quinta-feira, 4 de junho de 2009

O papagaio que não era louro





Se tivesse nascido rapaz, provavelmente chamar-se-ia Tomás, mas como saiu rapariga, chamou-se Tomásia.

Esta gorda e irrequieta criança, tinha tudo menos sansatez. E nem sempre os progenitores tinham muita paciência com as suas habituais traquinices. De faces gorduchas e vermelhas, tinha uns olhos brilhantes e sôfregos de saber. Perguntava tudo a propósito de tudo. Mexia em tudo e poucas coisas eram poupadas à sua enorme curiosidade.

O avô tinha um papagaio que havia trazido de terras de além mar. Era um bicho lindo. Amoroso. Não sabia dizer nada, mas manifestava-se plenamente quando sentia fome ou sede. Vivia numa gaiola grande e todos os dias o seu dono o mimava com falinhas de brasileiro português de lá para os lados de Amarante.


Um dia de muito muito calor, o bicho não tinha água na gaiola e sentia muita sede, por isso não se calava. O dono estava ausente e o pobre do papagaio não sossegava na gaiola. A Tomásia teve então uma ideia genial! Foi procurar umas malaguetas num dos vasos que estava à soleira e deu-as ao papagaio que as devorou num ápice.


Quando o dono chegou a casa, quase teve um ataque, quando viu o estado do animal! Tinha-se depenado quase todo, babava-se muito e parecia que estava doido de todo. O dono nem se podia aproximar. Deu-lhe água, falou com ele, tentou sossega-lo, mas nada.

Espreitou para dentro da gaiola e viu bocados de uma coisa vermelha, aproximando-se cheirou-lhe a malagueta das bravas. Logo adivinhou o que o animal tinha comido e que não fora ali parar pelo ar. Só uma mãozinha mázinha da Tomasinha podia ter sido a autora...


Chamou a Tomásia que, com as faces vermelhas e o andar hesitante se declarou logo culpada. Ainda assim disse que não sabia nada sobre o estado do papagaio, nem o que tinha comido.

- Então quem foi buscar ali ao vaso as malaguetas?

-... (encolhendo os ombros)

- Vai chamar a tua irmã.

...

- Que sabes sobre isto? Quem deu malaguetas ao papagaio?

- Foi a Tomásia!

O dono e amigo intimo do papagaio ficou verde de raiva. Queria bater na rapariga, mas não era apologista de castigos corporais.

Disse a ambas que não saissem do local. Ele já vinha.

Quando chegou trazia na mão uma malagueta vermelha e reluzente.

- Abre a boca.

A rapariga queria fugir, tapou a boca com as mãos, mas nada impediu o castigo. O bom homem esfregou na boca da Tomásia a malagueta até esta se desfazer.

- Vês agora o que fizeste ao papagaio? E tu ainda podes ir beber água e limpar a boca, mas ele não, porque está preso e não tem como reagir à tua partida. Estás satisfeita? Se voltares a por as mãos no papagaio ou lhe dás a comer ou beber coisas que não prestem, vais provar tu também o gostinho que têm.

Os lábios da Tomásia pareciam que tinham silicone. Ardiam como lume e nem a água acalmava aquela fogueira. Quanto mais esfregava mais ardia!

Lição apreendida. Nunca mais a Tomásia se aproximou do papagaio. Só de longe. É que o animal também não suportava a sua presença.

Eles sentem como nós.