...

- Deixe lá. Vamos ao que interessa.

- Se quiser eu saio! - disse a moça.

- Acho melhor...

A rapariga saiu porta fora e deixou a mãe sozinha com a médium. Respirou de alívio e regressou ao local onde tinha deixado o namorado. Ria-se como uma perdida e o rapaz perguntou-lhe o motivo do riso. Quando lhe contou a cena, o namorado também se riu, mas ficou a pensar na coisa.

Ao jantar a família reuniu-se, mas antes de irem todos para a mesa, a mãe chamou a filha.

- Sabes o que me disse a mulher?

- Que mulher?

- A vidente...

- Não sei, o que foi?

- Que tu também podias ser como ela, se quisesses!

Risadas

- Não me faltava mais nada! Ela é doida!

- Disse-me que eras poderosa, daí ela não ter conseguido concentrar-se enquanto lá estavas. E que as tuas dores de cabeça são resultado da tua mediunidade. Como não queres exercer... sofres!

- Sofro o quê, mãe? As minhas dores de cabeça são com as de toda a gente!. Não invente!

A conversa ficou por ali. Muitos anos depois daquele incidente, uma pessoa que não praticava, mas que era também médium, confirmou o que dissera a primeira, àcerca dos dotes da rapariga.

Acreditando ou não, essa moça ao longo da sua vida, teve muitas experiências mediunicas, mas nunca as relacionou ou tão pouco as valorizou!

De médicos e de tolos, todos temos um pouco!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Boi Bento





As alcunhas têm muitas vezes a ver com os tipos de pessoas ou animais, mas no caso em apreço, Boi Bento, não dizia nada do rapaz estouvado e bruto que era o Mário.


Filho de uma lavradeira e um sapateiro, viveu a sua infância como a maior parte da rapaziada da sua idade, naquele pedaço de chão verde, bordado de pequenas montanhas e onde ainda era possível passar a noite com as portas e janelas abertas.


Tinha duas irmãs. A Mia, a mais velha era uma rapariga sensata, tímida, mas muito trabalhadora e era o braço direito da mãe que muitas vezes caía de cama, sem se saber muito bem o que é que tinha. Havia gente que dizia que era encosto... Se era, nunca ninguém soube quem era a alma penada.


A outra irmã, passava o tempo de roda da mãe. Era muito carente e até doentinha também. Não fazia nada, ou quase nada. Era uma espécie de menina bem, naquela família de pobres. O Boi Bento era o do meio. Trazia tudo o que era robusto, desde o tamanho até à estupidez. Passava o tempo de fisga na mão para atirar aos pássaros e depois comia-os fritos! Que nojo que aquilo metia à mais nova, que não gostava muito das caçadas do irmão.


Certo dia estavam de conversa dois vizinhos. Os dois, ao portão, jogando conversa a respeito de tudo e de todos e ninguém em particular. Uma criança novinha, brincava perto deles.

O Mário aproximou-se e viu-se no seu rosto uma vontade enorme de entrar na brincadeira da miúda. Esta ao vê-lo parou e fitou-o como que dizendo: - Queres brincar?? Vais ver a brincadeira que te espera!.

Como se tivesse adivinhado, o Boi Bento parou e hesitou continuar. A rapariga voltou à sua brincadeira de roda dos mais velhos e estes continuaram a conversar distantes das atitudes dos mais pequenos.

O rapaz ganhou força e foi direitinho à rapariga com uma pergunta que já não lhe saiu dos lábios. Nesse preciso momento a rapariga pegou num pau e malhou no rapaz que tentou proteger a cabeça entre as pernas, enquanto a rapariga o fustigava nas costas.

O avô ficou atónito com a cena e resolveu interromper, tirando o pau à rapariga e levantando o pobre coitado. Preparava-se para levantar a mão para castigar a rapariga, mas esta afastou-se o suficiente para poder falar e não levar uma boa sova. A vizinha também ajudou à festa, convidando o avô a castigar a miúda, que lhe deitou um olhar fatal...

- Que maneiras são essas? Foi isso que te ensinaram??

- Ele mordeu-me...

- O quê? Não vimos nada!

- Mas não foi hoje, foi no outro dia.

