
Não há nada mais interessante que as brincadeiras com o cão que se escolhe para integrar a família.
Quatro irmãos recolheram um lateiro ainda pequeno. Chamaram-lhe Joly, porque era lindo e foi o nome aceite por todos, sem qualquer discussão. Era de pelo curto, de pequeno porte e todo castanho. O focinho era levemente pontiagudo e tinha uns olhos castanhos muito ternurentos e sempre suplicantes.
Todas as noites, depois do regresso da escola, aquelas quatro almas não faziam outra coisa senão brincar num dos quartos, sobre a cama, com o pequeno animal.
Não adiantava a mãe ralhar que não queria o cão sobre a cama, nem sequer nos quartos, porque a pequenada, logo que a sentia distraída com as tarefas de casa, era a primeira coisa que faziam. Para cima de uma das camas brincando e rindo com as atitudes do Joly.
O cão era brincalhão e fazia as delícias dos quatro, que não podiam mimá-lo mais. Comidinha a horas, banhinho quando necessário, muita água fresquinha, etc.
Ia com eles para todo o lado e só não ia para a escola porque era proibido. Mas até na Igreja entrava e ficava muito quietinho ao pé da pia da água benta.
Certo dia o Joly ficou muito quietinho num canto, não levantou as orelhas e muito menos abanou a cauda, quando as quatro ferinhas quiseram brincar com ele. Estava molinho!!.... Metia dó. Então quando olhava com aqueles olhinhos suplicantes até dava vontade de chorar. Mas o que teria acontecido e porque estava ele assim tão choquento??
Atiraram com os livros para cima de uma cadeira e foram ter com a avó, que era uma pessoa entendida em animais.
- Vó, que tem o Joly?
- Não sei meus filhos. Já está assim desde o meio da manhã. Já lhe deitei azeite pela guela abaixo, mas não reagiu...
- Azeite?!! Que nojo!...
- Se ele comeu alguma coisa que lhe fez mal, o azeite obriga-o a vomitar.
E lá foram eles encher o Joly de mimos. Mas ele também não se mostrou feliz. Estava mesmo doente e com cara de quem diz: - Deixem-me em paz. Tou a morrer...
As crianças não queriam acreditar naquilo. Algo tinha acontecido e voltaram para falar com a avó que preparava a janta. Mas a avó não sabia como aquietar aquela gentinha, porque não tinha respostas para as suas inquietantes perguntas. Apenas dizia para se acalmarem. No dia seguinte algo se faria pelo Joly. Mas a pequenada não estava disposta a esperar pelo dia seguinte. Queriam acção e rápida.
Chegou entretanto a mãe das crianças, que quase se assustou de verdade, ao ver os quatro correrem para cima dela, dizendo cada um a sua coisa e não se entendendo coisa nenhuma.
- Um de cada vez, por favor!
- O Joly mãe. Está a morrer!
- Cruzes, porquê? Foi atropelado?
- Nada disso mãe. A avó disse que talvez ele tenha comido alguma coisa que lhe fez mal...
- E o que pode ter sido? Deixem-me mudar de roupa, que já vamos ver isso.
E os quatro com a avó esperavam com ansiedade que a mãe desse uma solução e um desfecho feliz àquela desgraça que ameaçava o Joly.
A mãe chamou a mais velha para ir ao quarto.
- Sim, mãe...
- Quem foi que esteve no meu quarto?
- Não sei!
- Quem mexeu nos meus remédios que estavam sobre a mesinha de cabeceira?
- Ninguém mexeu aqui mãe. Juro!
Foi então que a mãe encontrou debaixo da cama a embalagem de um medicamento completamente roída e parte dos comprimidos comidos!!
- Foi o Joly! Só pode ter sido ele. Quem ia roer isto assim??
- Então foi o medicamento que o pôs assim, mãe?
- Não pode ter sido outra coisa!
Desatou a correr para contar aos irmãos o que tinha acontecido com os medicamentos da mãe. A causa da tristeza do Joly e a sua indisposição foram causadas pela ingestão dos remédios!! A avó que ouviu a conversa perguntou para que servia o medicamento que a mãe tomava. Os quatro foram perguntar à mãe e ela respondeu que eram para dormir e para o sistema nervoso. A avó ficou apreensiva mas nada disse.
A pequenada voltou à carga.
- O que fazemos, vó?
- Rezar, meus filhos. Vou pedir a Santo António, Advogado dos animais para que proteja o cãozinho!
O Joly foi colocado numa cesta confortável e com um cobertor para o manter quente. Bebeu mais um pouco de azeite a custo e parte dele saiu forçado pela lingua do Joly, que não parava de cuspir o líquido.
Os quatro não queriam dormir nas suas camas, mas sim ao pé do Joly quase por cima dele, se possível. A avó com a calma habitual retirou as crianças e tranquilizou-as:
- Vão para as vossas camas. Amanhã ele estará melhor. Já pedi a Santo António para o proteger e se ele melhorar, como creio, vou levar uma velinha ao Santo. Mas vocês não podem ficar aqui, porque o cãozinho não vai poder dormir descansado e assim não vai melhorar.
Para bem do Joly, os pequenos obedeceram.
No dia seguinte não foi necessário berrar, como de costume, para sairem da cama. Bem cedo e sem pequeno almoço os quatro foram direitinhos ao sítio do Joly. Ainda combalido, abanou a cauda e olhou com aqueles olhinhos como que a dizer: - Ainda estou muito mal, mas acho que vou melhorar.
Ficaram contentes com os progressos do Joly e foram a correr beijar a avó que tinha feito a promessa ao Santo António.
Quando regressaram ao fim do dia, da escola, o Joly já queria brincar.
O milagre acontecera!

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