quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Memórias de Natal






O Natal ainda vinha longe... Mas já se pensava no que se haveria de oferecer à pequenada.




Um menino irrequieto, nascido extemporaneamente, com apenas dois anos incompletos mantinha-se imóvel e interessado numa série televisiva onde o protagonista era uma figura da ficção científica dada pelo nome de Alf.
O Alf era um misto de animal humano, com um nariz enorme de papa formigas, olhos de cão astuciosos, orelhas de perdigueiro, que falava e se movia como os humanos. Tinha um humor refinadíssimo e só fazia asneiras na casa de uma família que o acolheu, quando por destino ou engano "aterrrou" no Planeta Terra!
Essa série, era de tal forma popular, que até os grandes adoravam vê-la no pequeno ecran. O dito menino sempre que a via emitia um som semelhante a um OHOH, tipo Pai Natal, apontando com o dedinho sempre que o protagonista entrava em cena.
A família entusiasmada pelo comportamento dedicado à série e ao Alf, resolveu adquirir um exemplar do dito, para prendinha natalícia.
E assim aconteceu. Só que não existiam, à data, no mercado bonecos suficientemente parecidos com o Alf o que obrigou a família a procurar noutros destinos, mais precisamente em Inglaterra de onde o boneco era oriundo.
Felizmente um amigo que se deslocou àquele país encontrou exatamente o boneco perfeito, um verdadeiro clone do Alf, só não falava nem fazia asneiras! Mas era igualzinho, em tamanho, cor e forma. Só não se locomovia.
A família delirava só a pensar na reacção do puto quando visse a figurinha do seu herói preferido ali tão perto à mão de semear...
Entusiasmados suspiravam pelo dia de Natal. A caixa que o transportava foi para cima do armário para não se correr o risco de alguém a abrir antes do tempo!

E o Natal chegou, enfim...
Lá veio o Pai Natal, representado pela irmã mais velha, que naquele ano se esqueceu de tirar as pulseiras dos pulsos e depois de se ouvir o sino da Igreja bater as badaladas para a Missa do Galo, como era hábito. Aquele era o sinal de aproximação do Pai Natal e o menino quando se apercebeu do reboliço natural procurou as saias da mãe numa atitude de defesa.

-Olha lá vem o Pai Natal...

- Não queres abrir a porta ao Pai Natal?
E a criança numa atitude assustada e medrosa ia respondendo que "não" com a cabecinha, escondendo-se atrás da mãe.

Chegou o Pai Natal , vestido e calçado a rigor e com o famoso OHOH!. Mas nada mais dizia, não fosse a voz estragar a surpresa e denunciar a irmã!

O menino não arredava pé das pernas da mãe.

-Vê o que o Pai Natal nos trouxe...
-Vamos abrir o saco??
Qual saco? Ele não tirava os olhos do Pai Natal e já se começavam a ouvir uns risinhos denunciadores...
- Então? Não querias ver o Pai Natal?
E mais uma negação explicita, seguida de uma fuga para as pernas do pai. Talvez a mãe estivesse a insistir demais na decisão de "atirar" a criança para o saco das prendas ou pior, para os braços do Pai Natal!!!!...
Este despediu-se no momento certo, quando já todos apertavamos as pernas de tanta vontade de rir!.
E a primeira prenda sai do saco.
- Vamos abrir??
A criança recuperara a confiança porque entretanto chegara o ex-pai natal à sala e na sua simples linguagem o puto queria dizer à irmã que o Pai Natal estivera em casa e trouxera as prendas.
Que maravilha!!! Vamos lá ver o que ele trouxe...
A caixa continuava inerte no meio da sala. A criança não mostrava o menor interesse em abrir e foi um dos adultos que ajudou...
E eis que o Alf, apareceu como se tivesse saltado do ecran para o meio da sala!
- Que lindo! Olha, quem é?
Foi neste momento que tudo parecia virtual: a criança negou aproximar-se do dito personagem e não o quiz nem à lei da bala!
Foi o desespero total. Todos queriam apreciar um longo abraço entre o actor e o fã, mas não, foi o contrário! O fã detestou a ideia de tirarem o personagem da tela e não o quiz de forma alguma fora da caixa.
Entretanto, como havia outras prendinhas, prendeu-se com elas e desvalorizou a prenda principal!
Foi um Natal...diferente!

sábado, 10 de outubro de 2009

Imaginação






As alcovas estavam separadas por finas paredes em madeira e estuque. Nalguns pontos já se via a madeira e noutros, o estuque que havia sido retocado, formava bolhas, umas mais salientes ou mais extensas que outras.
Também se viam alguns buracos verticais, que deixavam passar a luz e os sons de um compartimento para o outro.
Da forma como entrava o dia, pela única janela daquele espaço, essas bolhas formavam figuras grotescas jogando com o efeito claro/escuro ou, luz/sombra.
A luminosidade, os contrates e os sons que vinham do exterior, excitavam a imaginação e era frequente ver/imaginar figuras representativas de animais, caras de pessoas, árvores, bonecas e outras coisas.
Nalgumas situações essas representações pareciam ganhar vida. Era uma espécie de jogo com a visão projectada sobre as paredes irregulares e velhas de estuque.
A imagem que mais vezes aparecia era a de uma sedutora bailarina de flamengo. Podia ver-se a sua saia multicolor de folhos sobrepostos, o seu peito semi inclinado, os braços e mãos em posição de passodoble.
As criações fantásticas de animais eram quase sempre em atitudes agressivas. Cães raivosos, dentes afiados, gatos com o dorso em arco, vacas e cabras pastando serenamente... Enfim tudo o que a imaginação de uma criança podia alcançar.
O escuro tomava conta do local e as figuras desapareciam para voltarem como por encanto durante o sono. E na manhã seguinte, mal raiava o dia lá vinham algumas delas, porque outras desapareciam de forma definitiva.
A pesquisa minuciosa de alguna pontos chave tornava-se inútil. Tinham desaparecido mesmo as tais figuras que representavam histórias vividas silenciosamente por muito tempo, muito tempo...
O cansaço da pesquisa obrigava a adormecer. E lá vinham de novo aquelas imagens, algumas delas metiam medo, queria afastá-las do pensamento, pois já não faziam parte da imaginação, mas elas permaneciam como pedras feitas de estuque.
Era no tempo em que nem se sonhava com televisão.
Os velhos dessa época diziam frequentemente : "Quando o ferro falar e o homem voar, o Mundo está para acabar".

sábado, 26 de setembro de 2009

Furacão


Estava no 5º ano do liceu e fazer exames nessa altura era obra!

Porque queria terminar o liceu para poder iniciar uma nova vida - a de trabalho - uma vez que estava longe a possibilidade de continuar a estudar, foi fazer os exames ao novo liceu de Braga. Novinho em folha, ainda não dispunha de corpo docente, pelo que foram convidadas para os exames, as barras em chumbos do Liceu Carolina Micaelas do Porto.

Azar!!! A fama de más em matéria de exigência escolar, levava a temer-se muitos chumbos naquele ano. Então, quando se falava da prof. de matemática até dava arrepios!!

Há que aguentar e lá foram muitas meninas para aquele liceu terminar o secundário.

Uma delas estava com dificuldades económicas. Os pais fizeram um grande sacrifício para a poder manter durante o período de exames numa pensão, com pensão completa. Por isso não podia chumbar.

Os seus dias eram passados entre os livros e apenas estudava, comia e dormia. Vieram os dias das escritas e os resultados foram bons. Numa das secções (letras), não dispensou da oral por apenas 2 décimas. Lamentou, mas era melhor não recorrer da nota...

Vieram as orais de letras e passou com uma boa nota final. Respirou de alívio e nessa tarde foi para a pensão descansar e pensar nas próximas orais de ciências.

Não viu as pautas porque era praticamente impossível estar escalada para o dia seguinte à sua última oral de letras. Podia, quando muito, ser suplente, mas nem isso.

Estava exausta e foi descansar. Dormiu serenamente e despreocupadamente. No dia seguinte calmamente, com ar triunfante, foi para o liceu assistir a algumas orais de ciências. Sentiu o calorzinho que antecipava as féria grandes!

No átrio, passou pelas pautas. Por curiosidade procurou nesse dia os nomes das colegas que se encontravam indicadas e a letra em que iam as orais...

No 1º lugar às 8,30 da manhã daquele preciso dia, lê incrédula o seu nome. Esfregou os olhos...estava a ter uma miragem terrífica. Olhou para o relógio de pulso. Eram 9,30 h . As orais tinham começado há uma hora e ela era a primeira na disciplina de física!!!

Nem queria acreditar. Verifica o número da sala onde decorrem as orais... E como se fosse um furacão sobe as escadas duas a duas e entra na sala a correr, esbaforida, onde o silêncio era sepulcral! Estava a ser "triturada" uma das suplentes, a primeira que a substituiu!

- Senhora doutora, posso falar?

A presidente de júri levantou os olhos que tinha pregados à secretária e antes de mais nada pediu ao "furacão" que se calasse porque decorria uma oral.

- Cale-se e sente-se. Não vê que está a decorrer uma oral e uma das suas colegas está a ser examinada?

Acenou com a cabeça que sim e procurou um lugar na assembleia. A sala estava repleta e teve que gramar com os olhares reprovadores das colegas...

A oral terminou e a presidente do júri interpelou nestes termos a sala:

- Levante-se a senhora que entrou nesta sala como se fosse uma locomotiva!!!
Risota geral!

As locomotivas naquele tempo já atingiam uma certa velocidade, mas ainda não aspiravam a TGV!

Levantou-se e sentiu que o Mundo inteiro estava sobre os seus ombros. Naquele momento passou pela sua cabeça o que diriam os seus pais, quando lhes tivesse que explicar que teria de permanecer em Braga, naquela pensão por mais x dias, porque faltara à chamada naquele dia fatídico! Como seria passar o tempo até concluir todas as orais e quando seriam? Como justificar-se perante aquela assembleia com três professoras tão severas - que eram do Porto! - e as colegas que já a olhavam de lado e de forma reprovadora?

As palavras estavam presas na garganta e a sua vontade era começar aos berros. Mas isso era proibido e o melhor era apelar para a melhor e mais convincente forma de contar o sucedido.

- Senhora Doutora, peço desculpa pela minha entrada e peço desculpa também à colega que estava a ser examinada, mas fiquei descontrolada quando me vi na primeira linha de entrada nas provas orais de ciências, depois de ter saído ontem daqui às 18 horas. É que ontem a essa hora terminei as minhas provas orais de letras e sinceramente não julguei que estaria designada hoje para a primeira oral de ciências. Não sei se tenho alguma possibilidade de fazer hoje exame, é que se ficar para o final das orais os meus pais matam-me, porque estou numa pensão a gastar o seu dinheiro...

