
A vida de algumas pessoas pode assemelhar-se a um enorme lago: manso, profundo, escuro, constante, misterioso...
Mas ao mais pequeno movimento, provocado por qualquer pedrinha, que cai na mansidão das águas, o lago ondula suavemente em circunferências simétricas. De onda em onda há um hiato. Nesse hiato aparem coisas que se desconhecem. Que não são reais. Que a mente quer descodificar, mas sem efeito...
Tinha uns vinte anos. Namorava e a sua vida era um lago todo azul, igual a um dos lagos das Sete Cidades. A mãe pedira-lhe um pequeno grande favor. Que a acompanhasse numa visita breve a uma médium que, de vez em quando, dava consultas a troco de algum dinheiro. O que as pessoas podiam ou queriam dar. Contrariada, lá foi.
A casa da vidente ficava numa rua estreitinha, de paralelo, que subia da margem do rio até à parte alta da freguesia. Perdia-se o fôlego na subida. Quando se bateu à porta, uma velhinha aproximou-se e abriu. Na sala pequena e abafada estavam umas cadeiras a toda a volta da sala e nelas, sentadas, mulheres cujo grupo etário ia dos 40 aos 70 e muitos. Puseram os olhos nas recém-chegadas e nos seus olhares podia-se adivinhar todo o tipo de perguntas: - Será falta de dinheiro? Falta de trabalho? Intrigas? Afastamento de casal? Porque vem uma nova e outra mais velha? Serão mãe e filha?
A moça sentiu-se apalpada, como se uma cacheadeira estivesse a percorrer todo o seu corpo com luvas brancas e um fochinho de funcionária pública. Mas não ligou. Alguém fez um gesto para que uma delas se sentasse numa das cadeiras, talvez para cuscar a vida das duas e o motivo da visita. A mais nova, a filha, nem um gesto fez para agradecer, mantendo-se quieta à porta de entrada, com ar de quem estava a perder o seu tempo. A mãe perguntou baixo se estava alguém com a médium. Notava-se um certo desconforto por ter que suportar tão longa espera. Se fosse o caso teria que desistir e a viagem teria sido um desperdício...
Algumas das presentes cochichavam, adivinhando-se pelo olhar, àcerca de quem.
O tempo passava e a mãe estava impaciente. A filha, aparentemente calma, olhava para o relógio de vez em quando. Depois passava um olhar indiferente sobre os presentes, pressentindo que continuava a ser olhada de uma estranha forma. Não sabia explicar, mas eram olhares que incomodavam.
A porta de acesso à sala da mediunidade abriu-se de rompante. Uma das perssoas saiu pela porta fora e a outra fitou de forma singular todas as pessoas que se encontravam na sala. Muda e com um semblante preocupado, retomou o exercício, olhando cada pessoa nos olhos. Parecia procurar algo. Até que se quedou no olhar da moça que entrara com a mãe em último lugar e sem mais, disse-lhe:
- Você vem para uma consulta?
Com ar superior e desdenhando respondeu:
-Eu??!! Não! É a minha mãe.
E a mãe levantou-se sem perceber nada.
- Entrem, senão não consigo trabalhar!
Mãe e filha entreolharam-se, mas nada disseram, apenas se admiraram por terem sido as últimas a entrar e as primeiras, das presentes que já lá estavam, a serem consultadas.
O espaço que agora as acolhia era indescritível! Num pequeno altar estavam amontoados quase todos os Santos que se veneram na Religião Cristã. Havia velas acesas aos pés de quase todos eles, o que tornava a atmosfera irrespirável. Alguns vasos com flores pretendiam dar ao "santuário" um ar fresco e colorido, mas esse efeito não foi conseguido. Imperava uma falta de gosto e um desalinho nas coisas, que parecia um armazém de figuras. Um livro sobre uma mesa redonda. Mais Santos espalhados pelo resto do cubículo e umas cadeiras para os consulentes.
A mãe disparou:
- Não imaginei que fosse tão rapidamente atendida... Estão tantas pessoas à espera!
- Essas pessoas não me incomodam e esta senhora sim.
- A minha filha?!!
- Se é sua filha não sei. Só sei que desde que vocês entraram não consegui concentrar-me e não gostei nada que tivessem vindo cá...
- Desculpe, mas a minha filha não...
- Deixe lá. Vamos ao que interessa.
- Se quiser eu saio! - disse a moça.
- Acho melhor...
A rapariga saiu porta fora e deixou a mãe sozinha com a médium. Respirou de alívio e regressou ao local onde tinha deixado o namorado. Ria-se como uma perdida e o rapaz perguntou-lhe o motivo do riso. Quando lhe contou a cena, o namorado também se riu, mas ficou a pensar na coisa.
Ao jantar a família reuniu-se, mas antes de irem todos para a mesa, a mãe chamou a filha.
- Sabes o que me disse a mulher?
- Que mulher?
- A vidente...
- Não sei, o que foi?
- Que tu também podias ser como ela, se quisesses!
Risadas
- Não me faltava mais nada! Ela é doida!
- Disse-me que eras poderosa, daí ela não ter conseguido concentrar-se enquanto lá estavas. E que as tuas dores de cabeça são resultado da tua mediunidade. Como não queres exercer... sofres!
- Sofro o quê, mãe? As minhas dores de cabeça são com as de toda a gente!. Não invente!
A conversa ficou por ali. Muitos anos depois daquele incidente, uma pessoa que não praticava, mas que era também médium, confirmou o que dissera a primeira, àcerca dos dotes da rapariga.
Acreditando ou não, essa moça ao longo da sua vida, teve muitas experiências mediunicas, mas nunca as relacionou ou tão pouco as valorizou!
De médicos e de tolos, todos temos um pouco!

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