
Era uma criança enfezada. Não comia. Rejeitava tudo ou quase tudo, mesmo as guloseimas. Já estava habituada a ser apresentada às pessoas como a "amarelinha dos peidos", a enfezadinha, a magricelas, a raquítica e outros adjectivos que tais.
Dizia-se também que não pertencia à família. Tinha sido deixada por uma família de ciganos, à porta da casa dos avós e estes com peninha da menina trouxeram-na para a família.
Tinha que comer um pão que os irmãos não podiam comer de tão bom que era, por trás de uma porta, bem escondida. Andava sempre nos médicos que diziam todos a mesma coisa:
- Ela não tem nada. Só precisa de se alimentar.
Mas a sua astúcia e traquinisse levava que algumas pessoas que gostavam de ver o circo a arder, dessem opiniões diferentes sobre a saúde mental e física da menina.
- Ela tem mas é o diabo no corpo!
- Nunca se viu uma criança tão má de aturar!
E a criança continuava a dar dores de cabeça aos pais que, com frequência, a deixavam ir para casa dos avós, porque ela não queria outra coisa.
Quando chegava a casa dos avós, depois de uma curta viagem de comboio e camioneta, tinha sempre à sua espera umas batatas fritas em azeite e dois ovos estrelados, com uma gema amarelinha e uma clara tostadinha. Acompanhava com um pedaço de broa cozida em casa. Que pitéu! Isso é que ela gostava!
Regressando a casa dos pais era sempre o mesmo. Não lhe apetecia comer, nem beber e muito menos estar à mesa, ouvir a mesma coisa vezes sem fim o que era uma tortura: - Come! Está a esfriar! Come! Come!!!!
Um dia apercebeu-se de inusitado movimento em casa dos pais. Não sabia muito bem o que se estava a passar, mas deu para perceber que uma vizinha ia e vinha e olhava para ela com um olhar esquisito, inquiridor, até reprovador. Não ligou muito, porque já era costume acontecer. Depois ela não gostava muito daquela vizinha. Lembrava-se sempre do dia em que em casa dos pais caiu uma tesoura ao chão e ficou aberta e ela dissertou sobre a desgraça que iria cair naquela casa. A tesoura se caísse e ficasse fechada, nada aconteceria. Mas ficou aberta... Logo, algo muito estranho e grave iria acontecer à familia! Era um mau presságio!
As escadas de acesso à entrada da casa onde essa criança vivia com os pais, fazia um L e no patamar dos dois lanços alguém colocou um assador de sardinhas. Coisa estranha...pensava a criança. Já tinham comido a ceia... Quem iria assar e o quê, àquela hora, e ainda por cima no meio das escadas??
A resposta não demorou muito. A mãe acendeu o lume no assador e manteve a chama bem alta durante algum tempo. Tocam à porta e a vizinha corrreu a abrir. Não se conhecia a figura. Vinha de preto, com um chapéu que lhe cobria parte da cara e tinha uma barba grande. Tinha um aspecto horrível. Era bruxo!!!
Depois tudo se passou como se de um pesadelo se tratasse. A menina é amarrada e levada para as escadas. Pegaram nela a mãe e a vizinha. Claro que esperneou o quanto pôde, mas em vão. Colocaram-na sobre a chama, tendo o cuidado de não a queimar e o dito homem de chapéu, começou com uma ladaínha que ninguém percebia a quebrar o feitiço da menina. Para o quebrar, ele utilizava um facalhão enorme que cruzava várias vezes sobre o peito da possuída.
Com a faca por cima e o lume por baixo, a pobre coitada não tinha muita escolha e como desejava que ficasse bem gravado o seu desagrado, berrou, esperneou até não poder mais. Mas era franzina demais e teve que aguentar a cerimónia.
Entretanto, para que a mãe não ousasse fazer outra cena daquelas ia dizendo:
- Putas! O meu pai vai saber disto...
- Ela está possuída. Está o diabo a falar por ela!!!
- Qual diabo, qual carapuça, suas putaaaaaaaaaaaaaaaas! Querem me matar! Vou-vos foder a todooooooooooooooooooos!
- Não sabe o que diz, a pobre! O diabo ainda está dentro dela.
- Mas vai sair ou não me chame Brucho da Ponte.
- Ai, Deus queira, que já não se aguenta esta rapariga!
A cena ainda durou mais um pouco com as ladaínhas e as cruzes com a faca sobre o peito da paciente. Depois tudo voltou ao normal, mas a menina não comeu nada e foi para o seu quarto para adormecer pouco depois.
No dia seguinte respirava-se um ambiente tenso e de expectativa. A mãe sempre atenta, temia que a filha ficasse pior do que já era. Esta, olhava para a mãe e ainda não aceitara a cena do dia anterior, e por isso largou:
- Se aquele homem voltar a esta casa, mando-o pela escada abaixo e dou-lhe com uma vassoura até ele morrer!
A mãe nem acreditava! Afinal o bruxo não tinha feito bem o trabalhinho!

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