O avô que sempre acreditou na neta ficou com a pulga atrás da orelha, desta vez.

- Hummmm.... Onde te mordeu?

- Nas costas!

- Nas costas? Em que sítio?

- Aqui...

E apontou com a maozinha para a parte de cima da omoplata muito próximo do pescoço.

- Quero ver isso. Mostra lá.

Entretanto o rapaz berrava a plenos pulmões, esperando ver o desfecho da coisa e querendo que o avô a castigasse ali mesmo, na frente dele.

O avô desabetoou o vestido da menina e verificou que tinha efectivamente uma dentada perto do ombro, muito bem desenhada, com os dentinhos todos do Boi Bento e que ainda mostrava sinais de ser recente.

Nenhum dos adultos teve coragem para dizer fosse o que fosse à rapariga. De facto não só falara verdade como o castigo tinha sido justo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Joly




Não há nada mais interessante que as brincadeiras com o cão que se escolhe para integrar a família.

Quatro irmãos recolheram um lateiro ainda pequeno. Chamaram-lhe Joly, porque era lindo e foi o nome aceite por todos, sem qualquer discussão. Era de pelo curto, de pequeno porte e todo castanho. O focinho era levemente pontiagudo e tinha uns olhos castanhos muito ternurentos e sempre suplicantes.

Todas as noites, depois do regresso da escola, aquelas quatro almas não faziam outra coisa senão brincar num dos quartos, sobre a cama, com o pequeno animal.

Não adiantava a mãe ralhar que não queria o cão sobre a cama, nem sequer nos quartos, porque a pequenada, logo que a sentia distraída com as tarefas de casa, era a primeira coisa que faziam. Para cima de uma das camas brincando e rindo com as atitudes do Joly.

O cão era brincalhão e fazia as delícias dos quatro, que não podiam mimá-lo mais. Comidinha a horas, banhinho quando necessário, muita água fresquinha, etc.

Ia com eles para todo o lado e só não ia para a escola porque era proibido. Mas até na Igreja entrava e ficava muito quietinho ao pé da pia da água benta.

Certo dia o Joly ficou muito quietinho num canto, não levantou as orelhas e muito menos abanou a cauda, quando as quatro ferinhas quiseram brincar com ele. Estava molinho!!.... Metia dó. Então quando olhava com aqueles olhinhos suplicantes até dava vontade de chorar. Mas o que teria acontecido e porque estava ele assim tão choquento??

Atiraram com os livros para cima de uma cadeira e foram ter com a avó, que era uma pessoa entendida em animais.

- Vó, que tem o Joly?

- Não sei meus filhos. Já está assim desde o meio da manhã. Já lhe deitei azeite pela guela abaixo, mas não reagiu...

- Azeite?!! Que nojo!...

- Se ele comeu alguma coisa que lhe fez mal, o azeite obriga-o a vomitar.

E lá foram eles encher o Joly de mimos. Mas ele também não se mostrou feliz. Estava mesmo doente e com cara de quem diz: - Deixem-me em paz. Tou a morrer...

As crianças não queriam acreditar naquilo. Algo tinha acontecido e voltaram para falar com a avó que preparava a janta. Mas a avó não sabia como aquietar aquela gentinha, porque não tinha respostas para as suas inquietantes perguntas. Apenas dizia para se acalmarem. No dia seguinte algo se faria pelo Joly. Mas a pequenada não estava disposta a esperar pelo dia seguinte. Queriam acção e rápida.
Chegou entretanto a mãe das crianças, que quase se assustou de verdade, ao ver os quatro correrem para cima dela, dizendo cada um a sua coisa e não se entendendo coisa nenhuma.

- Um de cada vez, por favor!

- O Joly mãe. Está a morrer!

- Cruzes, porquê? Foi atropelado?

- Nada disso mãe. A avó disse que talvez ele tenha comido alguma coisa que lhe fez mal...

- E o que pode ter sido? Deixem-me mudar de roupa, que já vamos ver isso.

E os quatro com a avó esperavam com ansiedade que a mãe desse uma solução e um desfecho feliz àquela desgraça que ameaçava o Joly.

A mãe chamou a mais velha para ir ao quarto.

- Sim, mãe...

- Quem foi que esteve no meu quarto?

