
As alcunhas têm muitas vezes a ver com os tipos de pessoas ou animais, mas no caso em apreço, Boi Bento, não dizia nada do rapaz estouvado e bruto que era o Mário.
Filho de uma lavradeira e um sapateiro, viveu a sua infância como a maior parte da rapaziada da sua idade, naquele pedaço de chão verde, bordado de pequenas montanhas e onde ainda era possível passar a noite com as portas e janelas abertas.
Tinha duas irmãs. A Mia, a mais velha era uma rapariga sensata, tímida, mas muito trabalhadora e era o braço direito da mãe que muitas vezes caía de cama, sem se saber muito bem o que é que tinha. Havia gente que dizia que era encosto... Se era, nunca ninguém soube quem era a alma penada.
A outra irmã, passava o tempo de roda da mãe. Era muito carente e até doentinha também. Não fazia nada, ou quase nada. Era uma espécie de menina bem, naquela família de pobres. O Boi Bento era o do meio. Trazia tudo o que era robusto, desde o tamanho até à estupidez. Passava o tempo de fisga na mão para atirar aos pássaros e depois comia-os fritos! Que nojo que aquilo metia à mais nova, que não gostava muito das caçadas do irmão.
Certo dia estavam de conversa dois vizinhos. Os dois, ao portão, jogando conversa a respeito de tudo e de todos e ninguém em particular. Uma criança novinha, brincava perto deles.
O Mário aproximou-se e viu-se no seu rosto uma vontade enorme de entrar na brincadeira da miúda. Esta ao vê-lo parou e fitou-o como que dizendo: - Queres brincar?? Vais ver a brincadeira que te espera!.
Como se tivesse adivinhado, o Boi Bento parou e hesitou continuar. A rapariga voltou à sua brincadeira de roda dos mais velhos e estes continuaram a conversar distantes das atitudes dos mais pequenos.
O rapaz ganhou força e foi direitinho à rapariga com uma pergunta que já não lhe saiu dos lábios. Nesse preciso momento a rapariga pegou num pau e malhou no rapaz que tentou proteger a cabeça entre as pernas, enquanto a rapariga o fustigava nas costas.
O avô ficou atónito com a cena e resolveu interromper, tirando o pau à rapariga e levantando o pobre coitado. Preparava-se para levantar a mão para castigar a rapariga, mas esta afastou-se o suficiente para poder falar e não levar uma boa sova. A vizinha também ajudou à festa, convidando o avô a castigar a miúda, que lhe deitou um olhar fatal...
- Que maneiras são essas? Foi isso que te ensinaram??
- Ele mordeu-me...
- O quê? Não vimos nada!
- Mas não foi hoje, foi no outro dia.
O avô que sempre acreditou na neta ficou com a pulga atrás da orelha, desta vez.
- Hummmm.... Onde te mordeu?
- Nas costas!
- Nas costas? Em que sítio?
- Aqui...
E apontou com a maozinha para a parte de cima da omoplata muito próximo do pescoço.
- Quero ver isso. Mostra lá.
Entretanto o rapaz berrava a plenos pulmões, esperando ver o desfecho da coisa e querendo que o avô a castigasse ali mesmo, na frente dele.
O avô desabetoou o vestido da menina e verificou que tinha efectivamente uma dentada perto do ombro, muito bem desenhada, com os dentinhos todos do Boi Bento e que ainda mostrava sinais de ser recente.
Nenhum dos adultos teve coragem para dizer fosse o que fosse à rapariga. De facto não só falara verdade como o castigo tinha sido justo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário