
Sempre se imaginam os Anjos com uma carinha branca como a cera, uns olhos expressivos azuis, cor do mar sereno, cabelo louro em cachos, vestidos de branco e com duas asas.
O que faltava à Olga eram as asas, de resto tinha tudo, inclusive as vestes brancas ou claras que sempre trazia para realçar a sua candura e o seu sorriso tímido.
Certo dia a Olga deixou de frequentar as aulas e todas comentavam que estava muito doente das anginas. Como estava internada num colégio de freiras, o procediemtno era sempre o mesmo. Ficavam de cama até o médico chegar e diagnosticada a doença, as freiras eram as mães ausentes, as enfermeiras e muitas vezes as portadoras de algum carinho.
A Olga permaneceu muito tempo de cama o que parecia não ser natural dado que apenas estava doente da garganta, coisa pouca, para tão grande ausência.
Fazia falta a Olga, especialmente à Romy, porque eram muito amigas e tinham vindo da mesma terra. Nunca se separavam. A Romy era mais turbulenta, mas a Olga era uma doçura de menina. Sempre muito quieta, gostava de apreciar as diabruras das suas colegas de ano e quase sempre sorria, embora com um sorriso triste e um olhar vago e distante.
Parecia que sofria de doença crónica e por certo uma doença muito íntima, ligada ao coração e às pessoas que ela tanto amava: os seus pais, a sua família. Por muito que lhe fizessem as freiras, nada era como em casa. Sofria de saudades e isso via-se no seu rostinho meigo e sobretudo no seu olhar pesquisador.
Mas a Olga nunca mais descia do dormitório e começou a ouvir-se dizer que a doença não cedia à medicação e, provavelmente, teria de ir para casa.
As febres eram muito altas e o médico que voltara ao colégio não descobriu a doença que aos poucos ia corroendo aquele corpinho e rostinho de Anjo. A Olga não teve tempo de regressar a sua casa...
Um dia, a notícia caiu como uma enorme pedra. Esmagadora. Cruel. Fatídica. A Olga morreu! Nos seus nove aninhos apenas, foi para o Céu exactamente como viveu na Terra: humilde, sorridente, mas não feliz e com muito sofrimento.
Soube-se mais tarde que afinal não foram as anginas que vitimaram a Olga, mas sim uma nefrite. A medicação não tinha resultado porque a doença necessitava de algo mais para deixar aquele corpinho indefeso.
Chorou-se a sua morte mais que qualquer outra e não se sabe bem porquê.
Talvez porque se precisasse de Anjos como ela na Terra!

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