Risinhos...

- Silêncio, minhas senhoras! - gritou a presidente do júri que até alí lhe tinha prestado a maior atenção.

- Para ser possível admitir o seu pedido, precisa de perguntar à colega que acabou a sua oral se pretende desistir...caso contrário vai para o último dia de orais como manda o regulamento.

Não tinha fixado a cara da colega que acabara a oral e por isso procurou ajuda entre os presentes. Não encontrou ajuda e então, com o seu despacho habitual, disparou:

- Quem é a colega que acabou de fazer a oral?

- Sou eu...

- Importas-te de desistir?

- Não me importa. Eu desisto da oral...
- Obrigada.
Tinha-lhe corrido mal!!!

Uff! Que alívio!

Passaram alguns minutos. Percebeu-se que tentavam resolver a questão burocrática. Os minutos pareciam anos.

Não se sentou e aguardou que a chamassem.

A presidente de júri esclareceu que a prova da colega ficara sem efeito e em sua substituição iria chamar-se a senhora que faltara à chamada. A decisão do júri foi unânime.

- Senhora....responda às questões que lhe vão ser colocadas pela Drª....

Saiu do seu lugar e sentou-se na secretária em frente ao júri. As suas pernas tremiam e o seu coração pareceia que queria saltar do peito.

A examinadora apercebeu-se do seu estado de espírito. Disparou a primeira questão e a resposta dada era errada...

- Compreendo o seu estado e o seu nervosismo. Tente ficar calma. Tenho a certeza que sabe a resposta. Não se precipite!!

Afinal as professoras do Carolina eram humanas e estavam ali para lhe dar uma oportunidade.
O exame decorreu sem incidentes e a nota final foi muito boa apesar de tudo!!


quinta-feira, 4 de junho de 2009

O papagaio que não era louro





Se tivesse nascido rapaz, provavelmente chamar-se-ia Tomás, mas como saiu rapariga, chamou-se Tomásia.

Esta gorda e irrequieta criança, tinha tudo menos sansatez. E nem sempre os progenitores tinham muita paciência com as suas habituais traquinices. De faces gorduchas e vermelhas, tinha uns olhos brilhantes e sôfregos de saber. Perguntava tudo a propósito de tudo. Mexia em tudo e poucas coisas eram poupadas à sua enorme curiosidade.

O avô tinha um papagaio que havia trazido de terras de além mar. Era um bicho lindo. Amoroso. Não sabia dizer nada, mas manifestava-se plenamente quando sentia fome ou sede. Vivia numa gaiola grande e todos os dias o seu dono o mimava com falinhas de brasileiro português de lá para os lados de Amarante.


Um dia de muito muito calor, o bicho não tinha água na gaiola e sentia muita sede, por isso não se calava. O dono estava ausente e o pobre do papagaio não sossegava na gaiola. A Tomásia teve então uma ideia genial! Foi procurar umas malaguetas num dos vasos que estava à soleira e deu-as ao papagaio que as devorou num ápice.


Quando o dono chegou a casa, quase teve um ataque, quando viu o estado do animal! Tinha-se depenado quase todo, babava-se muito e parecia que estava doido de todo. O dono nem se podia aproximar. Deu-lhe água, falou com ele, tentou sossega-lo, mas nada.

Espreitou para dentro da gaiola e viu bocados de uma coisa vermelha, aproximando-se cheirou-lhe a malagueta das bravas. Logo adivinhou o que o animal tinha comido e que não fora ali parar pelo ar. Só uma mãozinha mázinha da Tomasinha podia ter sido a autora...


Chamou a Tomásia que, com as faces vermelhas e o andar hesitante se declarou logo culpada. Ainda assim disse que não sabia nada sobre o estado do papagaio, nem o que tinha comido.

- Então quem foi buscar ali ao vaso as malaguetas?

-... (encolhendo os ombros)

- Vai chamar a tua irmã.

...

- Que sabes sobre isto? Quem deu malaguetas ao papagaio?

- Foi a Tomásia!

O dono e amigo intimo do papagaio ficou verde de raiva. Queria bater na rapariga, mas não era apologista de castigos corporais.

Disse a ambas que não saissem do local. Ele já vinha.

Quando chegou trazia na mão uma malagueta vermelha e reluzente.

- Abre a boca.

A rapariga queria fugir, tapou a boca com as mãos, mas nada impediu o castigo. O bom homem esfregou na boca da Tomásia a malagueta até esta se desfazer.

- Vês agora o que fizeste ao papagaio? E tu ainda podes ir beber água e limpar a boca, mas ele não, porque está preso e não tem como reagir à tua partida. Estás satisfeita? Se voltares a por as mãos no papagaio ou lhe dás a comer ou beber coisas que não prestem, vais provar tu também o gostinho que têm.

Os lábios da Tomásia pareciam que tinham silicone. Ardiam como lume e nem a água acalmava aquela fogueira. Quanto mais esfregava mais ardia!

Lição apreendida. Nunca mais a Tomásia se aproximou do papagaio. Só de longe. É que o animal também não suportava a sua presença.

Eles sentem como nós.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Malandreca...




Era uma velhinha de olhos azuis, cabelo todo grisalho preso com uma trança enrolada atrás da cabeça, com um semblante de quem outrora foi muito linda. O seu sorriso, sempre disponível, conferia-lhe um arzinho matreiro e, por vezes, sarcástico.

Era uma avó excelente. Tinha tudo o que um neto pode desejar: bons conselhos sem ser chata, boa cozinheira, brincalhona e, sobretudo, amiga.

Arranjava-se logo de manhã ao sair da alcova e depois de se refrescar da noite dormida. Vestia-se sempre de roupa limpa, por baixo e por cima e nunca esquecia o seu xaile e o seu avental. Depois, mesmo nos dias frios, agazalhava os bichos (que eram muitos), e quando entrava na cozinha o seu nariz estava frio como a água gelada. Sentia todos os dias esse frio quando lhe dava um beijo carinhoso e a acordava com falinhas mansas.

Gostava de uma boa conversa e quase todos os dias tinha a visita das comadres. Eram algumas, porque essa velhinha era parteira e madrinha de quase todos os que ajudava a nascer para a vida, na aldeia.

Morgada, fora uma doce e querida donzela que vestia saiote até aos pés e que era impedida de rodopiar a saia para que não se lhe vissem os tornezelos.

Viveu a sua vida sempre sob esse respeito de si porópria. Detestava a ganância, o orgulho e a vaidade.

Foi mártire de um marido que não lhe dava o devido valor. O que mais temia nele era o vexame. Odiava as festas: Natal, Páscoa. Era nessas datas que o marido lhe dava mais dores de cabeça. Não sabia beber e quase sempre acabava a festa em briga, o que a fazia sofrer imenso.

Nas tardes soalheiras, vinham a casa para uma cabaneirice, certas comadres que davam tudo para se apresentar com algo novo: sapatos, saias, casacos...etc. Quando chegavam a primeira coisa que gostavam de apresentar era o que traziam de novo. Que fora uma prenda. Que fora comprado na feira da Vila. Que lhes mandara este ou aquele da França. Que compraram na Galiza, etc.etc. A velhinha nem prestava atenção a tais relatos. Queria ela lé saber a proveniência da novidade da comadre!?

Mas do que ela gostava mesmo era quando as comadres vinham com alpergatas novinhas em folha. O seu espirito brincalhão não parava de surpreender e era uma risota sem tamanho as marotices que ela fazia. Estando as perninhas das comadres esticadinhas ao sol, com as tais alpergatas nos pézinhos, a velhinha safada aproximava-se lentamente e como quem não quer a coisa, fazia pontaria no sentido dos pés das comadres e...lá vai...uma mijadela daquelas sobre os estreados adereços. A valhinha não usava calcinhas...

Claro que as atingidas só sentiam a mijadela quando o mijo arrefecia nas alpergatas. Algumas no calor da conversa só "acordavam" com o cheiro a urina. Tal marotice enfurecia as comadres que praguejavam, mas sem uma palavra sequer contra a mijona. Ela ria-se e quando elas ripostavam respondia-lhes que era para batizar a prenda.

Batismo com urina, convenhamos, não era muito agradável. Mas a velhinha ria e fazia rir toda a gente. Caíam na esparrela, mesmo as mais espertas e logo percebiam que exibir coisas novas no quinteiro da velhinha não era a melhor escolha.

E assim se passavam as tardes quentes junto daquela que jamais será esquecida. Uma velhinha malandreca a valer.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Os angorá



Tinha chegado á terceira classe. Irrequieta e sempre na brincadeira, não prestou atenção às contas de dividir. Mas pior do que isso era a chatice de ter que decorar a tabuada e depois as provas dos nove e as provas reais.

Era inconcebível que a professora não deixasse as crianças brincar no recreio, só porque não tinham assimilado a tecnica da divisão.

à data estavam na moda os mapas de lã. Puxavam-se os pelos das camisolas de lã e punham-se amassadinhos dentro dos livros. Quantas mais cores se arranjassem mais bonito ficava o mapa. Depois era simples: atribuia-se uma cor a determinada região e até se podiam fazer desenhos como nos mapas verdadeiros. Aquilo sim, é que era interessante.

Naquela manhã sentiu-se um friozinho e todas as crianças vieram para as aulas bem agasalhadas. Estavam no final do Inverno, mas o sol ainda não aquecia o suficiente. No meio dos agasalhos estavam uns xailes fofos de lã, que apetecia ripar.

Se melhor o pensou, melhor o fez e, sorrateiramente, enquanto a professora de costas para a turma escrevia no quadro mais uma conta de dividir, lá vai ela por baixo das carteiras ripar os pelos dos xailes e dos casacos que estavam nas costas das cadeiras.

Foi uma excelente ideia porque a professora não deu por falta dela e ela ficou com um enorme mapa de cores. Houve uma coleguinha que quase a acusou à professora, mas ela fez-lhe sinal que lhe batia se ela falasse e então a outra calou-se.

Quando lhe foi perguntado se já tinha o resultado da conta, ela não só não o sabia, como não fez a conta de dividir cujo enunciado ainda se encontrava no quadro preto. A professora chamou-a ao quadro para que fizesse a conta e nada. Só colocou o dividendo e o divisor no lugar. Quanto ao resto nem começou para não ser alvo de chacota.

A professora ditou a sentença:

- Vais já para a segunda atrasada!

A segunda atrasada era uma vergonha. Além do mais, só porque não se sabe uma simples conta de dividir, passa-se loga para a 2ª atrasada? Deixou a sua carteira habitual da 3ª classe, pegou nos seus livros e pertences e foi ocupar uma carteira na 2ª classe atrasada. Lá estavam as alunas mais velhas e outras que eram repetentes.

Não gostou nada da brincadeira e entre dentes lá resmungou alguma coisa que a professora não gostou.

