domingo, 28 de dezembro de 2008

A castelã


Era uma vez uma princesa que vivia num castelo medieval.



Filha de pais abastados, teria sido criada e educada para um dia assumir os destinos do castelo e seu reino.



Quiz o destino que assim não fosse. A sina desta princesa foi bem diferente e ainda não se sabe porquê!



Num dia de Maio quente nasceu uma menina. O seu nome ainda não era conhecido, porque se esperava mais um varão. Mas os pais dessa princesa não tinham dúvidas quanto ao nome que lhe iriam dar no dia do seu baptizado, caso fosse menina: Flor!

A Flor foi irmã de seis rapazes e foi considerada como a mais querida prenda de Deus. Uma menina que foi tão desejada ao longo dos anos! Os seus pais já nem acreditavam que algum dia pudessem contar na sua prole com uma princesinha igual. E a Flor era mesmo uma flor. Muito linda, de rostinho redondo, cabelinhos encaracolados alourados e uns olhos muito expressivos. Fez a delícia dos progenitores.

No dia seguinte ao do seu nascimento toda a família, incluindo os seis irmãos foram aos aposentos da mãe ver a sua linda irmã.

O mais pequeno dos irmãos, o Pedrinho, reparou num promenor da face da Flor! Tinha uma mancha vermelha que parecia uma flor e que lhe cobria parte da face esquerda até à tempora. O Pedro ficou a olhar e interpelou a mãe: - Porque é que ela tem esta flor na cara, mãe??



A mãe já esperava aquela observação e responde serenamente que a irmã se chamava Flor, porque tinha querido Deus que ela viesse assinalada com aquela flor na cara, que era uma rosa.

- Então ela devia chamar-se Rosa e não Flor!...
- Vamos repensar no nome da tua irmã, Pedrinho. Mas agora deixa-a dormir. Está muito cansada.

De regresso a casa, o pai de Flor vai rapidamente verificar como estão as suas duas meninas e a mãe de Flor conta-lhe o episódio passado com o Pedrinho.
O pai argumenta que a tese do filho não deixa de ter uma certa razão. Afinal, o nome Flor, não especifica por si só, uma flor.
Podia ser um lírio, um cravo, uma margarida, uma madressilva, uma dália, uma rosa, uma açucena, umá azália, qualquer flor...

- Mas a questão não está na especificação da flor e sim no significado próprio de FLOR! Percebes?

- Não entendo...diz o pai desolado.

- Quando a nossa menina nasceu, pensamos que viria mais um rapaz, não foi? - explica a mãe com jeito de sabedoria incondicional - Quando nos deparamos com uma menina eu pensei logo que algo de muito valioso tinha acontecido na nossa vida! A nossa Flor vem assim como prenúncio de pessoa bonita, agradável, coisa excelente, delicada, jovem, elegante... tal qual uma flor quando desabrocha na Primavera!

- Mas continuo a não ver porque se não há-de chamar Rosa em vez de Flor!?

- Não percebes...Flor é muito mais abrangente. Se pensares numa rosa pensas na sua cor, no seu estilo, nas suas pétalas, nos seus espinhos...Mas se pensares em flor, pensas em múltiplas pétalas, múltiplas cores, múltiplas formas...

A conversa ficou morna e sem fim à vista. Era caso para pensar...

Podia chamar-se Rosa Flor, ou Flor de Rosa, ou Rosiflor... Ah!... não é a mesma coisa. Flor, simplesmente Flor e não se fala mais no assunto.

Flor cresceu no meio de uma família marcada pelo sexo masculino. Apenas a mãe percebia das "coisinhas" que as meninas às vezes reclamam por serem meninas. Nas brincadeiras era mais um rapaz, igual ou pior que os seus seis irmãos.

Um dia muito feio, muito triste, três dos seus irmãos brincavam com a Flor na sala. Os pais estavam ausentes, não muito longe do local onde eles se encontravam. Um deles encontrou, por acaso, uma arma de caça do pai e, brincando às caçadinhas, apontou-a à Flor e ao Pedro que estavam juntos a brincar.

