quarta-feira, 18 de março de 2009

Os angorá



Tinha chegado á terceira classe. Irrequieta e sempre na brincadeira, não prestou atenção às contas de dividir. Mas pior do que isso era a chatice de ter que decorar a tabuada e depois as provas dos nove e as provas reais.

Era inconcebível que a professora não deixasse as crianças brincar no recreio, só porque não tinham assimilado a tecnica da divisão.

à data estavam na moda os mapas de lã. Puxavam-se os pelos das camisolas de lã e punham-se amassadinhos dentro dos livros. Quantas mais cores se arranjassem mais bonito ficava o mapa. Depois era simples: atribuia-se uma cor a determinada região e até se podiam fazer desenhos como nos mapas verdadeiros. Aquilo sim, é que era interessante.

Naquela manhã sentiu-se um friozinho e todas as crianças vieram para as aulas bem agasalhadas. Estavam no final do Inverno, mas o sol ainda não aquecia o suficiente. No meio dos agasalhos estavam uns xailes fofos de lã, que apetecia ripar.

Se melhor o pensou, melhor o fez e, sorrateiramente, enquanto a professora de costas para a turma escrevia no quadro mais uma conta de dividir, lá vai ela por baixo das carteiras ripar os pelos dos xailes e dos casacos que estavam nas costas das cadeiras.

Foi uma excelente ideia porque a professora não deu por falta dela e ela ficou com um enorme mapa de cores. Houve uma coleguinha que quase a acusou à professora, mas ela fez-lhe sinal que lhe batia se ela falasse e então a outra calou-se.

Quando lhe foi perguntado se já tinha o resultado da conta, ela não só não o sabia, como não fez a conta de dividir cujo enunciado ainda se encontrava no quadro preto. A professora chamou-a ao quadro para que fizesse a conta e nada. Só colocou o dividendo e o divisor no lugar. Quanto ao resto nem começou para não ser alvo de chacota.

A professora ditou a sentença:

- Vais já para a segunda atrasada!

A segunda atrasada era uma vergonha. Além do mais, só porque não se sabe uma simples conta de dividir, passa-se loga para a 2ª atrasada? Deixou a sua carteira habitual da 3ª classe, pegou nos seus livros e pertences e foi ocupar uma carteira na 2ª classe atrasada. Lá estavam as alunas mais velhas e outras que eram repetentes.

Não gostou nada da brincadeira e entre dentes lá resmungou alguma coisa que a professora não gostou.

- Vais dizer à tua mãe que venha falar comigo, amanhã:

- Sim senhora professora.

As novas colegas ficaram orgulhosas e contentes com a recém chegada que era líder nas diabruras, nas rasteiras e outras actividades afins. Ninguém jogava os paus com ela e para a apanhar tinha de ser por trás, que pela frente era um perigo.

Uma das novas colegas segredou-lhe que estar alí era muito bom. Não se fazia nada e estava tudo sempre certo.

Quando chegou a casa disse à mãe que a professora queria falar com ela. Porquê perguntou logo a mãe, sabendo a rica filha que tinha. Porque fora colocada na 2ª atrasada, porque não sabia fazer contas de dividir.

A mãe calou-se e no dia seguinte apareceu durante o horário escolar para falar com a professora. Foi possível ver de dentro da sala que levou consigo um cesto redondo que parecia pesado.

Quando a professora voltou para a sala de aula, depois de algum tempo perdido com a conversa, virou-se para a turma e ensaiou um pequeno discurso. Mais ou menos para dizer que ela tomava certas atitudes para que os alunos ganhassem confiança e aprendessem melhor as matérias e que o facto de às vezes irem para classes mais atrasadas não significava que fossem atrasados mentais. Longe disso, meu Deus!. Era só para meter medo. E foi o que aconteceu com a dita rapariga do dia anterior. Quanto às demais atrasadas nem uma palavra. Lá continuaram.

Posto isto a rapariga passou a ocupar uma carteira na terceira classe adiantada, o que lhe valeu o gostinho de se sentar ao pé dos meninos e meninas bonitos da vila e filhos de senhores doutores!!!

Orgulhosa pela promoção nem cabia em si de contente, apesar de ter consciência que de contas de dividir não sabia nada.

A professora só falava virada para ela e quando ela dizia uma asneira daquelas, a professora logo arranjava uma desculpe e, muito solicita aconselhava-a a consultar esta ou aquela tabuada.