- Vais dizer à tua mãe que venha falar comigo, amanhã:

- Sim senhora professora.

As novas colegas ficaram orgulhosas e contentes com a recém chegada que era líder nas diabruras, nas rasteiras e outras actividades afins. Ninguém jogava os paus com ela e para a apanhar tinha de ser por trás, que pela frente era um perigo.

Uma das novas colegas segredou-lhe que estar alí era muito bom. Não se fazia nada e estava tudo sempre certo.

Quando chegou a casa disse à mãe que a professora queria falar com ela. Porquê perguntou logo a mãe, sabendo a rica filha que tinha. Porque fora colocada na 2ª atrasada, porque não sabia fazer contas de dividir.

A mãe calou-se e no dia seguinte apareceu durante o horário escolar para falar com a professora. Foi possível ver de dentro da sala que levou consigo um cesto redondo que parecia pesado.

Quando a professora voltou para a sala de aula, depois de algum tempo perdido com a conversa, virou-se para a turma e ensaiou um pequeno discurso. Mais ou menos para dizer que ela tomava certas atitudes para que os alunos ganhassem confiança e aprendessem melhor as matérias e que o facto de às vezes irem para classes mais atrasadas não significava que fossem atrasados mentais. Longe disso, meu Deus!. Era só para meter medo. E foi o que aconteceu com a dita rapariga do dia anterior. Quanto às demais atrasadas nem uma palavra. Lá continuaram.

Posto isto a rapariga passou a ocupar uma carteira na terceira classe adiantada, o que lhe valeu o gostinho de se sentar ao pé dos meninos e meninas bonitos da vila e filhos de senhores doutores!!!

Orgulhosa pela promoção nem cabia em si de contente, apesar de ter consciência que de contas de dividir não sabia nada.

A professora só falava virada para ela e quando ela dizia uma asneira daquelas, a professora logo arranjava uma desculpe e, muito solicita aconselhava-a a consultar esta ou aquela tabuada.

- Tens que te esforçar mais, agora que estás na 3ª adiantada, porque eu sei que sabes, mas estás distraída, não é??

E ela abanava com a cabeça e meio envergonhada olhava para os olhares reprovadores das suas novas colegas cheias de sabedoria.

Quando regressou a casa a mãe disparou:

- Então como foi hoje o dia na tua escola?

- Foi bom. Passei da 2ª atrasada para a 3ª adiantada...

- Assim é que é. Tenho uma filha muito inteligente!....

A rapariga que não era burra apesar das contas de dividir e da sua pouca idade e experiência, perguntou à mãe o que ia no cesto que ela transportara para a escola.

- Ah! Isso era uma prenda para a tua professora. Dois coelhos angorá. Um macho e uma fêmea. São muito apreciados...

- Já percebi, se houvesse 4ª classe na escola, já tinha passado no exame!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Olga



Sempre se imaginam os Anjos com uma carinha branca como a cera, uns olhos expressivos azuis, cor do mar sereno, cabelo louro em cachos, vestidos de branco e com duas asas.

O que faltava à Olga eram as asas, de resto tinha tudo, inclusive as vestes brancas ou claras que sempre trazia para realçar a sua candura e o seu sorriso tímido.

Certo dia a Olga deixou de frequentar as aulas e todas comentavam que estava muito doente das anginas. Como estava internada num colégio de freiras, o procediemtno era sempre o mesmo. Ficavam de cama até o médico chegar e diagnosticada a doença, as freiras eram as mães ausentes, as enfermeiras e muitas vezes as portadoras de algum carinho.

A Olga permaneceu muito tempo de cama o que parecia não ser natural dado que apenas estava doente da garganta, coisa pouca, para tão grande ausência.

Fazia falta a Olga, especialmente à Romy, porque eram muito amigas e tinham vindo da mesma terra. Nunca se separavam. A Romy era mais turbulenta, mas a Olga era uma doçura de menina. Sempre muito quieta, gostava de apreciar as diabruras das suas colegas de ano e quase sempre sorria, embora com um sorriso triste e um olhar vago e distante.

Parecia que sofria de doença crónica e por certo uma doença muito íntima, ligada ao coração e às pessoas que ela tanto amava: os seus pais, a sua família. Por muito que lhe fizessem as freiras, nada era como em casa. Sofria de saudades e isso via-se no seu rostinho meigo e sobretudo no seu olhar pesquisador.

Mas a Olga nunca mais descia do dormitório e começou a ouvir-se dizer que a doença não cedia à medicação e, provavelmente, teria de ir para casa.

As febres eram muito altas e o médico que voltara ao colégio não descobriu a doença que aos poucos ia corroendo aquele corpinho e rostinho de Anjo. A Olga não teve tempo de regressar a sua casa...

Um dia, a notícia caiu como uma enorme pedra. Esmagadora. Cruel. Fatídica. A Olga morreu! Nos seus nove aninhos apenas, foi para o Céu exactamente como viveu na Terra: humilde, sorridente, mas não feliz e com muito sofrimento.

Soube-se mais tarde que afinal não foram as anginas que vitimaram a Olga, mas sim uma nefrite. A medicação não tinha resultado porque a doença necessitava de algo mais para deixar aquele corpinho indefeso.

Chorou-se a sua morte mais que qualquer outra e não se sabe bem porquê.

Talvez porque se precisasse de Anjos como ela na Terra!

terça-feira, 3 de março de 2009

O parto







Era um dia cinzento, muito perto do Natal. Começou bem cedo e foi imemorável. Pelas 4 ou 5 da manhã, um reboliço pouco habitual acordou uma menina de quase sete anos de idade.


Suspendeu a respiração para melhor sentir o que se passava no quarto ao lado do seu. Passos de ida e volta. Movimentos anormais para tão madrugada hora. Súplicas mordidas e...parecia que alguém chorava!


Levantou-se muito devagarinho e tentou ouvir mais atentamente o barulho, abafado por vozes que falavam muito baixinho.


Pensou em sair do quarto, mas algo lhe dizia para permanecer quieta no seu canto. Era mais seguro. Ainda estava escuro e do quarto ao lado vinha apenas uma ténue luz.


E se subisse ao parapeito daquele janela interior? Será que conseguiria?. Empoleirou-se na cama de ferro agarrada à parede lisa e por pouco não caiu ao chão. Tentou mais uma vez colocando os pézitos como se fossem patas de passarinho agarrados ao ferro dos pés da cama. A custo, segurou-se de encontro à parede, apoiada com os braços erguidos e as mãos agarradas à pedra do buraco da janela.
Se conseguisse subir até ao vão da janela, podia ver o que se passava alí tão perto, do outro lado da parede.

Colocou almofadas sobre o ferro da cama e subiu mais um bocadinho, mas era insuficiente. Como gostaria de ter ali uma pequena escada ou até um banco para facilitar a subida e entretanto subia o seu inesgotável sentimento de espionagem...de curiosidade!


Tanto fez, tanto andou, que lá conseguiu subir muito a custo para a janela. O que viu obrigou-a a refletir se devia permanecer ali ou descer e ficar quietinha na sua caminha. Mas a inusitada cena levou-a, mais uma vez a permanecer imóvel.


A mãe estava deitada contorcendo-se com dores, enquanto uma velha que ela não conhecia, estava aos pés da cama numa atitude de espera infinita. De pernas abertas sobre a cama parecia esperar alguém ou alguma coisa que saísse da mãe.


A dada altura o choro e os "ais" da mãe começaram a crescer de tom e a velha levantou a roupa que cobria a mãe para espreitar, sabe-se lá o quê!


Cobriu-a novamente e com um semblante de poucos amigos acenou com a cabeça em jeito de negação. A avó entrou no quarto e perguntou algo à velha tendo esta respondido de novo com a cabeça em sentido negativo.


O que se estava a passar alí? Alguém podia informar??? Porque é que uma pessoa que nunca se viu, está na cama da mãe?


Absorta nestes caminhos não se deu conta que a velha pousou os olhos nela, no momento exacto em que a menina se acomodava no seu novo poleiro.


- Que faz aquela rapariga alí sentada na janela???


A mãe nem se deu conta da pergunta, porque sentia muitas dores e só gemia, mas a avó virou o seu olhar em direcção do dedo em riste da velha e veio depressa retirar a rapariga do lugar.


- Desce, minha filha, desce daí...


- O que está a acontecer à minha mãe?


- Tu vais ter uma irmãzinha ou irmãozinho...


- ???


- A tua mãe está à espera que nasça, depois explico tudo, quando ele estiver cá fora. Agora vai dormir que já te venho chamar. Não saias da cama que tá muito frio.


- O pai?


- Tá na sala. Daqui a pouco vai trabalhar. Fica quieta.

- Porque é que a mãe chora?

- São as dores do parto, minha filha, depois eu conto-te tudo.

São as dores do parto?... Pensava ela que nunca tinha ouvido falar em tal. Só conhecia as dores de barriga e pouco mais!

Deitou-se novamente mas os seus olhos ficaram abertos o resto do tempo. Os seus ouvidos também. A mãe deixara de se ouvir e o reboliço extinguiu-se. Com o cansaço a menina tinha adormecido.

Quando despertou a primeira coisa que fez foi procurar a avó. O dia já ia alto e tudo parecia normal. Da velha nem sombra. Teria ela sonhado??

- Anda cá minha neta que te vou apresentar o teu novo irmãozinho.

Num enorme rolo de cobertor saia uma carinha pouco maior que a da boneca de trapos que a avó lhe dera pelo último Natal.

- Que criança tão pequenina!! Como se chama?

- Manelzinho. Já foi baptizado e tudo correu muito bem.

- Já foi baptizado?

- Já, minha filha, porque nasceu muito fraquinho e se morresse não ia para o Céu se não fosse baptizado, percebes?

A menina já ouvira aquelas palavras na catequese e sabia que todos os nascidos em famílias cristãs como a sua, tinham de ser baptizados. Mas não tinha havido festa de baptismo como acontecera com os irmãos de amiguinhos seus e isso deixou-a triste.

- Posso pegar nele?

- Podes. Só um bocadinho que daquí a pouco ele tem que ir para a tua mãe que lhe vai dar o peito.

- O peito? Para quê?

- Para ele mamar. As crianças enquanto são pequeninas mamam nas maminhas da mãe. Como os cabritinhos e os cãezinhos, lembras-te??Tu também mamaste e foi o diabo para te desmamar!!!

Pegou no irmão com muito jeitinho, sempre sob o olhar atento da avó e nesse preciso momento, olhando a carinha ainda vermelha do irmão recém nascido e prematuro, sentiu o mais profundo e inovador sentimento da maternidade.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O apicultor


Era guarda fiscal e nas horas vagas apicultor. Vivia numa casa rodeada por pequenas parcelas de terreno em socalcos e toda a propriedade era fechada com um enorme portão de ferro.
Com ele viviam também duas filhas gémeas muito bonitas e na casa dos 20 anos mais ou menos.
Era muito bem falante, tinha um rosto triangular e a sua figura quando fardado, lembrava um cavaleiro.
Desconhecia-se o estado civil e quem era a mãe das filhas. Era pouco dado a conversas com estranhos e nunca falava da sua vida privada.
Com os colegas mantinha uma certa distância. Era orgulhoso e muito vaidoso.
Fez amizade com um casal que tinha duas filhas e uma delas, a mais velha, tinha muito jeito para aprender coisas novas, mesmo que fossem difíceis. Gostava sobretudo das coisas ligadas à natureza.
Em conversa com a mãe dessas duas meninas, o apicultor, exultou a ciência de cuidar das abelhas e o bem que fazia ter um cortiço ou dois no seu terreno para poder tirar o mel, imprescindível à alimentação e à saúde. A mãe comentou ao jantar que o guarda fiscal tinha cortiços com abelhas e tirava muito mel durante o ano.
Perguntou às filhas se não queriam aprender a lidar com as abelhas. A mais nova disse que não, porque picavam, mas a mais velha mostrou-se curiosa.
Certo dia a mãe pediu ao guarda fiscal para que mostrasse às filhas os cortiços das abelhas e se elas gostassem, se ele podia ensinar alguma coisa a respeito. Disse logo que sim e que ensinaria tudo o que soubesse.
E lá foram as meninas para casa do apicultor, que as apresentou às filhas.
A mais velha das meninas reparou em tudo ao seu redor: como e o que tinham em casa, no terreno à volta da casa, como eram lindas as gémeas, como uma delas varria a sala, onde havia muita poeira e tudo o resto que que fosse diferente e interessante.
Reparou também que as gémeas pouco ligaram ao pai e às recém chegadas, ignorando simplesmente a sua presença.
Depois o guarda fiscal levou as duas irmãs para verem as abelhas, mas de longe, para que não fossem picadas.
Mostrou-se muito solicito e sobretudo muito didático. A sua atenção virou-se exclusivamente para a mais velha das duas e qualquer explicação ia sempre acompanhada de um abraço terno e paternal.
As irmãs gostaram muito da tarde e comentaram com a mãe. Foram a casa do guarda mais umas duas vezes, para ver outra vez as abelhas e pouco mais.
O guarda nunca as deixava sózinhas a não ser numa dessas tardes que disse às filhas para ficarem com a mais nova enquanto ele ensinava umas coisas à mais velha.
As gémeas consentiram, mas a irmã mais nova não quiz deixar a irmã e foi atrás dela. Tudo se passou com a máxima normalidade.
A irmã mais velha reparou nalgum nervosismo do guarda, que não parava de dizer à mais nova que ela podia ficar a brincar com as gémeas em casa, porque não percebia nada de abelhas, como se a mais velha já fosse muito entendida no assunto.
Propôs então a subida aos socalcos, onde havia muitas flores e as abelhinhas iam buscar o pólen para fazer o mel.
As mocinhas lá foram entusiasmadas. As gémeas que nunca saiam de casa vieram ao encontro do pai e fizeram questão em acompanhar o grupo.
Distanciaram-se um pouco e chamaram pela mais nova das irmãs, ficando o guarda sozinho com a mais velha.
Estrategicamente parou num ponto do muro que dividia os socalcos e onde havia um pequeno buraco e atraiu a rapariga para ver o que estava lá dentro. A rapariga olhou para o grupo da frente e reparou que iam sair do seu alcance, mas como estavam perto, acedeu ao convite.
Aproximou-se do buraco e tentou espreitar lá para dentro, mas não viu nada. Quando se virou para dizer que nada tinha visto o guarda abraçou-a e deu-lhe um beijo na boca. Surpreendida a rapariga desembaraçou-se do guarda e fugiu atrás do grupo onde estva a irmã.
Mal as alcançou disse à irmã que iam embora naquele mesmo momento. Quer as gémeas, quer o guarda, tudo fizeram para as segurar mais um tempo. Mas foi em vão.
Quando chegou a mãe, perguntou como fora a tarde na casa do guarda. A mais velha respondeu secamente que nunca mais lá voltaria.
A mãe ficou admirada e perguntou o porquê de tal atitude.
- Não vou mais, já disse. E escusa de me obrigar, porque não vou!
- Porquê? Que foi que te fizeram?
- Nada. Não quero ir mais. Prefiro ficar em casa a passar a ferro...
- Como queiras. E tu também não queres ir para lá? - perguntou à mais nova.
- Não.
A conversa ficou por ali, mas a mãe sabia que as filhas não desistiam assim, sem mais. Resolveu indagar por conta própria. Afinal não se sabia muito dessa gente, a não ser sobre o comportamento profissional do guarda.
Falando com alguém que conhecia muito pessoas, porque era uma cabaneira de mão cheia, foi sabendo que ali, naquela casa e naquela família, havia muito mistério!...
Constava-se até que ele abusava das duas filhas.
A senhora não quiz saber mais nada! Resolveu falar de imediato com a filha mais velha sobre o que realmente se passara, e porque não queria mais saber de abelhas e de apicultura.
A filha não disse nada, mas não lhe faltou vontade para dizer à mãe que ela acreditava em tudo e todos e muitas vezes a colocava em perigo.
Resolveu ficar calada. A mãe percebeu que algo se passara, mas não ia tirar nada a não ser o silêncio da filha.
Mais tarde, o guarda comentou com a senhora que as filhas nunca mais lá tinham ido e se se passara alguma coisa que elas não tivessem gostado. A mãe não comentou nada, desculpou as filhas pela ausência, devida ao recomeço do ano escolar e a coisa ficou por ali.
As gémeas deixaram o pai sozinho e partiram para sempre. Nunca mais se ouviu falar delas, mas do pai comentou-se que abusara de uma menina da mesma idade das duas irmãs e por isso ia responder em juízo.
O pedófilo, guarda e apicultor era useiro e vezeiro nesse tipo de comportamento.
Quando o caso já não era segredo, a mãe, preocupada, perguntou à mais velha se ele tinha abusado dela.
- Não abusou, mas faltou pouco!
A partir daí as irmãs nunca mais foram entregues a pessoas a não ser da família directa.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Freira



De criança rebelde, irrequieta, incontrolável, desobediente e má, passou a adolescente humilde, dada às práticas religiosas, tocava no coro da igreja, dava catequese, era filha de Maria, enfim, um amor de rapariga que fazia o orgulho dos pais.


Um dia, conversando com uma das freiras que acompanhavam o seu percurso escolar, resolveu perguntar a uma delas o seguinte:
- Irmã, o amor que nós sentimos por Cristo é igual ao amor que se sente por um homem?
A freira inclinou a cabeça em jeito de pensar a resposta que iria dar... Depois, calmamente, respondeu que sim. Que era igual ao amor por um homem.
Ela pensou na mentira que acabara de ouvir e agradecendo virou costas.
Não era essa a resposta que a adolescente pretendia e a pergunta tinha sido intencionada. Dir-se-ia, até provocante. Ela sabia que uma coisa é o amor a Cristo e outra o amor a um homem. O primeiro, manifesta-se pela forma solidária e desinteressada como se reparte entre todos os seres humanos, independentemente do sexo, religião ou confissão. O segundo, depende de muitos factores, sendo mais um sentimento puxado por interesses carnais ou societários, que propriamente altruístas.
Mas a adolescente não quiz desvendar que a pergunta tinha sido insidiosa. Quando ela pensava num homem ou rapaz, não via nele Cristo, via-o como ele era e queria amá-lo com todos os seus sentidos.
A mãe dessa adolescente, numa visita que fez com a filha ainda pequena a um colégio de freiras, caiu no ridículo de dizer que a criança pensava ser um dia freira. À pergunta de uma velhinha irmã, se era de facto essa a sua vontade a, ainda menina, respondeu que sim. Hipócritamente logo se viu, para não deixar a mãe ficar mal na fotografia. E toda a comunidade religiosa, ali mesmo, fez questão de orar pelas boas intenções da pequena e a sua futura integração numa ordem religiosa. Ela sentiu o peso dessa responsabilidade, mas sabia que só seria freira se quisesse e fosse responsável.
Volvidos alguns anos, já adolescente sabida, a moça olhava nostalgica para aquelas carinhas lindas das freiras, sempre aprumadas no seu hábito negro, sempre de livrinho de orações nas mãos e nos bolsos o terço. E adorava a sua vida recatada, monótona, entregue às coisas do Céu... Tinham apenas que se preocupar com a Igreja, aulas, catequese, brincadeiras no recreio, festinhas de Natal, de fim de ano! Parecia tudo tão sossegado e tão bom que ficava a pensar se realmente não seria boa escolha ir para freira. Pensava então no dia em que uma legião de freiras rezou pela sua vocação para freira.
Mas a sua vocação não era ser freira...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A médium





A vida de algumas pessoas pode assemelhar-se a um enorme lago: manso, profundo, escuro, constante, misterioso...


Mas ao mais pequeno movimento, provocado por qualquer pedrinha, que cai na mansidão das águas, o lago ondula suavemente em circunferências simétricas. De onda em onda há um hiato. Nesse hiato aparem coisas que se desconhecem. Que não são reais. Que a mente quer descodificar, mas sem efeito...


Tinha uns vinte anos. Namorava e a sua vida era um lago todo azul, igual a um dos lagos das Sete Cidades. A mãe pedira-lhe um pequeno grande favor. Que a acompanhasse numa visita breve a uma médium que, de vez em quando, dava consultas a troco de algum dinheiro. O que as pessoas podiam ou queriam dar. Contrariada, lá foi.

A casa da vidente ficava numa rua estreitinha, de paralelo, que subia da margem do rio até à parte alta da freguesia. Perdia-se o fôlego na subida. Quando se bateu à porta, uma velhinha aproximou-se e abriu. Na sala pequena e abafada estavam umas cadeiras a toda a volta da sala e nelas, sentadas, mulheres cujo grupo etário ia dos 40 aos 70 e muitos. Puseram os olhos nas recém-chegadas e nos seus olhares podia-se adivinhar todo o tipo de perguntas: - Será falta de dinheiro? Falta de trabalho? Intrigas? Afastamento de casal? Porque vem uma nova e outra mais velha? Serão mãe e filha?

A moça sentiu-se apalpada, como se uma cacheadeira estivesse a percorrer todo o seu corpo com luvas brancas e um fochinho de funcionária pública. Mas não ligou. Alguém fez um gesto para que uma delas se sentasse numa das cadeiras, talvez para cuscar a vida das duas e o motivo da visita. A mais nova, a filha, nem um gesto fez para agradecer, mantendo-se quieta à porta de entrada, com ar de quem estava a perder o seu tempo. A mãe perguntou baixo se estava alguém com a médium. Notava-se um certo desconforto por ter que suportar tão longa espera. Se fosse o caso teria que desistir e a viagem teria sido um desperdício...

