quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O apicultor


Era guarda fiscal e nas horas vagas apicultor. Vivia numa casa rodeada por pequenas parcelas de terreno em socalcos e toda a propriedade era fechada com um enorme portão de ferro.
Com ele viviam também duas filhas gémeas muito bonitas e na casa dos 20 anos mais ou menos.
Era muito bem falante, tinha um rosto triangular e a sua figura quando fardado, lembrava um cavaleiro.
Desconhecia-se o estado civil e quem era a mãe das filhas. Era pouco dado a conversas com estranhos e nunca falava da sua vida privada.
Com os colegas mantinha uma certa distância. Era orgulhoso e muito vaidoso.
Fez amizade com um casal que tinha duas filhas e uma delas, a mais velha, tinha muito jeito para aprender coisas novas, mesmo que fossem difíceis. Gostava sobretudo das coisas ligadas à natureza.
Em conversa com a mãe dessas duas meninas, o apicultor, exultou a ciência de cuidar das abelhas e o bem que fazia ter um cortiço ou dois no seu terreno para poder tirar o mel, imprescindível à alimentação e à saúde. A mãe comentou ao jantar que o guarda fiscal tinha cortiços com abelhas e tirava muito mel durante o ano.
Perguntou às filhas se não queriam aprender a lidar com as abelhas. A mais nova disse que não, porque picavam, mas a mais velha mostrou-se curiosa.
Certo dia a mãe pediu ao guarda fiscal para que mostrasse às filhas os cortiços das abelhas e se elas gostassem, se ele podia ensinar alguma coisa a respeito. Disse logo que sim e que ensinaria tudo o que soubesse.
E lá foram as meninas para casa do apicultor, que as apresentou às filhas.
A mais velha das meninas reparou em tudo ao seu redor: como e o que tinham em casa, no terreno à volta da casa, como eram lindas as gémeas, como uma delas varria a sala, onde havia muita poeira e tudo o resto que que fosse diferente e interessante.
Reparou também que as gémeas pouco ligaram ao pai e às recém chegadas, ignorando simplesmente a sua presença.
Depois o guarda fiscal levou as duas irmãs para verem as abelhas, mas de longe, para que não fossem picadas.
Mostrou-se muito solicito e sobretudo muito didático. A sua atenção virou-se exclusivamente para a mais velha das duas e qualquer explicação ia sempre acompanhada de um abraço terno e paternal.
As irmãs gostaram muito da tarde e comentaram com a mãe. Foram a casa do guarda mais umas duas vezes, para ver outra vez as abelhas e pouco mais.
O guarda nunca as deixava sózinhas a não ser numa dessas tardes que disse às filhas para ficarem com a mais nova enquanto ele ensinava umas coisas à mais velha.
As gémeas consentiram, mas a irmã mais nova não quiz deixar a irmã e foi atrás dela. Tudo se passou com a máxima normalidade.
A irmã mais velha reparou nalgum nervosismo do guarda, que não parava de dizer à mais nova que ela podia ficar a brincar com as gémeas em casa, porque não percebia nada de abelhas, como se a mais velha já fosse muito entendida no assunto.
Propôs então a subida aos socalcos, onde havia muitas flores e as abelhinhas iam buscar o pólen para fazer o mel.
As mocinhas lá foram entusiasmadas. As gémeas que nunca saiam de casa vieram ao encontro do pai e fizeram questão em acompanhar o grupo.
Distanciaram-se um pouco e chamaram pela mais nova das irmãs, ficando o guarda sozinho com a mais velha.
Estrategicamente parou num ponto do muro que dividia os socalcos e onde havia um pequeno buraco e atraiu a rapariga para ver o que estava lá dentro. A rapariga olhou para o grupo da frente e reparou que iam sair do seu alcance, mas como estavam perto, acedeu ao convite.
Aproximou-se do buraco e tentou espreitar lá para dentro, mas não viu nada. Quando se virou para dizer que nada tinha visto o guarda abraçou-a e deu-lhe um beijo na boca. Surpreendida a rapariga desembaraçou-se do guarda e fugiu atrás do grupo onde estva a irmã.
Mal as alcançou disse à irmã que iam embora naquele mesmo momento. Quer as gémeas, quer o guarda, tudo fizeram para as segurar mais um tempo. Mas foi em vão.
Quando chegou a mãe, perguntou como fora a tarde na casa do guarda. A mais velha respondeu secamente que nunca mais lá voltaria.
A mãe ficou admirada e perguntou o porquê de tal atitude.
- Não vou mais, já disse. E escusa de me obrigar, porque não vou!
- Porquê? Que foi que te fizeram?
- Nada. Não quero ir mais. Prefiro ficar em casa a passar a ferro...
- Como queiras. E tu também não queres ir para lá? - perguntou à mais nova.
- Não.
A conversa ficou por ali, mas a mãe sabia que as filhas não desistiam assim, sem mais. Resolveu indagar por conta própria. Afinal não se sabia muito dessa gente, a não ser sobre o comportamento profissional do guarda.
Falando com alguém que conhecia muito pessoas, porque era uma cabaneira de mão cheia, foi sabendo que ali, naquela casa e naquela família, havia muito mistério!...
Constava-se até que ele abusava das duas filhas.
A senhora não quiz saber mais nada! Resolveu falar de imediato com a filha mais velha sobre o que realmente se passara, e porque não queria mais saber de abelhas e de apicultura.
A filha não disse nada, mas não lhe faltou vontade para dizer à mãe que ela acreditava em tudo e todos e muitas vezes a colocava em perigo.
Resolveu ficar calada. A mãe percebeu que algo se passara, mas não ia tirar nada a não ser o silêncio da filha.
Mais tarde, o guarda comentou com a senhora que as filhas nunca mais lá tinham ido e se se passara alguma coisa que elas não tivessem gostado. A mãe não comentou nada, desculpou as filhas pela ausência, devida ao recomeço do ano escolar e a coisa ficou por ali.
As gémeas deixaram o pai sozinho e partiram para sempre. Nunca mais se ouviu falar delas, mas do pai comentou-se que abusara de uma menina da mesma idade das duas irmãs e por isso ia responder em juízo.
O pedófilo, guarda e apicultor era useiro e vezeiro nesse tipo de comportamento.
Quando o caso já não era segredo, a mãe, preocupada, perguntou à mais velha se ele tinha abusado dela.
- Não abusou, mas faltou pouco!
A partir daí as irmãs nunca mais foram entregues a pessoas a não ser da família directa.

Um comentário:

  1. Pena as abelhas em vez de mel não lhe terem dado umas boas ferroadas num sítio que cá sabemos... tão cedo não quereria saber de festarola com ninguém... e com sorte deixava de querer abusar de flores!

    Como não é com fel que se apanham moscas, ele tentou mel... PORCO! :P

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