
Tinha a forma hexagonal e estava sempre cheio de água que saia cristalina por um tubinho que se situava a meio. Esse chafariz atraía as crianças que passavam por alí, especialmente nos dias quentes e abafados de Verão. Era um chafariz muito tentador.
Situava-se no início da alameda das tílias, frondosas e perfumadas na flor. A alameda descia para duas pequenas pontes construídas em madeira, que davam acesso às fontes de água medicinal. O lugar era conhecido por Águas e nele descansavam e se tratavam muitos doentes que sofriam do fígado e dos diabetes. Todo o espaço tinha frondosas árvores e ruas em terra batida. As margens das ruas estavam bordadas com inúmeras hortenses, floridas e de muitas cores. A mais bonita era a cor de sulfato!
Nesse lugar havia muita vida e muito trabalho nos meses de Verão. Enquanto as termas estavam abertas, os visitantes domingueiros, aproveitavam as sombras e o fresco, para piquenicar. Jogava-se num mini golfe, podia-se andar num pequeno barco num riacho que vinha do monte e que dividia as duas fontes, podia-se brincar às escondidas atrás dos enormes troncos das árvores seculares, podia-se passear, correr, trepar às árvores de pequeno porte. Enfim, era a liberdade total em harmonia com o paraíso verde e fresco!
Num pequeno regato que também descia até ao riacho, a água saltitava de pedra em pedra e muito perto da Fonte Nova as pedras tinham uma cor diferente. Eram amarelas por causa das propriedades da água que os doentes tomavam por uns copinhos com letras.
Dava gosto vê-los! Velhinhos uns, mais novos outros, mas todos muito bem vestidos e arranjados, aguardavam sentados, em espreguiçadeiras, a sua vez. Depois, num gesto lento e cuidado dirigiam-se à menina que estava num buraco redondo, que pegava num copo (cada doente tinha o seu), que enchia por medida e o dava ao paciente, com um sorriso. Os domingueiros e visitantes fortuitos também podiam beber, mas era em copos sem letras. Eram cheios e podia-se repetir. Como eram boas aquelas águas. Algumas vezes, quando bebidas em demazia, faziam diarreia, o que era muito bom para desopilar a tripa.
Certo dia, duas irmãs e um amiguinho, passaram pelo tal chafariz e, como sempre, pararam a ver como o biquinho no meio dele, espirrava a água em arco para dentro do lago, sempre da mesma forma, sempre a mesma quantidade.
Um deles teve uma ideia genial! E se conseguissemos tapar o bico da água?
- Como?
- Com um pau, sei lá!
E lá foram em debandada procurar pauzinhos que chegassem até ao bico e tapassem a água. Não foi fácil a busca, mas ainda assim, trouxeram uns paus pequenos e finos que pareciam capazes de provocar tal efeito.
Todos de volta do chafariz, de joelhos, tentaram tapar o bico. Mas a tarefa estava difícil. Ou o pau não era suficientemente comprido e não chegava lá, ou demasiado fino e não tapava coisa nenhuma. Porém, havia um que parecia satisfazer a vontade da pequenada. Mas tinha que ser empunhado por um que se atrevesse a esticar bem um dos braços, senão não chegava ao bico. E assim foi. Uma das raparigas pegou no pau, aproximando-se o mais que pôde da margem e esticando o seu braço, tentou alcançar o bico da saída da água. Ao lado estava a claque a mandar no braço da rapariga com os apelos da praxe:
- Mais para o lado daqui... dali, dacolá...
Tanto fizeram que, num movimento menos pensado a rapariga caiu ao lago e molhou-se toda! Felizmente o chafariz não era muito fundo e não deu para se afogar, mas que ficou ensopada, ficou!
E agora? Como vai ela para casa, assim toda molhada? Na melhor das hipóteses vão todos levar uma boa sova para não brincarem mais com o chafariz.
Pensaram então como tirar a roupa da rapariga e vesti-la mais ou menos com as roupas de cada um dos outros dois. O que poderiam tirar para cobrir a coitada que tremia de frio e de nervos? Foram para trás de uma árvore onde ninguém os visse e começaram a despir a pobre. Depois cada um entregava uma peça. O pior é que havia mais que vestir da cinta para cima do que da cinta para baixo!. O rapaz não podia tirar as calças e a outra rapariga não podia ficar sem cuecas e sem a saia. Como fazer?
Tiraram as cuecas do rapaz que ficou tapado com as calças e a outra rapariga deu a combinação que trazia debaixo da saia. Para o peito o rapaz emprestou a camisa e ficou com o colete e a rapariga emprestou o casaco de malha. A mocinha parecia um fantoche! Mas estava vestida e ninguém haveria de reparar que ela ia de combinação.
E assim subiram a Folia, passaram pelo Cruzeiro, pelo Cimo de Vila e, finalmente, em casa!. Os três, olhando para todos os lugares rezando para que não aparecesse ninguém a perguntar porque a rapariga ia com os cabelos todos molhados e vestida de carnaval. Quando chegaram a casa tiveram que contar o sucedido, omitindo o verdadeiro motivo do banho. Passaram sem tareia, mas levaram muitas ameaças e ralhetes.
Nunca mais se aproximaram do chafariz!

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