Algumas das presentes cochichavam, adivinhando-se pelo olhar, àcerca de quem.

O tempo passava e a mãe estava impaciente. A filha, aparentemente calma, olhava para o relógio de vez em quando. Depois passava um olhar indiferente sobre os presentes, pressentindo que continuava a ser olhada de uma estranha forma. Não sabia explicar, mas eram olhares que incomodavam.

A porta de acesso à sala da mediunidade abriu-se de rompante. Uma das perssoas saiu pela porta fora e a outra fitou de forma singular todas as pessoas que se encontravam na sala. Muda e com um semblante preocupado, retomou o exercício, olhando cada pessoa nos olhos. Parecia procurar algo. Até que se quedou no olhar da moça que entrara com a mãe em último lugar e sem mais, disse-lhe:

- Você vem para uma consulta?

Com ar superior e desdenhando respondeu:

-Eu??!! Não! É a minha mãe.

E a mãe levantou-se sem perceber nada.

- Entrem, senão não consigo trabalhar!

Mãe e filha entreolharam-se, mas nada disseram, apenas se admiraram por terem sido as últimas a entrar e as primeiras, das presentes que já lá estavam, a serem consultadas.

O espaço que agora as acolhia era indescritível! Num pequeno altar estavam amontoados quase todos os Santos que se veneram na Religião Cristã. Havia velas acesas aos pés de quase todos eles, o que tornava a atmosfera irrespirável. Alguns vasos com flores pretendiam dar ao "santuário" um ar fresco e colorido, mas esse efeito não foi conseguido. Imperava uma falta de gosto e um desalinho nas coisas, que parecia um armazém de figuras. Um livro sobre uma mesa redonda. Mais Santos espalhados pelo resto do cubículo e umas cadeiras para os consulentes.

A mãe disparou:

- Não imaginei que fosse tão rapidamente atendida... Estão tantas pessoas à espera!

- Essas pessoas não me incomodam e esta senhora sim.

- A minha filha?!!

- Se é sua filha não sei. Só sei que desde que vocês entraram não consegui concentrar-me e não gostei nada que tivessem vindo cá...

- Desculpe, mas a minha filha não...

- Deixe lá. Vamos ao que interessa.

- Se quiser eu saio! - disse a moça.

- Acho melhor...

A rapariga saiu porta fora e deixou a mãe sozinha com a médium. Respirou de alívio e regressou ao local onde tinha deixado o namorado. Ria-se como uma perdida e o rapaz perguntou-lhe o motivo do riso. Quando lhe contou a cena, o namorado também se riu, mas ficou a pensar na coisa.

Ao jantar a família reuniu-se, mas antes de irem todos para a mesa, a mãe chamou a filha.

- Sabes o que me disse a mulher?

- Que mulher?

- A vidente...

- Não sei, o que foi?

- Que tu também podias ser como ela, se quisesses!

Risadas

- Não me faltava mais nada! Ela é doida!

- Disse-me que eras poderosa, daí ela não ter conseguido concentrar-se enquanto lá estavas. E que as tuas dores de cabeça são resultado da tua mediunidade. Como não queres exercer... sofres!

- Sofro o quê, mãe? As minhas dores de cabeça são com as de toda a gente!. Não invente!

A conversa ficou por ali. Muitos anos depois daquele incidente, uma pessoa que não praticava, mas que era também médium, confirmou o que dissera a primeira, àcerca dos dotes da rapariga.

Acreditando ou não, essa moça ao longo da sua vida, teve muitas experiências mediunicas, mas nunca as relacionou ou tão pouco as valorizou!

De médicos e de tolos, todos temos um pouco!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Boi Bento





As alcunhas têm muitas vezes a ver com os tipos de pessoas ou animais, mas no caso em apreço, Boi Bento, não dizia nada do rapaz estouvado e bruto que era o Mário.


Filho de uma lavradeira e um sapateiro, viveu a sua infância como a maior parte da rapaziada da sua idade, naquele pedaço de chão verde, bordado de pequenas montanhas e onde ainda era possível passar a noite com as portas e janelas abertas.


Tinha duas irmãs. A Mia, a mais velha era uma rapariga sensata, tímida, mas muito trabalhadora e era o braço direito da mãe que muitas vezes caía de cama, sem se saber muito bem o que é que tinha. Havia gente que dizia que era encosto... Se era, nunca ninguém soube quem era a alma penada.


A outra irmã, passava o tempo de roda da mãe. Era muito carente e até doentinha também. Não fazia nada, ou quase nada. Era uma espécie de menina bem, naquela família de pobres. O Boi Bento era o do meio. Trazia tudo o que era robusto, desde o tamanho até à estupidez. Passava o tempo de fisga na mão para atirar aos pássaros e depois comia-os fritos! Que nojo que aquilo metia à mais nova, que não gostava muito das caçadas do irmão.


Certo dia estavam de conversa dois vizinhos. Os dois, ao portão, jogando conversa a respeito de tudo e de todos e ninguém em particular. Uma criança novinha, brincava perto deles.

O Mário aproximou-se e viu-se no seu rosto uma vontade enorme de entrar na brincadeira da miúda. Esta ao vê-lo parou e fitou-o como que dizendo: - Queres brincar?? Vais ver a brincadeira que te espera!.

Como se tivesse adivinhado, o Boi Bento parou e hesitou continuar. A rapariga voltou à sua brincadeira de roda dos mais velhos e estes continuaram a conversar distantes das atitudes dos mais pequenos.

O rapaz ganhou força e foi direitinho à rapariga com uma pergunta que já não lhe saiu dos lábios. Nesse preciso momento a rapariga pegou num pau e malhou no rapaz que tentou proteger a cabeça entre as pernas, enquanto a rapariga o fustigava nas costas.

O avô ficou atónito com a cena e resolveu interromper, tirando o pau à rapariga e levantando o pobre coitado. Preparava-se para levantar a mão para castigar a rapariga, mas esta afastou-se o suficiente para poder falar e não levar uma boa sova. A vizinha também ajudou à festa, convidando o avô a castigar a miúda, que lhe deitou um olhar fatal...

- Que maneiras são essas? Foi isso que te ensinaram??

- Ele mordeu-me...

- O quê? Não vimos nada!

- Mas não foi hoje, foi no outro dia.

O avô que sempre acreditou na neta ficou com a pulga atrás da orelha, desta vez.

- Hummmm.... Onde te mordeu?

- Nas costas!

- Nas costas? Em que sítio?

- Aqui...

E apontou com a maozinha para a parte de cima da omoplata muito próximo do pescoço.

- Quero ver isso. Mostra lá.

Entretanto o rapaz berrava a plenos pulmões, esperando ver o desfecho da coisa e querendo que o avô a castigasse ali mesmo, na frente dele.

O avô desabetoou o vestido da menina e verificou que tinha efectivamente uma dentada perto do ombro, muito bem desenhada, com os dentinhos todos do Boi Bento e que ainda mostrava sinais de ser recente.

Nenhum dos adultos teve coragem para dizer fosse o que fosse à rapariga. De facto não só falara verdade como o castigo tinha sido justo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Joly




Não há nada mais interessante que as brincadeiras com o cão que se escolhe para integrar a família.

Quatro irmãos recolheram um lateiro ainda pequeno. Chamaram-lhe Joly, porque era lindo e foi o nome aceite por todos, sem qualquer discussão. Era de pelo curto, de pequeno porte e todo castanho. O focinho era levemente pontiagudo e tinha uns olhos castanhos muito ternurentos e sempre suplicantes.

Todas as noites, depois do regresso da escola, aquelas quatro almas não faziam outra coisa senão brincar num dos quartos, sobre a cama, com o pequeno animal.

Não adiantava a mãe ralhar que não queria o cão sobre a cama, nem sequer nos quartos, porque a pequenada, logo que a sentia distraída com as tarefas de casa, era a primeira coisa que faziam. Para cima de uma das camas brincando e rindo com as atitudes do Joly.

O cão era brincalhão e fazia as delícias dos quatro, que não podiam mimá-lo mais. Comidinha a horas, banhinho quando necessário, muita água fresquinha, etc.

Ia com eles para todo o lado e só não ia para a escola porque era proibido. Mas até na Igreja entrava e ficava muito quietinho ao pé da pia da água benta.

Certo dia o Joly ficou muito quietinho num canto, não levantou as orelhas e muito menos abanou a cauda, quando as quatro ferinhas quiseram brincar com ele. Estava molinho!!.... Metia dó. Então quando olhava com aqueles olhinhos suplicantes até dava vontade de chorar. Mas o que teria acontecido e porque estava ele assim tão choquento??

Atiraram com os livros para cima de uma cadeira e foram ter com a avó, que era uma pessoa entendida em animais.

- Vó, que tem o Joly?

- Não sei meus filhos. Já está assim desde o meio da manhã. Já lhe deitei azeite pela guela abaixo, mas não reagiu...

- Azeite?!! Que nojo!...

- Se ele comeu alguma coisa que lhe fez mal, o azeite obriga-o a vomitar.

E lá foram eles encher o Joly de mimos. Mas ele também não se mostrou feliz. Estava mesmo doente e com cara de quem diz: - Deixem-me em paz. Tou a morrer...

As crianças não queriam acreditar naquilo. Algo tinha acontecido e voltaram para falar com a avó que preparava a janta. Mas a avó não sabia como aquietar aquela gentinha, porque não tinha respostas para as suas inquietantes perguntas. Apenas dizia para se acalmarem. No dia seguinte algo se faria pelo Joly. Mas a pequenada não estava disposta a esperar pelo dia seguinte. Queriam acção e rápida.
Chegou entretanto a mãe das crianças, que quase se assustou de verdade, ao ver os quatro correrem para cima dela, dizendo cada um a sua coisa e não se entendendo coisa nenhuma.

- Um de cada vez, por favor!

- O Joly mãe. Está a morrer!

- Cruzes, porquê? Foi atropelado?

- Nada disso mãe. A avó disse que talvez ele tenha comido alguma coisa que lhe fez mal...

- E o que pode ter sido? Deixem-me mudar de roupa, que já vamos ver isso.

E os quatro com a avó esperavam com ansiedade que a mãe desse uma solução e um desfecho feliz àquela desgraça que ameaçava o Joly.

A mãe chamou a mais velha para ir ao quarto.

- Sim, mãe...

- Quem foi que esteve no meu quarto?

- Não sei!

- Quem mexeu nos meus remédios que estavam sobre a mesinha de cabeceira?

- Ninguém mexeu aqui mãe. Juro!

