quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os Passarinhos e os predadores

Ainda se sentia um frio de Inverno, mas toda a natureza gritava pela Primavera.
Meia dúzia de putos entre os cindo e os sete anos, preparavam-se para mais um dia de aventuras, descalços, cheios de fome, mas muito alegres e bem dispostos. Não havia muito por onde escolher. Ou jogavam às escondidas, à cabra-cega, à bola, ou iam fisgar os pássaros.
A única rapariga do grupo, perguntou:

- Fisgar os pobres pássaros? Para quê? Isso é alguma brincadeira?

A resposta não se fez esperar. Ir aos pássaros não era propriamente um brincadeira, mas uma forma de matar a fome. Se algum deles caísse ao chão, sempre se fritava e mesmo que não desse para todos, algo mais se arranjaria.

A rapariga retorquiu:

-Sois mesmo xouxos. Os pássaros são tão pequeninos que nem dão para a cova de um dente.

Mas a maioria aprovou a matança e todos desenbolsaram a sua fisga. A passarada pressentiu o perigo e deambulou de galho em galho, rodopiando sem pressa sobre a copa das árvores. Era muito difícil fisgá-los em movimento.
Num incessante "olha ali", "aquele, aquele", "qual?", "não vejo", "onde está?", a pequenada corria como doidos de um lado para o outro. De vez em quando saía uma asneira de algum que quase acertou, mas não acertou!
E assim se passaram as horas e se aproximava o toque do sino da Igreja para anunciar o meio-dia. Todos paravam para rezar a oração respectiva. "O Anjo anunciou a Maria e Ela respondeu: Faça-se em mim, segundo a Tua Palavra. Avé Maria"
As fisgas não deram resultado pelo que optaram em mandar umas pedrinhas certeiras às árvores.

A rapariga interviu novamente:

- Se o meu avô vos vê, temos barulho pela certa. Ele não gosta que atirem pedras às arvores, porque se estragam as flores e depois não há frutos.

- Cala-te! Tu aqui não mandas nada. Se apanharmos um pássaro és tu que o vais fritar.

- Eu?!

- Sim tu. São as raparigas que cozinham, não são os rapazes...

- Mas eu nem sei arranjar os pássaros. Nunca comemos!

- Isso é comigo. Eu depeno. Tu fritas.

A rapariga não estava a gostar nada da situação. Felizmente que os seus avós chegariam tarde, porque tinham ido à Vila tratar de assuntos importantes, mas já estava a ver a confusão que ia dar todo aquele rancho de esfomeados a depenar os pássaros para depois serem fritos.
Não ia dar certo, por certo, mas tanta responsabilidade numa só rapariga enchia-a de brios!

E um pássaro caiu ao fim de muito tempo de pedradas voando em direção às copas.
O alvoroço da pequenada foi tremendo. Quem ouvisse pensaria que algum deles se tivesse aleijado. Eram gritos, risadas, pinchos de alegria. Só a rapariga estava triste ao ver o pobre passarinho inanimado no chão.
O mais voluntarioso e provavelmente o mais faminto pegou nele com jeitinho. Adivinhava-se um certo desgosto, mas a fome falava mais alto.
O bichinho foi depenado mal e porcamente, enquanto a rapariga punha ao lume a certã com um fio de azeite.

- E agora? Não leva sal? Não lhe tirais a cabeça...vai assim?

- Claro, come-se tudo!

A rapariga que não pensava sequer cheirar o petisco, fez um trejeito de vómito e o pássaro lá foi para cima do azeite a ferver. Salpicou, o que fez com que todos aqueles "abutres" saíssem de cima da certã.
Volta de um lado, volta do outro, o pássaro parecia que desaparecia, estava passado demais e quase esturricava. O matador disse para o tirar da certã que já se podia comer.
O cheiro do animal frito era enjoativo, tanto mais que ainda tinha as vísceras e a cabeça ensanguentada. Era um nojo.
Foi colocado num prato de barro e esperaram que arrefecesse. O atirador disse que o ia esquartejar para dar para todos. Primeiro tirou as pernas, depois o que restava das asas e quando abriu o pobre animal verificou-se que não tinha morrido da pedrada, mas de outra morte qualquer. O cheiro era uma mistura de caca e penas cozidas em azeite.

E lá começou a festança. Todos comeram, não se sabe bem o quê.
Não mataram a fome, mas sentiram a adrenalina de predadores.
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