- Não sei!

- Quem mexeu nos meus remédios que estavam sobre a mesinha de cabeceira?

- Ninguém mexeu aqui mãe. Juro!

Foi então que a mãe encontrou debaixo da cama a embalagem de um medicamento completamente roída e parte dos comprimidos comidos!!

- Foi o Joly! Só pode ter sido ele. Quem ia roer isto assim??
- Então foi o medicamento que o pôs assim, mãe?
- Não pode ter sido outra coisa!
Desatou a correr para contar aos irmãos o que tinha acontecido com os medicamentos da mãe. A causa da tristeza do Joly e a sua indisposição foram causadas pela ingestão dos remédios!! A avó que ouviu a conversa perguntou para que servia o medicamento que a mãe tomava. Os quatro foram perguntar à mãe e ela respondeu que eram para dormir e para o sistema nervoso. A avó ficou apreensiva mas nada disse.
A pequenada voltou à carga.
- O que fazemos, vó?
- Rezar, meus filhos. Vou pedir a Santo António, Advogado dos animais para que proteja o cãozinho!
O Joly foi colocado numa cesta confortável e com um cobertor para o manter quente. Bebeu mais um pouco de azeite a custo e parte dele saiu forçado pela lingua do Joly, que não parava de cuspir o líquido.
Os quatro não queriam dormir nas suas camas, mas sim ao pé do Joly quase por cima dele, se possível. A avó com a calma habitual retirou as crianças e tranquilizou-as:
- Vão para as vossas camas. Amanhã ele estará melhor. Já pedi a Santo António para o proteger e se ele melhorar, como creio, vou levar uma velinha ao Santo. Mas vocês não podem ficar aqui, porque o cãozinho não vai poder dormir descansado e assim não vai melhorar.
Para bem do Joly, os pequenos obedeceram.
No dia seguinte não foi necessário berrar, como de costume, para sairem da cama. Bem cedo e sem pequeno almoço os quatro foram direitinhos ao sítio do Joly. Ainda combalido, abanou a cauda e olhou com aqueles olhinhos como que a dizer: - Ainda estou muito mal, mas acho que vou melhorar.
Ficaram contentes com os progressos do Joly e foram a correr beijar a avó que tinha feito a promessa ao Santo António.
Quando regressaram ao fim do dia, da escola, o Joly já queria brincar.
O milagre acontecera!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sessão de bruxaria



Era uma criança enfezada. Não comia. Rejeitava tudo ou quase tudo, mesmo as guloseimas. Já estava habituada a ser apresentada às pessoas como a "amarelinha dos peidos", a enfezadinha, a magricelas, a raquítica e outros adjectivos que tais.

Dizia-se também que não pertencia à família. Tinha sido deixada por uma família de ciganos, à porta da casa dos avós e estes com peninha da menina trouxeram-na para a família.

Tinha que comer um pão que os irmãos não podiam comer de tão bom que era, por trás de uma porta, bem escondida. Andava sempre nos médicos que diziam todos a mesma coisa:

- Ela não tem nada. Só precisa de se alimentar.

Mas a sua astúcia e traquinisse levava que algumas pessoas que gostavam de ver o circo a arder, dessem opiniões diferentes sobre a saúde mental e física da menina.

- Ela tem mas é o diabo no corpo!

- Nunca se viu uma criança tão má de aturar!

E a criança continuava a dar dores de cabeça aos pais que, com frequência, a deixavam ir para casa dos avós, porque ela não queria outra coisa.

Quando chegava a casa dos avós, depois de uma curta viagem de comboio e camioneta, tinha sempre à sua espera umas batatas fritas em azeite e dois ovos estrelados, com uma gema amarelinha e uma clara tostadinha. Acompanhava com um pedaço de broa cozida em casa. Que pitéu! Isso é que ela gostava!

Regressando a casa dos pais era sempre o mesmo. Não lhe apetecia comer, nem beber e muito menos estar à mesa, ouvir a mesma coisa vezes sem fim o que era uma tortura: - Come! Está a esfriar! Come! Come!!!!