Foi então que a mãe encontrou debaixo da cama a embalagem de um medicamento completamente roída e parte dos comprimidos comidos!!

- Foi o Joly! Só pode ter sido ele. Quem ia roer isto assim??
- Então foi o medicamento que o pôs assim, mãe?
- Não pode ter sido outra coisa!
Desatou a correr para contar aos irmãos o que tinha acontecido com os medicamentos da mãe. A causa da tristeza do Joly e a sua indisposição foram causadas pela ingestão dos remédios!! A avó que ouviu a conversa perguntou para que servia o medicamento que a mãe tomava. Os quatro foram perguntar à mãe e ela respondeu que eram para dormir e para o sistema nervoso. A avó ficou apreensiva mas nada disse.
A pequenada voltou à carga.
- O que fazemos, vó?
- Rezar, meus filhos. Vou pedir a Santo António, Advogado dos animais para que proteja o cãozinho!
O Joly foi colocado numa cesta confortável e com um cobertor para o manter quente. Bebeu mais um pouco de azeite a custo e parte dele saiu forçado pela lingua do Joly, que não parava de cuspir o líquido.
Os quatro não queriam dormir nas suas camas, mas sim ao pé do Joly quase por cima dele, se possível. A avó com a calma habitual retirou as crianças e tranquilizou-as:
- Vão para as vossas camas. Amanhã ele estará melhor. Já pedi a Santo António para o proteger e se ele melhorar, como creio, vou levar uma velinha ao Santo. Mas vocês não podem ficar aqui, porque o cãozinho não vai poder dormir descansado e assim não vai melhorar.
Para bem do Joly, os pequenos obedeceram.
No dia seguinte não foi necessário berrar, como de costume, para sairem da cama. Bem cedo e sem pequeno almoço os quatro foram direitinhos ao sítio do Joly. Ainda combalido, abanou a cauda e olhou com aqueles olhinhos como que a dizer: - Ainda estou muito mal, mas acho que vou melhorar.
Ficaram contentes com os progressos do Joly e foram a correr beijar a avó que tinha feito a promessa ao Santo António.
Quando regressaram ao fim do dia, da escola, o Joly já queria brincar.
O milagre acontecera!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sessão de bruxaria



Era uma criança enfezada. Não comia. Rejeitava tudo ou quase tudo, mesmo as guloseimas. Já estava habituada a ser apresentada às pessoas como a "amarelinha dos peidos", a enfezadinha, a magricelas, a raquítica e outros adjectivos que tais.

Dizia-se também que não pertencia à família. Tinha sido deixada por uma família de ciganos, à porta da casa dos avós e estes com peninha da menina trouxeram-na para a família.

Tinha que comer um pão que os irmãos não podiam comer de tão bom que era, por trás de uma porta, bem escondida. Andava sempre nos médicos que diziam todos a mesma coisa:

- Ela não tem nada. Só precisa de se alimentar.

Mas a sua astúcia e traquinisse levava que algumas pessoas que gostavam de ver o circo a arder, dessem opiniões diferentes sobre a saúde mental e física da menina.

- Ela tem mas é o diabo no corpo!

- Nunca se viu uma criança tão má de aturar!

E a criança continuava a dar dores de cabeça aos pais que, com frequência, a deixavam ir para casa dos avós, porque ela não queria outra coisa.

Quando chegava a casa dos avós, depois de uma curta viagem de comboio e camioneta, tinha sempre à sua espera umas batatas fritas em azeite e dois ovos estrelados, com uma gema amarelinha e uma clara tostadinha. Acompanhava com um pedaço de broa cozida em casa. Que pitéu! Isso é que ela gostava!

Regressando a casa dos pais era sempre o mesmo. Não lhe apetecia comer, nem beber e muito menos estar à mesa, ouvir a mesma coisa vezes sem fim o que era uma tortura: - Come! Está a esfriar! Come! Come!!!!

Um dia apercebeu-se de inusitado movimento em casa dos pais. Não sabia muito bem o que se estava a passar, mas deu para perceber que uma vizinha ia e vinha e olhava para ela com um olhar esquisito, inquiridor, até reprovador. Não ligou muito, porque já era costume acontecer. Depois ela não gostava muito daquela vizinha. Lembrava-se sempre do dia em que em casa dos pais caiu uma tesoura ao chão e ficou aberta e ela dissertou sobre a desgraça que iria cair naquela casa. A tesoura se caísse e ficasse fechada, nada aconteceria. Mas ficou aberta... Logo, algo muito estranho e grave iria acontecer à familia! Era um mau presságio!

As escadas de acesso à entrada da casa onde essa criança vivia com os pais, fazia um L e no patamar dos dois lanços alguém colocou um assador de sardinhas. Coisa estranha...pensava a criança. Já tinham comido a ceia... Quem iria assar e o quê, àquela hora, e ainda por cima no meio das escadas??

A resposta não demorou muito. A mãe acendeu o lume no assador e manteve a chama bem alta durante algum tempo. Tocam à porta e a vizinha corrreu a abrir. Não se conhecia a figura. Vinha de preto, com um chapéu que lhe cobria parte da cara e tinha uma barba grande. Tinha um aspecto horrível. Era bruxo!!!

Depois tudo se passou como se de um pesadelo se tratasse. A menina é amarrada e levada para as escadas. Pegaram nela a mãe e a vizinha. Claro que esperneou o quanto pôde, mas em vão. Colocaram-na sobre a chama, tendo o cuidado de não a queimar e o dito homem de chapéu, começou com uma ladaínha que ninguém percebia a quebrar o feitiço da menina. Para o quebrar, ele utilizava um facalhão enorme que cruzava várias vezes sobre o peito da possuída.

Com a faca por cima e o lume por baixo, a pobre coitada não tinha muita escolha e como desejava que ficasse bem gravado o seu desagrado, berrou, esperneou até não poder mais. Mas era franzina demais e teve que aguentar a cerimónia.

Entretanto, para que a mãe não ousasse fazer outra cena daquelas ia dizendo:

- Putas! O meu pai vai saber disto...

- Ela está possuída. Está o diabo a falar por ela!!!

- Qual diabo, qual carapuça, suas putaaaaaaaaaaaaaaaas! Querem me matar! Vou-vos foder a todooooooooooooooooooos!

- Não sabe o que diz, a pobre! O diabo ainda está dentro dela.

- Mas vai sair ou não me chame Brucho da Ponte.

- Ai, Deus queira, que já não se aguenta esta rapariga!

A cena ainda durou mais um pouco com as ladaínhas e as cruzes com a faca sobre o peito da paciente. Depois tudo voltou ao normal, mas a menina não comeu nada e foi para o seu quarto para adormecer pouco depois.

No dia seguinte respirava-se um ambiente tenso e de expectativa. A mãe sempre atenta, temia que a filha ficasse pior do que já era. Esta, olhava para a mãe e ainda não aceitara a cena do dia anterior, e por isso largou:

- Se aquele homem voltar a esta casa, mando-o pela escada abaixo e dou-lhe com uma vassoura até ele morrer!

A mãe nem acreditava! Afinal o bruxo não tinha feito bem o trabalhinho!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O chafariz







Tinha a forma hexagonal e estava sempre cheio de água que saia cristalina por um tubinho que se situava a meio. Esse chafariz atraía as crianças que passavam por alí, especialmente nos dias quentes e abafados de Verão. Era um chafariz muito tentador.

Situava-se no início da alameda das tílias, frondosas e perfumadas na flor. A alameda descia para duas pequenas pontes construídas em madeira, que davam acesso às fontes de água medicinal. O lugar era conhecido por Águas e nele descansavam e se tratavam muitos doentes que sofriam do fígado e dos diabetes. Todo o espaço tinha frondosas árvores e ruas em terra batida. As margens das ruas estavam bordadas com inúmeras hortenses, floridas e de muitas cores. A mais bonita era a cor de sulfato!
Nesse lugar havia muita vida e muito trabalho nos meses de Verão. Enquanto as termas estavam abertas, os visitantes domingueiros, aproveitavam as sombras e o fresco, para piquenicar. Jogava-se num mini golfe, podia-se andar num pequeno barco num riacho que vinha do monte e que dividia as duas fontes, podia-se brincar às escondidas atrás dos enormes troncos das árvores seculares, podia-se passear, correr, trepar às árvores de pequeno porte. Enfim, era a liberdade total em harmonia com o paraíso verde e fresco!

Num pequeno regato que também descia até ao riacho, a água saltitava de pedra em pedra e muito perto da Fonte Nova as pedras tinham uma cor diferente. Eram amarelas por causa das propriedades da água que os doentes tomavam por uns copinhos com letras.

Dava gosto vê-los! Velhinhos uns, mais novos outros, mas todos muito bem vestidos e arranjados, aguardavam sentados, em espreguiçadeiras, a sua vez. Depois, num gesto lento e cuidado dirigiam-se à menina que estava num buraco redondo, que pegava num copo (cada doente tinha o seu), que enchia por medida e o dava ao paciente, com um sorriso. Os domingueiros e visitantes fortuitos também podiam beber, mas era em copos sem letras. Eram cheios e podia-se repetir. Como eram boas aquelas águas. Algumas vezes, quando bebidas em demazia, faziam diarreia, o que era muito bom para desopilar a tripa.

Certo dia, duas irmãs e um amiguinho, passaram pelo tal chafariz e, como sempre, pararam a ver como o biquinho no meio dele, espirrava a água em arco para dentro do lago, sempre da mesma forma, sempre a mesma quantidade.

Um deles teve uma ideia genial! E se conseguissemos tapar o bico da água?

- Como?

- Com um pau, sei lá!

E lá foram em debandada procurar pauzinhos que chegassem até ao bico e tapassem a água. Não foi fácil a busca, mas ainda assim, trouxeram uns paus pequenos e finos que pareciam capazes de provocar tal efeito.

Todos de volta do chafariz, de joelhos, tentaram tapar o bico. Mas a tarefa estava difícil. Ou o pau não era suficientemente comprido e não chegava lá, ou demasiado fino e não tapava coisa nenhuma. Porém, havia um que parecia satisfazer a vontade da pequenada. Mas tinha que ser empunhado por um que se atrevesse a esticar bem um dos braços, senão não chegava ao bico. E assim foi. Uma das raparigas pegou no pau, aproximando-se o mais que pôde da margem e esticando o seu braço, tentou alcançar o bico da saída da água. Ao lado estava a claque a mandar no braço da rapariga com os apelos da praxe:

- Mais para o lado daqui... dali, dacolá...

Tanto fizeram que, num movimento menos pensado a rapariga caiu ao lago e molhou-se toda! Felizmente o chafariz não era muito fundo e não deu para se afogar, mas que ficou ensopada, ficou!

