
Uma vez, muito tempo atrás, viu uma alma que não lhe parecia deste Mundo. Magro, olhos encovados, curvado sobre si, apoiado numa bengala, esperava pacientemente entrar para a Igreja e sentar-se como sempre no último banco.
Era visto todos os dias Santos, ao Domingo e sempre que cerimônias religiosas se realizavam na pequena igreja da aldeia onde vivia. Rezava muito e em todas as cerimônias usava um tercinho preto com uma medalhinha de lata com Nossa Senhora de Fátima.
Dizia com graça, que era para que Deus o recebesse contente!
Certo dia faltou à Missa do Domingo e a sua ausência obrigou a um murmurinho abafado entre as comadres da frente, que a todo o tempo olhavam para o lugar que ele, quase sempre ocupava, no dito banco de trás.
No fim da Missa alguém perguntou pela alma ausente e ninguém sabia o motivo da falta ao ato religioso.
Vivia só, com um cão de guarda, tão velho quanto ele e da família só se sabia que emigrara há muito tempo para o Canadá e nunca mais haviam regressado à aldeia. Por isso mesmo, aquela alma, tinha estampado no rosto uma profunda tristeza.
Passada uma semana, repara-se de novo a sua ausência na Missa e as outras almas começam a ficar preocupadas. Já haviam batido na porta da casa dele, mas ninguém respondera, nem o cão.
Foram falar com o padre que aconselhou a chamar uma entidade oficial para arrombar a porta da casa, caso ele não desse sinal de vida. Pois, podia ter morrido ou estaria doente e sem possibilidade de abrir a porta. Também podia ter ido a algum lado, ou estaria com alguém de fora. Sabe-se lá!
O melhor era ir ver o que se passava com aquela alma de Deus e aguardar por notícias.
A população resolveu seguir o conselho do padre e procuraram na Junta de Freguesia a pessoa indicada para ir ao local onde vivia o dito senhor. Foi o presidente que foi escolhido, porque na verdade mais ninguém havia para tal ato.
Chegados ao local, bateram na porta, chamaram, bateram palmas, atiraram pedrinhas à janela, de tudo foi feito para chamar aquela alma. Mas nada! Tudo num silêncio sepulcral.
Só havia um remédio: chamar a guarda porque o presidente da junta não tinha poderes.
E assim se passou mais um dia e entraram na segunda semana de ausência de corpo e de notícias do pobre.
O Senhor Guarda veio com um ferreiro para rebentar com a fechadura, caso fosse necessário.
E assim foi, como não havia resposta o melhor era mesmo arrombar a porta. E lá se abriu a dita. Chamando, lá foram entrando como ratos em cozinha fechada, em fila indiana, uns atrás dos outros, cagados de medo porque não adivinhavam o que iriam encontrar.
Entraram pela cozinha, primeiro compartimento da casa e nada! Passaram à sala, onde era recebido o Compasso pela Páscoa, e nada! Passaram às alcovas...vazias e arrumadas como se ninguém ali tivesse dormido nos últimos séculos.
Nada, mesmo nada! Onde se teria metido? Estranharam tal "sumisso". De repente alguém se lembra que poderia estar no campo atrás da casa...
Deixaram a casa aberta e como coelhos saíram à procura da alminha perdida! Mas no campo também não estava!
Há muito tempo que ninguém morria naquela aldeia e por isso há muito tempo que ninguém passava pelo cemitério. Seria possível ter ido para lá?
Tal coisa parecia descabida, mas na verdade ninguém podia adivinhar o paradeiro do homem e do seu cão. Sem parentes, sem ninguém só podia estar perdido...
Regressaram aos seus lares, pensativos, incrédulos com a novidade do desaparecimento raro de uma pessoa aparentemente sã física e mentalmente.
No dia seguinte toda a aldeia já sabia que o homem desaparecera. Alguém lançou mais confusão quando disse que se calhar tinha sido raptado ou levado por um "obni". O quê? Que raio é isso?. Mas ficou-se sem explicação.
E os dias foram passando sem que ninguém descobrisse o paradeiro daquela alma de Deus!
Poucos dias depois a Tia Maria morreu de velhice. O coveiro foi abrir a vala para ali ser enterrada.
Ao entrar no cemitério, reparou num vulto de preto jazendo no mesmo local onde seria enterrada a Tia Maria. Aproximou-se e reparou atônito que se tratava do homem desaparecido. Não aparentava ter morrido há muito tempo... Talvez um ou dois dias, no máximo.
Tocou os sinos como se de fogo se tratasse e num instante toda a aldeia se reuniu no adro da Igreja a perguntar onde era a desgraça...
A alminha do homem tinha partido também. Agora eram dois a enterrar e o cão também. A morte não é senão um estádio da vida, vem quando menos se espera e acontece em qualquer lado.
