
Era um dia cinzento, muito perto do Natal. Começou bem cedo e foi imemorável. Pelas 4 ou 5 da manhã, um reboliço pouco habitual acordou uma menina de quase sete anos de idade.
Suspendeu a respiração para melhor sentir o que se passava no quarto ao lado do seu. Passos de ida e volta. Movimentos anormais para tão madrugada hora. Súplicas mordidas e...parecia que alguém chorava!
Levantou-se muito devagarinho e tentou ouvir mais atentamente o barulho, abafado por vozes que falavam muito baixinho.
Pensou em sair do quarto, mas algo lhe dizia para permanecer quieta no seu canto. Era mais seguro. Ainda estava escuro e do quarto ao lado vinha apenas uma ténue luz.
E se subisse ao parapeito daquele janela interior? Será que conseguiria?. Empoleirou-se na cama de ferro agarrada à parede lisa e por pouco não caiu ao chão. Tentou mais uma vez colocando os pézitos como se fossem patas de passarinho agarrados ao ferro dos pés da cama. A custo, segurou-se de encontro à parede, apoiada com os braços erguidos e as mãos agarradas à pedra do buraco da janela.
Se conseguisse subir até ao vão da janela, podia ver o que se passava alí tão perto, do outro lado da parede.
Colocou almofadas sobre o ferro da cama e subiu mais um bocadinho, mas era insuficiente. Como gostaria de ter ali uma pequena escada ou até um banco para facilitar a subida e entretanto subia o seu inesgotável sentimento de espionagem...de curiosidade!
Tanto fez, tanto andou, que lá conseguiu subir muito a custo para a janela. O que viu obrigou-a a refletir se devia permanecer ali ou descer e ficar quietinha na sua caminha. Mas a inusitada cena levou-a, mais uma vez a permanecer imóvel.
A mãe estava deitada contorcendo-se com dores, enquanto uma velha que ela não conhecia, estava aos pés da cama numa atitude de espera infinita. De pernas abertas sobre a cama parecia esperar alguém ou alguma coisa que saísse da mãe.
A dada altura o choro e os "ais" da mãe começaram a crescer de tom e a velha levantou a roupa que cobria a mãe para espreitar, sabe-se lá o quê!
Cobriu-a novamente e com um semblante de poucos amigos acenou com a cabeça em jeito de negação. A avó entrou no quarto e perguntou algo à velha tendo esta respondido de novo com a cabeça em sentido negativo.
O que se estava a passar alí? Alguém podia informar??? Porque é que uma pessoa que nunca se viu, está na cama da mãe?
Absorta nestes caminhos não se deu conta que a velha pousou os olhos nela, no momento exacto em que a menina se acomodava no seu novo poleiro.
- Que faz aquela rapariga alí sentada na janela???
A mãe nem se deu conta da pergunta, porque sentia muitas dores e só gemia, mas a avó virou o seu olhar em direcção do dedo em riste da velha e veio depressa retirar a rapariga do lugar.
- Desce, minha filha, desce daí...
- O que está a acontecer à minha mãe?
- Tu vais ter uma irmãzinha ou irmãozinho...
- ???
- A tua mãe está à espera que nasça, depois explico tudo, quando ele estiver cá fora. Agora vai dormir que já te venho chamar. Não saias da cama que tá muito frio.
- O pai?
- Tá na sala. Daqui a pouco vai trabalhar. Fica quieta.
- Porque é que a mãe chora?
- São as dores do parto, minha filha, depois eu conto-te tudo.
São as dores do parto?... Pensava ela que nunca tinha ouvido falar em tal. Só conhecia as dores de barriga e pouco mais!
Deitou-se novamente mas os seus olhos ficaram abertos o resto do tempo. Os seus ouvidos também. A mãe deixara de se ouvir e o reboliço extinguiu-se. Com o cansaço a menina tinha adormecido.
Quando despertou a primeira coisa que fez foi procurar a avó. O dia já ia alto e tudo parecia normal. Da velha nem sombra. Teria ela sonhado??
- Anda cá minha neta que te vou apresentar o teu novo irmãozinho.
Num enorme rolo de cobertor saia uma carinha pouco maior que a da boneca de trapos que a avó lhe dera pelo último Natal.
- Que criança tão pequenina!! Como se chama?
- Manelzinho. Já foi baptizado e tudo correu muito bem.
- Já foi baptizado?
- Já, minha filha, porque nasceu muito fraquinho e se morresse não ia para o Céu se não fosse baptizado, percebes?
A menina já ouvira aquelas palavras na catequese e sabia que todos os nascidos em famílias cristãs como a sua, tinham de ser baptizados. Mas não tinha havido festa de baptismo como acontecera com os irmãos de amiguinhos seus e isso deixou-a triste.
- Posso pegar nele?
- Podes. Só um bocadinho que daquí a pouco ele tem que ir para a tua mãe que lhe vai dar o peito.
- O peito? Para quê?
- Para ele mamar. As crianças enquanto são pequeninas mamam nas maminhas da mãe. Como os cabritinhos e os cãezinhos, lembras-te??Tu também mamaste e foi o diabo para te desmamar!!!
Pegou no irmão com muito jeitinho, sempre sob o olhar atento da avó e nesse preciso momento, olhando a carinha ainda vermelha do irmão recém nascido e prematuro, sentiu o mais profundo e inovador sentimento da maternidade.

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