E agora? Como vai ela para casa, assim toda molhada? Na melhor das hipóteses vão todos levar uma boa sova para não brincarem mais com o chafariz.

Pensaram então como tirar a roupa da rapariga e vesti-la mais ou menos com as roupas de cada um dos outros dois. O que poderiam tirar para cobrir a coitada que tremia de frio e de nervos? Foram para trás de uma árvore onde ninguém os visse e começaram a despir a pobre. Depois cada um entregava uma peça. O pior é que havia mais que vestir da cinta para cima do que da cinta para baixo!. O rapaz não podia tirar as calças e a outra rapariga não podia ficar sem cuecas e sem a saia. Como fazer?

Tiraram as cuecas do rapaz que ficou tapado com as calças e a outra rapariga deu a combinação que trazia debaixo da saia. Para o peito o rapaz emprestou a camisa e ficou com o colete e a rapariga emprestou o casaco de malha. A mocinha parecia um fantoche! Mas estava vestida e ninguém haveria de reparar que ela ia de combinação.

E assim subiram a Folia, passaram pelo Cruzeiro, pelo Cimo de Vila e, finalmente, em casa!. Os três, olhando para todos os lugares rezando para que não aparecesse ninguém a perguntar porque a rapariga ia com os cabelos todos molhados e vestida de carnaval. Quando chegaram a casa tiveram que contar o sucedido, omitindo o verdadeiro motivo do banho. Passaram sem tareia, mas levaram muitas ameaças e ralhetes.

Nunca mais se aproximaram do chafariz!




sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A chantagem







Depois de nascer por um fio, descer apertadinho entre margens rochosas e verdejantes, o rio espreguiça-se num enorme estuário, antes de se misturar com as águas salgadas e remechidas do mar. É a foz, ora de águas calmas como um lago, ora sacudidas e caprichosas pelas marés.
Na maré baixa o rio quase secava e era possível saltitar entre um pedacinho de areia e um laguinho de água quente pelo sol. Levantavam-se as pedras e por baixo apanhavam-se pequenos peixes, caranguejos ou simplesmente areia movediça.

O estuário parecia enorme aos olhos de uma criança. Perdia-se de vista! E como era bom brincar na areia molhada e depois lavar os pés em pequenas poças de água quente, ou então correr na areia menos húmida e olhar para trás para ver as pegadas que ficavam inscritas na areia. Mas o mais interessante era fazer desenhos na areia e caminhar tendo por horizonte uma povoação muito bela que ficava no sopé de um monte. No cimo do monte havia uma construção granítica, que hoje constitui um lugar muito aprazível e muito visitado pelos turistas.

Mas voltando ao rio, quando a maré enchia vinha até ao casario e muitas vezes, sobretudo em épocas muito chuvosas, chegava a dar algumas dores de cabeça aos moradores da margem. A água entrava por todos os lados e quando baixava a maré, deixava um rasto de lama e sugidade que era difícil limpar.

Certo dia, uma menina mais ou menos com oito anos de idade, pediu à mãe para que a deixasse ir um bocadinho até às pocinhas. A mãe acedeu ao pedido e disse-lhe para que de vez em quando olhasse para a janela da casa. Quando a mãe quisesse que a menina regressasse a casa colocaria um lençol branco à janela. Era sinal que deveria voltar e rapidamente.

Como a mãe não admitia faltas de respeito e exigia obediência total, a menina disse que cumpriria à risca o que a mãe lhe ordenara, ou não voltaria a colocar os seus pézinhos nas pocinhas e na areia em maré baixa.

Brincou o quanto pôde. Pena não ter companhia! De vez em quando olhava para a janela e ficava aliviada, porque não via o lençol.

Por pouco tempo se distraiu a seguir com um olhar um caranguejo verde e de tenazes em riste. Quando se voltou já o lençol esvoaçava à janela. Tinha que regressar. No caminho havia uma passagem estreita e levemente inclinada. Não passavam duas criaturas ao mesmo tempo. Quando a menina a alcançou apareceu um rapazola que resolveu gozar com a situação. A rapariga parou e aguardou que o rapaz a deixasse passar...

- Só te deixo passar se me deres alguma coisa...

- Mas eu não tenho nada comigo!

- Arranja-te. Se não tens nada contigo dou-te uma tareia, que tal?

A menina ficou apreensiva. O rapaz era mais velho e muito mais forte que ela. Impossível medir forças com ele. Ela estava em desvantagem. Mas não mostrou parte de fraca.

- Tenho aqui umas conchas...

- Para que quero essa merda?

A menina fez questão de levar a coisa a sério e começou a inventar uma boa saída.

- Espera! Tenho uma coisa que talvez te interesse...

- O quê?

Pensou no que poderia interessar ao doido do rapaz, que a fizesse sair daquela situação e chegar a casa a tempo e horas para não ser castigada. Reparou que o rapaz tinha uns sapatos todos rotos e não hesitou.

- Tenho em casa uns sapatos novos que te devem servir. Posso dar-tos se quiseres...

- Hum. Onde é a tua casa?

- Sabes onde é a adega do chico? É aí. Aparece amanhã de manhã, que tos dou.

Ficou combinado. O rapaz deixou- a passar.

Quando chegou a casa a mãe nada disse, por isso pensou que o incidente não a tinha prejudicado. Mas não tinha gostado nada daquele patife e da ameaça, por isso tratou de arranjar logo uma solução. Foi à despensa e procurou num caixote de coisas velhas uns sapatos ou coisa parecida para no dia seguinte dar ao seu chantagista.

E assim foi. No dia seguinte logo de manhã tocaram à campainha da porta. A menina estava sózinha e espreitou pela fechadura, mas não viu ninguém. Porguntou com uma voz grave: Quem é? E nada. Ninguém respondeu. Colou o ouvido direito à porta e esperou algum sinal de subida das escadas, uma vez que a entrada principal estava sempre aberta. E nada, outra vez! Desistiu e foi tratar dos seus afazeres.

De novo um toque à porta. A menina não fez qualquer barulho ou pergunta. Apenas olhou pelo buraco da fechadura e avistou o rapaz. Foi pé-ante-pé buscar uma vasoura de piaçaba, bem pesada por sinal e, repentinamente, abriu a porta. Antes que o rapaz pudesse fazer qualquer movimento, ou dissesse ququer coisa, levou com a vassoura na cabeça, nas costas, por todo o lado. O rapaz caiu pelas escadas e quando chegou à porta a custo se levantou de tal forma foram as vassouradas. A menina de cima das escadas atira-lhe com um par de sapatos velhos que foram direitinhos à cabeça do arrependido chantagista e, aos berros disse:

- Aqui estão os sapatos. Se cá voltares, quem te vai dar outra tareia é o meu pai, que já sabe de tudo! Por isso é bom que não te atrevas a ameaçar-me outra vez!!!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Igreja



Numa aldeia, paredes meias com a Galiza, fica uma Igrejinha, mais ou menos igual à da fotografia. Essa igreja foi construída num terreno doado pela família muito conceituada e respeitada, aí conhecida pela dos Santos.

Os Santos eram gente boa, obstinada no trabalho agrícola, que conseguiram ao longo dos anos uma considerável fortuna e uma casa farta de tudo.

A Igreja fica num plano superior ao lado da propriedade dessa família e é servida por uma escadaria em granito. Até há bem pouco tempo, no adro dessa Igreja estavam enterradas as cepas de bom vinho, que se estendiam numa longa latada para dentro da propriedade vizinha pertencente à família.

Da dita doação, também fazia parte o terreno do então pequeno cemitério situado a sul da Igreja e que era delimitado por um muro que o separava das terras dos doadores.

Por isso, da casa e rossio dos Santos, podia-se apreciar tudo o que se passava na Igreja e no cemitério, para onde caíam também pelo Outono, as peras maduras de uma pereira cujos galhos tombavam sobre o dito muro.

Para ver de palanque um casamento, um funeral, uma procissão ou qualquer outro ofício religioso, bastava uma pessoa empoleirar-se sobre o muro de divisão e daí se tinham todas as vistas.

Um certo dia a Junta de Freguesia resolveu fazer obras de beneficiação na Igreja e levantar as ossadas dos corpos nela enterrados, como era hábito na altura, especialmente para as famílias de beneméritos e outros privilegiados da época.

A empreitada ficou a cargo da Junta que contratou rapazes muito jovens. As obras começaram e demoraram a concluir-se e nada se diria a respeito, se não fosse uma cena a que alguém assistiu.

Num dos dias quentes daquele fim de Primavera, depois da janta, a rapaziada estava bem comida e bem bebida. Começaram com a limpeza e à medida que iam arrancando o soalho, traziam para o adro da igreja os desperdícios e tudo o que encontravam nos ditos jazigos.

A dada altura começaram a rir-se como perdidos e atiravam com coisas pelo ar. Não se percebia muito bem do que se tratava, mas parecia que a brincadeira tinha a ver com o que eles encontravam dentro das sepulturas.

Um deles saiu da Igreja com uma cabeleira feita de cabelos negros, asa de corvo, compridos e que colocou na sua própria cabeça, pavoniando-se para os outros. Todos riram da palhaçada. Outro, atirou com uma caveira que conservava os dentes todos (ou quase), pegou nela e arremessou-a a um colega que gritou uma série de impropérios. Outro trazia um farrapo preto enorme, tentando descobrir o que era e prontinho para o enfiar na cabeça de outro. Devia ter sido o fato ou vestido do de cujus. Ossos e mais ossos, uns soltos, outros agarrados aos esqueletos, tudo ia parar ao monte de terra que estava à porta da Igreja entre risadas e brincadeiras infantis.

E a brincadeira durou quase a tarde toda.

Alguém soube do sucedido e a notícia correu célere por toda a aldeia. Aquilo era o mesmo que profanar sepulturas! E quem é que afinal acompanhava as obras e permitiu tal ultrage?

No dia seguinte as obras pararam e as ossadas foram recolhidas para um grande caixote.

De quem eram? De que família? Quando e como faleceram? Ninguém sabia! Estava tudo numa alfândega!

Perderam-se as relíquias de quem, porventura foi importante para aquela comunidade...

Mas quem manda àqueles inergúmenos contratar idiotas??

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

As muralhas





No tempo em que não havia televisão e a rádio apenas oferecia folhetins, viver entre muralhas era uma espécie de cativeiro libertador, salutar e mágico.

Muito próximo das muralhas, situava-se a casa de uma família modesta constituída por pai, mãe e quatro filhos. Muitas vezes essa família aumentava com a chegada de parentes: avós, tios e primos. Também faziam parte da família, uma empregada e uma costureira.

A Rosinha, assim se chamava a costureira, era uma linda moça, com um rosto branco e sereno e uns olhos azuis muito rasgados e penetrantes. Confeccionava as roupas, especialmente as de uma certa menina, a quem ela adorava. A Rosinha tinha uma deficiência grave nas pernas e movia-se com a ajuda de duas muletas que lhe sacudiam o corpo frágil e pequeno. Quando se via sentada na máquina de costura eléctrica, a Rosinha nem parecia deficiente de tão linda que era.

Todos os anos, quando entrava a Primavera, o perfume a humanidade envolvia todo o espaço e, num ímpeto, era urgente sair de casa e passear pelas muralhas. Aí, um ventinho doce soprava vindo do rio e era incrível como apetecia cantar, correr, saltar, brincar, com quem quer que aparecesse por lá. Muitas vezes se aceitavam propostas de namoro, como se aquela estação do ano, a convite, assim o exigisse. Os dias eram mais longos e as temperaturas amenas, o que obrigava a levantar cedo da cama e deitar tarde para se aproveitar o tempo todo e viver ao máximo a Primavera.

O burgo de casas baixas e todas juntinhas, tinha um aspecto de presepe e as muralhas pareciam mantos enormes que escondiam esse aglomerado de casas. As vistas de cima das muralhas eram estonteantes e de baixo sumptuosas. Quem sofresse de vertigens não poderia debruçar-se nos baluartes.

De vez em quando algumas pessoas menos cultas e também muito porcas, despejavam baldes de lixo de cima das muralhas. Não era frequente, porque era arriscado. Mas havia sempre alguém que não temia o perigo e lá ia o lixo a céu aberto para cima do verde que rodeava as muralhas. Um dia, uma pobre rapariga, bambalhona e com pouco juízo foi deitar um balde de lixo e, porque se aproximou um pouco mais, escorregou e caiu das muralhas. A morte foi instantânea.

A Vila ficou em estado de choque. As pessoas ali residentes comentaram por muito tempo o sucedido, apontando o dedo aos responsáveis pela educação da rapariga. Mas a pobre fazia aquilo todos os dias e ninguém se importava. Ninguém sequer comentou que aquela desgraça podia acontecer.

A rapariga foi a enterrar num dia chuvoso e triste, como triste tinha sido o seu fim.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O afinador de concertinas


Era um indivíduo apessoado, forte, bem humorado e muito solidário. Tinha perdido ainda novo, num acidente, uma das pernas. Nunca se conformou com essa perda e de vez em quando zangava-se com as muletas que trazia debaixo dos braços para lhe facilitar a locomoção e atirava com elas para alguns metros de distância resmungando sempre: "suas putas!!".
O seu dia-a-dia passava-o numa pequena oficina que tinha no rés-do-chão da sua casa, onde fazia as afinações sob a orientação do seu tio Velino e dava lições de acordeão, porque nisso era barra. Também conversava com a mulher, quando esta descia para passar a ferro na mesa da oficina.

Gostava de gozar com o pessoal mais jovem e sobretudo com uma rapariguinha que vinha de longe com o seu acordeão de 2 oitavas a pé, alguns dois klms, ou mais. Essa rapariga tinha paixão pelo acordeão, mas era uma preguiçosa para aprender, que metia dó. Ele, sempre com uma paciência de Jó, lá a encaminhava com promessas de grande futuro nos bailes da Vila ou até, quem sabe, numa grande cidade! Essas divagações levavam a rapariguinha para lugares onde jamais estaria, fantasiando com os tais bailes e verbenas, onde tocaria para muita gente dançar. Tais fantasias retiravam-lhe a pouca vontade que tinha de estudar e aprender, o que fazia com que o Sr. José ficasse possesso!!

Um dia a rapariga chegou esbaforida pelo calor e pelo cansaço do percurso que havia feito com o acordeão às costas e encontrou o seu professor muito arrochadinho, com grandes olheiras e um enorme inchaço na cara. Perguntou, um tanto surpreendida com a carinha de lástima que ele apresentava, o que lhe tinha acontecido. O afinador manda-a sentar e, ao contrário dos outros dias, não lhe pede para tocar nada, apenas para o ouvir.

- Ouve bem o que te vou dizer!

-????

- Hoje não vou perder tempo contigo, por dois motivos: primeiro porque tou com uma dor de dentes que me rebenta com a cabeça; segundo porque tens que aprender a estudar o que te mando em casa e não aqui!!. Aqui é para eu te ensinar, não para tu, minha preguiçosa, estudares, ouviste??

- Sim senhor. E do que é essa bochecha assim inchada?

- Foi ontem. Tive que arrancar um dente!


A rapariga quiz saber pormenores. Então lá contou com todos os detalhes o episódio do dia anterior.
Por volta da meia noite, mais coisa, menos coisa, começou a sentir uma dor fortíssima num dente canino. Bochechou com aguardente, que quase apanhava uma bebedeira, mas nada! O dente continuava a doer que metia medo e quando metia ar pela boca a dor era tão violenta que o fazia chorar. Ele, um homem daqueles, a chorar por causa de um miserável dente! Foi então que pensou em descer à oficina para pegar num alicate e tirar o dente. Quando saiu de casa para ir para a oficina, tinha de descer uns quatro degraus, como era noite e a dor o impedia de raciocinar, tropeçou com uma das moletas e quase contou as escadas com os costados!
Ficou tão furioso com o dente que quando pegou no alicate nem sequer hesitou! Puxou com tanta força que o dente começou a abanar, mas não saiu. Se tinha dores, com mais dores ficou e os nervos já estavam a endoidecê-lo!
Voltou mais uma vez ao dente, mas com um alicate maiorzinho que colocou bem perto da gengiva. Encostou-se à mesa e com as duas mãos puxou com toda a sua força o maldito dente. Saiu finalmente, mas foi difícil estancar a hemorragia!
Mostrou o dente à rapariga que arregalou os olhos de admiração. Aquilo não era um dente era um fueiro! Porra! E lá tinha o buraco por onde entrava o ar quando ele respirava pela boca! Via-se muito bem o raio do buraco.
Foi preciso muita coragem, pensou a rapariga.
- Agora vai para casa e estuda esta música. Se amanhã não a tocares toda como deve ser, arranco-te uma orelha com o mesmo alicate com que arranquei o meu dente. Podes crer!
A rapariguinha foi todo o caminho a pensar no sucedido e como o seu professor estava abatido e com dores. Também ia com medo da ameaça.
Quando chegou a casa pegou no acordeão e só o largou depois de saber tocar muito bem a tal música. A avó que sempre lhe pedia para tocar uma modinha para a alegrar, ficou admirada com tanto estudo.
Quando soube da desgraça do afinador de concertinas e da ameaça que tinha feito à neta, caso a musiquinha não fosse na ponta dos dedos disse para a neta: Abençoado professor!!



quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Géninha







O seu verdadeiro nome era Eugénia, como a mãe. Filha de um juiz e uma dona de casa exemplar, era a mais velha de 3 filhos. Tinham uma enorde herdade no Alentejo, mas passavam a maior parte do tempo em Lisboa, onde numa qualquer comarca o pai exercia a sua função de juiz.
Não casou, apesar de ser um optimo partido. Seguiu estudos superiores, mas não se conhece o que profissionalmente realizou na vida.

Era uma criatura gorda que fumava como um homem. Vestia de forma simples e masculina. Não tinha conversa, a não ser com quem simpatizava muito. Parecia fria, distante.

A Géninha visitou uma só vez uns familiares directos, remediados, que viviam no Norte. Da sua visita recorda-se apenas uma "soirée" um tanto inusitada.

Sentada numa poltrona, fumava lentamente um cigarro e fazia questão de soprar o fumo para cima, como se estivesse a recordar momentos vividos, provavelmente, muito bons. Depois como por esmola, passava um olhar vazio pela sala onde se encontravam os familiares e uma criança muito curiosa que lhe seguia todos os movimentos.

A dada altura tocam à porta e eis que chega uma amiga da família. Vinha de saia exuberante, comprida com folhos, uma blusa atrevida cintada e nos cabelos negros compridos e encaracolados, tinha uma fita que realçava os seus olhos lindos.

Fizeram-se as apresentações e a partir desse momento a Géninha "regressou" à sala, olhando com sofisticado semblante a nova recém chegada. Alguém colocou uma música da moda no gravador e os presentes tiveram vontade de bater o pé.

Mas foi puxada uma nova música, entre o flamengo e o passodoble e a visita ensaiou os primeiros passos de um bailado a sós. Rodopiou, atirou com os cabelos para trás, pegou na saia e fê-la esvoaçar. Estavam todos encantados com os dotes da amiga. A Géninha não despregou mais os seus olhos dela. Parecia hipnotizada...

Vieram mais dois dedos de conversa para inglês ver e de novo se solicitou mais uma dança, mais uma música absorvente. A Géninha pediu um wisky e a amiga recém chegada também aproveitou o pedido. Seguiram-se mais copos de wisky e já as duas estavam nas nuvens.

A noite prometia comprometimento, não divertimento. Notava-se um clima de excitação na Géninha, sempre que olhava para a amiga da família. Esta também não se fazia rogada e de vez em quando aproximava-se da Géninha com um sorriso e um olhar lascivos.

A Géninha pede sem qualquer pudor que a amiga dance só para si.

Seguiu-se um momento de volúpia, sensual e até libidinoso... Em todos os passos de dança a dançarina ajoelhava-se aos pés da Géninha, enquanto esta mordia o filtro do cigarro e o apertava entre os lábios carnudos e rosados. A música convidava à sensualidade e enquanto os presentes se entretinham com minúcias tarefas, as duas olhavam-se de forma muito comprometida. Não se sabia o que iria acontecer depois, mas o que aconteceu naquele momento foi algo de imprevisto, incontrolável! A dançarina rodopiou num movimento lento com os braços e as mãos em espanholadas piruetas e roça a Géninha com os seios na cara. Esta move-se incómoda na poltrona e ajeita-se de forma a facilitar outro movimento igual. Já a dançarina ia e vinha pela sala ao som do flamengo, quando a Géninha pousa o cigarro e tal qual uma cobra a encantar o passarinho, fita a dançarina e todos os seus movimentos. Percebe-se que queriam ficar a sós ou já se encontravam a sós pelo efeito do alcool. Mais um passo atrevido e, descontrolada, a dançarina cai nos braços da Géninha, que lhe dá um longo beijo na boca.

Finge-se que nada se passou, alguém chamou alguém que não ouviu, levantam-se os pratos e os copos da mesa, sussurra-se algo que ninguém percebe e o ambiente fica incómodo para a família, mas muito interessante para as duas que se olham com vontade de se lamberem.

No dia seguinte a Géninha pediu que chamassem a amiga e fecharam-se as duas muito tempo no quarto de dormir.

Muito mais tarde ouviu-se um comentário sobre a Géninha: tinha regressado ao Alentejo onde vivia com uma amiga, por isso nunca quiz casar.