Rindo os quatro com a brincadeira do irmão, não tiveram tempo de fazer mais nada... A criança puxou o gatilho da arma que infelizmente estava carregada e dispara certeira à cabeça de Flor que cai inanimada no chão.

Por sorte o Pedro saiu ileso, uma questão de centímetros. Ainda assim foi empurrado com a queda da irmã.

Os pais gelaram de medo quando ouviram o tiro e num tiro puseram-se os dois em frente à cena do crime...

A Flor seria enterrada no dia seguinte. Foi o dia mais triste e mais negro daquela família. A castelã, única, desejada, jovem e linda Flor, partira para sempre...

A sua lápide dizia simplesmente: "Até já Flor"

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

As teias das aranhas


Era soqueiro e tinha uma oficina feita de madeira com quatro metros quadrados. A oficina tinha uma janela que estava sempre fechada e uma porta sempre aberta para um pátio sobre o qual pendia uma velha videira de uvas morangueiras, que exalavam um perfume doce, durante o Outono.

Era uma figura pequena, magra e curvada pelo peso dos anos. No seu nariz adunco, pousavam umas lunetas muito antigas.

Andava devagar, porque as pernas já não eram como outrora, quando o levavam para qualquer lado onde houvesse festa. Ele era primeiro violino na Banda. Tocava com a alma e o coração, mesmo sem nada receber em troca.

As suas mãos eram únicas!. Não sei se preferia vê-las a dedilhar as cordas do violino ou a cortar à navalha o couro duro dos socos...

Era também meu professor de solfejo, porque o meu pai queria a todo o custo que a filha tocasse concertina, mas tinha que ser por música, que de ouvido não era grande coisa...

Enquanto eu solfejava, o Tio Diniz, cortava a madeira e o couro para fazer os socos. Eu olhava para a navalha e admirava a facilidade do corte e de como era certeira e não se desviava do risco.

Olhava para as suas mãos magras, calejadas, muito firmes...

Tudo servia para me distanciar do solfejo, que era uma seca!

Ele advinhava os meus pensamentos e fazia-me repetir a escala, quando me sentia distraída.

Um dia senti-o um pouco nervoso, mas não me atrevi a perguntar nada. O respeito era muito. Contudo algo se teria passado, porque estava "azedo", mordaz e logo me preveniu que não admitia distracções.

E a aula começou: comigo no solfejo e o Tio Diniz com a navalha de cortar couro.

Por um instante, não sei bem o que se passou, mas algo nos distraiu... Qualquer coisa que sombreou a oficina e fugiu à frente da porta e que nos fez parar.

Num instante o Tio Diniz golpeou um dos seus dedos com aquela terrível navalha! Arregalei os olhos e parei de solfejar. Não tirei mais os olhos da mão que sangrava muito. Levantou-se, resmungou qualquer coisa que não percebi e disse-me para continuar a solfejar.

Eu não queria desobedecer, mas a sua mão sangrando prendia-me a atenção e perguntei-lhe se não queria que fosse chamar a mulher. Respondeu-me com um não muito assertivo. Ele trataria do assunto.

Os meus olhos saltitavam entre o livro de solfejo e os passos dele. Apertando a mão ensanguentada, dirigiu-se a uma parede da oficina. Olhou para cima. Olhou para o outro lado, para a esquina da outra parede. Parecia procurar alguma coisa... Mas o quê?

Fiquei estupefacta quando o vi envolver o dedo e parte da mão numa enorme teia de aranha acizentada e poeirenta!

Quando voltou ao seu lugar a hemorragia já estancara. Voltou-se para mim e disse-me que as aranhas e as suas teias, ao contrário do que muita gente pensa, não servem apenas para apanhar insectos voadores. Servem sobretudo para fazer parar as hemorragias!

Muitos anos se passaram depois deste episódio.

Mas sempre que vejo as teias de aranhas, recordo aquele dia e não tenho dúvidas que na natureza está a satisfação de todas as nossas necessidades, mesmo aquelas que nos parecem absurdas.