Um dia apercebeu-se de inusitado movimento em casa dos pais. Não sabia muito bem o que se estava a passar, mas deu para perceber que uma vizinha ia e vinha e olhava para ela com um olhar esquisito, inquiridor, até reprovador. Não ligou muito, porque já era costume acontecer. Depois ela não gostava muito daquela vizinha. Lembrava-se sempre do dia em que em casa dos pais caiu uma tesoura ao chão e ficou aberta e ela dissertou sobre a desgraça que iria cair naquela casa. A tesoura se caísse e ficasse fechada, nada aconteceria. Mas ficou aberta... Logo, algo muito estranho e grave iria acontecer à familia! Era um mau presságio!

As escadas de acesso à entrada da casa onde essa criança vivia com os pais, fazia um L e no patamar dos dois lanços alguém colocou um assador de sardinhas. Coisa estranha...pensava a criança. Já tinham comido a ceia... Quem iria assar e o quê, àquela hora, e ainda por cima no meio das escadas??

A resposta não demorou muito. A mãe acendeu o lume no assador e manteve a chama bem alta durante algum tempo. Tocam à porta e a vizinha corrreu a abrir. Não se conhecia a figura. Vinha de preto, com um chapéu que lhe cobria parte da cara e tinha uma barba grande. Tinha um aspecto horrível. Era bruxo!!!

Depois tudo se passou como se de um pesadelo se tratasse. A menina é amarrada e levada para as escadas. Pegaram nela a mãe e a vizinha. Claro que esperneou o quanto pôde, mas em vão. Colocaram-na sobre a chama, tendo o cuidado de não a queimar e o dito homem de chapéu, começou com uma ladaínha que ninguém percebia a quebrar o feitiço da menina. Para o quebrar, ele utilizava um facalhão enorme que cruzava várias vezes sobre o peito da possuída.

Com a faca por cima e o lume por baixo, a pobre coitada não tinha muita escolha e como desejava que ficasse bem gravado o seu desagrado, berrou, esperneou até não poder mais. Mas era franzina demais e teve que aguentar a cerimónia.

Entretanto, para que a mãe não ousasse fazer outra cena daquelas ia dizendo:

- Putas! O meu pai vai saber disto...

- Ela está possuída. Está o diabo a falar por ela!!!

- Qual diabo, qual carapuça, suas putaaaaaaaaaaaaaaaas! Querem me matar! Vou-vos foder a todooooooooooooooooooos!

- Não sabe o que diz, a pobre! O diabo ainda está dentro dela.

- Mas vai sair ou não me chame Brucho da Ponte.

- Ai, Deus queira, que já não se aguenta esta rapariga!

A cena ainda durou mais um pouco com as ladaínhas e as cruzes com a faca sobre o peito da paciente. Depois tudo voltou ao normal, mas a menina não comeu nada e foi para o seu quarto para adormecer pouco depois.

No dia seguinte respirava-se um ambiente tenso e de expectativa. A mãe sempre atenta, temia que a filha ficasse pior do que já era. Esta, olhava para a mãe e ainda não aceitara a cena do dia anterior, e por isso largou:

- Se aquele homem voltar a esta casa, mando-o pela escada abaixo e dou-lhe com uma vassoura até ele morrer!

A mãe nem acreditava! Afinal o bruxo não tinha feito bem o trabalhinho!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O chafariz







Tinha a forma hexagonal e estava sempre cheio de água que saia cristalina por um tubinho que se situava a meio. Esse chafariz atraía as crianças que passavam por alí, especialmente nos dias quentes e abafados de Verão. Era um chafariz muito tentador.

Situava-se no início da alameda das tílias, frondosas e perfumadas na flor. A alameda descia para duas pequenas pontes construídas em madeira, que davam acesso às fontes de água medicinal. O lugar era conhecido por Águas e nele descansavam e se tratavam muitos doentes que sofriam do fígado e dos diabetes. Todo o espaço tinha frondosas árvores e ruas em terra batida. As margens das ruas estavam bordadas com inúmeras hortenses, floridas e de muitas cores. A mais bonita era a cor de sulfato!
Nesse lugar havia muita vida e muito trabalho nos meses de Verão. Enquanto as termas estavam abertas, os visitantes domingueiros, aproveitavam as sombras e o fresco, para piquenicar. Jogava-se num mini golfe, podia-se andar num pequeno barco num riacho que vinha do monte e que dividia as duas fontes, podia-se brincar às escondidas atrás dos enormes troncos das árvores seculares, podia-se passear, correr, trepar às árvores de pequeno porte. Enfim, era a liberdade total em harmonia com o paraíso verde e fresco!

Num pequeno regato que também descia até ao riacho, a água saltitava de pedra em pedra e muito perto da Fonte Nova as pedras tinham uma cor diferente. Eram amarelas por causa das propriedades da água que os doentes tomavam por uns copinhos com letras.

Dava gosto vê-los! Velhinhos uns, mais novos outros, mas todos muito bem vestidos e arranjados, aguardavam sentados, em espreguiçadeiras, a sua vez. Depois, num gesto lento e cuidado dirigiam-se à menina que estava num buraco redondo, que pegava num copo (cada doente tinha o seu), que enchia por medida e o dava ao paciente, com um sorriso. Os domingueiros e visitantes fortuitos também podiam beber, mas era em copos sem letras. Eram cheios e podia-se repetir. Como eram boas aquelas águas. Algumas vezes, quando bebidas em demazia, faziam diarreia, o que era muito bom para desopilar a tripa.

Certo dia, duas irmãs e um amiguinho, passaram pelo tal chafariz e, como sempre, pararam a ver como o biquinho no meio dele, espirrava a água em arco para dentro do lago, sempre da mesma forma, sempre a mesma quantidade.

Um deles teve uma ideia genial! E se conseguissemos tapar o bico da água?

- Como?

- Com um pau, sei lá!

E lá foram em debandada procurar pauzinhos que chegassem até ao bico e tapassem a água. Não foi fácil a busca, mas ainda assim, trouxeram uns paus pequenos e finos que pareciam capazes de provocar tal efeito.

Todos de volta do chafariz, de joelhos, tentaram tapar o bico. Mas a tarefa estava difícil. Ou o pau não era suficientemente comprido e não chegava lá, ou demasiado fino e não tapava coisa nenhuma. Porém, havia um que parecia satisfazer a vontade da pequenada. Mas tinha que ser empunhado por um que se atrevesse a esticar bem um dos braços, senão não chegava ao bico. E assim foi. Uma das raparigas pegou no pau, aproximando-se o mais que pôde da margem e esticando o seu braço, tentou alcançar o bico da saída da água. Ao lado estava a claque a mandar no braço da rapariga com os apelos da praxe:

- Mais para o lado daqui... dali, dacolá...

Tanto fizeram que, num movimento menos pensado a rapariga caiu ao lago e molhou-se toda! Felizmente o chafariz não era muito fundo e não deu para se afogar, mas que ficou ensopada, ficou!

E agora? Como vai ela para casa, assim toda molhada? Na melhor das hipóteses vão todos levar uma boa sova para não brincarem mais com o chafariz.

Pensaram então como tirar a roupa da rapariga e vesti-la mais ou menos com as roupas de cada um dos outros dois. O que poderiam tirar para cobrir a coitada que tremia de frio e de nervos? Foram para trás de uma árvore onde ninguém os visse e começaram a despir a pobre. Depois cada um entregava uma peça. O pior é que havia mais que vestir da cinta para cima do que da cinta para baixo!. O rapaz não podia tirar as calças e a outra rapariga não podia ficar sem cuecas e sem a saia. Como fazer?

Tiraram as cuecas do rapaz que ficou tapado com as calças e a outra rapariga deu a combinação que trazia debaixo da saia. Para o peito o rapaz emprestou a camisa e ficou com o colete e a rapariga emprestou o casaco de malha. A mocinha parecia um fantoche! Mas estava vestida e ninguém haveria de reparar que ela ia de combinação.

E assim subiram a Folia, passaram pelo Cruzeiro, pelo Cimo de Vila e, finalmente, em casa!. Os três, olhando para todos os lugares rezando para que não aparecesse ninguém a perguntar porque a rapariga ia com os cabelos todos molhados e vestida de carnaval. Quando chegaram a casa tiveram que contar o sucedido, omitindo o verdadeiro motivo do banho. Passaram sem tareia, mas levaram muitas ameaças e ralhetes.

Nunca mais se aproximaram do chafariz!