- Tens que te esforçar mais, agora que estás na 3ª adiantada, porque eu sei que sabes, mas estás distraída, não é??

E ela abanava com a cabeça e meio envergonhada olhava para os olhares reprovadores das suas novas colegas cheias de sabedoria.

Quando regressou a casa a mãe disparou:

- Então como foi hoje o dia na tua escola?

- Foi bom. Passei da 2ª atrasada para a 3ª adiantada...

- Assim é que é. Tenho uma filha muito inteligente!....

A rapariga que não era burra apesar das contas de dividir e da sua pouca idade e experiência, perguntou à mãe o que ia no cesto que ela transportara para a escola.

- Ah! Isso era uma prenda para a tua professora. Dois coelhos angorá. Um macho e uma fêmea. São muito apreciados...

- Já percebi, se houvesse 4ª classe na escola, já tinha passado no exame!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Olga



Sempre se imaginam os Anjos com uma carinha branca como a cera, uns olhos expressivos azuis, cor do mar sereno, cabelo louro em cachos, vestidos de branco e com duas asas.

O que faltava à Olga eram as asas, de resto tinha tudo, inclusive as vestes brancas ou claras que sempre trazia para realçar a sua candura e o seu sorriso tímido.

Certo dia a Olga deixou de frequentar as aulas e todas comentavam que estava muito doente das anginas. Como estava internada num colégio de freiras, o procediemtno era sempre o mesmo. Ficavam de cama até o médico chegar e diagnosticada a doença, as freiras eram as mães ausentes, as enfermeiras e muitas vezes as portadoras de algum carinho.

A Olga permaneceu muito tempo de cama o que parecia não ser natural dado que apenas estava doente da garganta, coisa pouca, para tão grande ausência.

Fazia falta a Olga, especialmente à Romy, porque eram muito amigas e tinham vindo da mesma terra. Nunca se separavam. A Romy era mais turbulenta, mas a Olga era uma doçura de menina. Sempre muito quieta, gostava de apreciar as diabruras das suas colegas de ano e quase sempre sorria, embora com um sorriso triste e um olhar vago e distante.

Parecia que sofria de doença crónica e por certo uma doença muito íntima, ligada ao coração e às pessoas que ela tanto amava: os seus pais, a sua família. Por muito que lhe fizessem as freiras, nada era como em casa. Sofria de saudades e isso via-se no seu rostinho meigo e sobretudo no seu olhar pesquisador.

Mas a Olga nunca mais descia do dormitório e começou a ouvir-se dizer que a doença não cedia à medicação e, provavelmente, teria de ir para casa.

As febres eram muito altas e o médico que voltara ao colégio não descobriu a doença que aos poucos ia corroendo aquele corpinho e rostinho de Anjo. A Olga não teve tempo de regressar a sua casa...

Um dia, a notícia caiu como uma enorme pedra. Esmagadora. Cruel. Fatídica. A Olga morreu! Nos seus nove aninhos apenas, foi para o Céu exactamente como viveu na Terra: humilde, sorridente, mas não feliz e com muito sofrimento.

Soube-se mais tarde que afinal não foram as anginas que vitimaram a Olga, mas sim uma nefrite. A medicação não tinha resultado porque a doença necessitava de algo mais para deixar aquele corpinho indefeso.

Chorou-se a sua morte mais que qualquer outra e não se sabe bem porquê.

Talvez porque se precisasse de Anjos como ela na Terra!

terça-feira, 3 de março de 2009

O parto







Era um dia cinzento, muito perto do Natal. Começou bem cedo e foi imemorável. Pelas 4 ou 5 da manhã, um reboliço pouco habitual acordou uma menina de quase sete anos de idade.


Suspendeu a respiração para melhor sentir o que se passava no quarto ao lado do seu. Passos de ida e volta. Movimentos anormais para tão madrugada hora. Súplicas mordidas e...parecia que alguém chorava!


Levantou-se muito devagarinho e tentou ouvir mais atentamente o barulho, abafado por vozes que falavam muito baixinho.


Pensou em sair do quarto, mas algo lhe dizia para permanecer quieta no seu canto. Era mais seguro. Ainda estava escuro e do quarto ao lado vinha apenas uma ténue luz.


