sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Freira



De criança rebelde, irrequieta, incontrolável, desobediente e má, passou a adolescente humilde, dada às práticas religiosas, tocava no coro da igreja, dava catequese, era filha de Maria, enfim, um amor de rapariga que fazia o orgulho dos pais.


Um dia, conversando com uma das freiras que acompanhavam o seu percurso escolar, resolveu perguntar a uma delas o seguinte:
- Irmã, o amor que nós sentimos por Cristo é igual ao amor que se sente por um homem?
A freira inclinou a cabeça em jeito de pensar a resposta que iria dar... Depois, calmamente, respondeu que sim. Que era igual ao amor por um homem.
Ela pensou na mentira que acabara de ouvir e agradecendo virou costas.
Não era essa a resposta que a adolescente pretendia e a pergunta tinha sido intencionada. Dir-se-ia, até provocante. Ela sabia que uma coisa é o amor a Cristo e outra o amor a um homem. O primeiro, manifesta-se pela forma solidária e desinteressada como se reparte entre todos os seres humanos, independentemente do sexo, religião ou confissão. O segundo, depende de muitos factores, sendo mais um sentimento puxado por interesses carnais ou societários, que propriamente altruístas.
Mas a adolescente não quiz desvendar que a pergunta tinha sido insidiosa. Quando ela pensava num homem ou rapaz, não via nele Cristo, via-o como ele era e queria amá-lo com todos os seus sentidos.
A mãe dessa adolescente, numa visita que fez com a filha ainda pequena a um colégio de freiras, caiu no ridículo de dizer que a criança pensava ser um dia freira. À pergunta de uma velhinha irmã, se era de facto essa a sua vontade a, ainda menina, respondeu que sim. Hipócritamente logo se viu, para não deixar a mãe ficar mal na fotografia. E toda a comunidade religiosa, ali mesmo, fez questão de orar pelas boas intenções da pequena e a sua futura integração numa ordem religiosa. Ela sentiu o peso dessa responsabilidade, mas sabia que só seria freira se quisesse e fosse responsável.
Volvidos alguns anos, já adolescente sabida, a moça olhava nostalgica para aquelas carinhas lindas das freiras, sempre aprumadas no seu hábito negro, sempre de livrinho de orações nas mãos e nos bolsos o terço. E adorava a sua vida recatada, monótona, entregue às coisas do Céu... Tinham apenas que se preocupar com a Igreja, aulas, catequese, brincadeiras no recreio, festinhas de Natal, de fim de ano! Parecia tudo tão sossegado e tão bom que ficava a pensar se realmente não seria boa escolha ir para freira. Pensava então no dia em que uma legião de freiras rezou pela sua vocação para freira.
Mas a sua vocação não era ser freira...

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