E se subisse ao parapeito daquele janela interior? Será que conseguiria?. Empoleirou-se na cama de ferro agarrada à parede lisa e por pouco não caiu ao chão. Tentou mais uma vez colocando os pézitos como se fossem patas de passarinho agarrados ao ferro dos pés da cama. A custo, segurou-se de encontro à parede, apoiada com os braços erguidos e as mãos agarradas à pedra do buraco da janela.
Se conseguisse subir até ao vão da janela, podia ver o que se passava alí tão perto, do outro lado da parede.

Colocou almofadas sobre o ferro da cama e subiu mais um bocadinho, mas era insuficiente. Como gostaria de ter ali uma pequena escada ou até um banco para facilitar a subida e entretanto subia o seu inesgotável sentimento de espionagem...de curiosidade!


Tanto fez, tanto andou, que lá conseguiu subir muito a custo para a janela. O que viu obrigou-a a refletir se devia permanecer ali ou descer e ficar quietinha na sua caminha. Mas a inusitada cena levou-a, mais uma vez a permanecer imóvel.


A mãe estava deitada contorcendo-se com dores, enquanto uma velha que ela não conhecia, estava aos pés da cama numa atitude de espera infinita. De pernas abertas sobre a cama parecia esperar alguém ou alguma coisa que saísse da mãe.


A dada altura o choro e os "ais" da mãe começaram a crescer de tom e a velha levantou a roupa que cobria a mãe para espreitar, sabe-se lá o quê!


Cobriu-a novamente e com um semblante de poucos amigos acenou com a cabeça em jeito de negação. A avó entrou no quarto e perguntou algo à velha tendo esta respondido de novo com a cabeça em sentido negativo.


O que se estava a passar alí? Alguém podia informar??? Porque é que uma pessoa que nunca se viu, está na cama da mãe?


Absorta nestes caminhos não se deu conta que a velha pousou os olhos nela, no momento exacto em que a menina se acomodava no seu novo poleiro.


- Que faz aquela rapariga alí sentada na janela???


A mãe nem se deu conta da pergunta, porque sentia muitas dores e só gemia, mas a avó virou o seu olhar em direcção do dedo em riste da velha e veio depressa retirar a rapariga do lugar.


- Desce, minha filha, desce daí...


- O que está a acontecer à minha mãe?


- Tu vais ter uma irmãzinha ou irmãozinho...


- ???


- A tua mãe está à espera que nasça, depois explico tudo, quando ele estiver cá fora. Agora vai dormir que já te venho chamar. Não saias da cama que tá muito frio.


- O pai?


- Tá na sala. Daqui a pouco vai trabalhar. Fica quieta.

- Porque é que a mãe chora?

- São as dores do parto, minha filha, depois eu conto-te tudo.

São as dores do parto?... Pensava ela que nunca tinha ouvido falar em tal. Só conhecia as dores de barriga e pouco mais!

Deitou-se novamente mas os seus olhos ficaram abertos o resto do tempo. Os seus ouvidos também. A mãe deixara de se ouvir e o reboliço extinguiu-se. Com o cansaço a menina tinha adormecido.

Quando despertou a primeira coisa que fez foi procurar a avó. O dia já ia alto e tudo parecia normal. Da velha nem sombra. Teria ela sonhado??

- Anda cá minha neta que te vou apresentar o teu novo irmãozinho.

Num enorme rolo de cobertor saia uma carinha pouco maior que a da boneca de trapos que a avó lhe dera pelo último Natal.

- Que criança tão pequenina!! Como se chama?

- Manelzinho. Já foi baptizado e tudo correu muito bem.

- Já foi baptizado?

- Já, minha filha, porque nasceu muito fraquinho e se morresse não ia para o Céu se não fosse baptizado, percebes?

A menina já ouvira aquelas palavras na catequese e sabia que todos os nascidos em famílias cristãs como a sua, tinham de ser baptizados. Mas não tinha havido festa de baptismo como acontecera com os irmãos de amiguinhos seus e isso deixou-a triste.

- Posso pegar nele?

- Podes. Só um bocadinho que daquí a pouco ele tem que ir para a tua mãe que lhe vai dar o peito.

- O peito? Para quê?

- Para ele mamar. As crianças enquanto são pequeninas mamam nas maminhas da mãe. Como os cabritinhos e os cãezinhos, lembras-te??Tu também mamaste e foi o diabo para te desmamar!!!

Pegou no irmão com muito jeitinho, sempre sob o olhar atento da avó e nesse preciso momento, olhando a carinha ainda vermelha do irmão recém nascido e prematuro, sentiu o mais profundo e inovador sentimento da maternidade.