Era Verão e em toda a casa se respirava um bafo quente de madeira seca. Lá fora nem uma brisa. O quarto de costura só tinha farrapo: roupas para engomar, roupas para consertar, roupas para transformar, tudo quase a monte. A mãe chegou com as suas habituais dores de cabeça e quis deitar-se um pouco no sofá/cama do quarto de costura.
Entrou e deitou-se pesadamente enquanto alguém, silenciosamente, a espiava. Sentiu-se um soluço e depois parece que adormeceu. Chegou uma vizinha que vinha vê-la. Entrou e esperou na sala de jantar. A mãe levantou-se a custo e depois de ver quem a esperava puxou-a para o quarto de costura. Tudo com muito segredo e sussurrando quase ao ouvido uma da outra.
Não se sabia bem porquê, mas temia-se uma "tempestade" de Verão quente e doente.
A vizinha saiu com ar de quem trouxe novidades acabadas de chegar. A mãe disse para se preparar algo para a janta e que não lhe apetecia comer porque estava com uma brutal dor de cabeça. Só não se compreendia porque permanecia no quarto de costura e não no seu quarto.
O pai chegou e perguntou pela Maria.
- Está no quarto de costura. Tem dor de cabeça e não vai comer a janta.
Silêncio
E lá se passou o tempo com todos à mesa excepto a mãe que permanecia agachada no sofá do quarto de costura.
- Vai perguntar à tua mãe se não quer tomar um chá ou um leite quente.
...
- Diz que não e quer que a deixem em paz.
- O que tem ela pai?
-Não sei. Amanhã estará melhor.
No dia seguinte o tempo ameaçava tornar o dia mais quente ainda. Apetecia correr pelo campo e levar com uma brisa ainda que morna na cara. Mas não tínhamos campo por perto, de forma que se saiu para dar um passeio pela vila.
O pai e a mãe foram trabalhar. A cara da mãe era sombria e fria. Notava-se nela a noite mal passada. A falta de sono. Porque seria?
Para alguém muito curioso estes segredos são uma tortura, de modo que passou a estar atenta a tudo o que se passava em casa e fora dela.
Passando por várias pessoas a quem cumprimentava por educação, pareceu-lhe que uma delas a olhara de forma estranha. Mas não deu importância. Seria do tempo...Andava tudo com umas caras!!
À noite, as coisas pareciam mais calmas, mas só aparentemente. A vizinha voltou e ouviu-se qualquer coisa do género:
- De amanhã não passa!
O que não passaria do dia seguinte? A vizinha disse também que já tinha presenciado outros casos e que a pessoa de quem falavam era uma requintadíssima vilã, queria dizer outra coisa, mas lá em casa nunca se ouviu uma palavra feia.
Bem, já se ficou a saber que havia alguém a destabilizar aquela família e a deixar com muitas dores de cabeça, todos os dias, a mãe. E que esse alguém era personna non grata. E era uma mulher.
O que seria então?
E o dia fatídico chegou. O que se passou de facto só se soube muito mais tarde. Também se ficou a saber que com a mãe não se brinca e muito menos se toca na família.
A história foi mais ou menos assim: Uma dita fulana encantou-se de amores pelo pai e este, que é homem, logo figurou de que se tratava de alguma paixão assolapada da mulher por tão garboso cavalheiro. Cheio de vaidade o pai deve ter dado esperanças à dita cuja e a mãe não gostou. Como a dita trabalhava na limpeza da instituição onde o casal também trabalhava, está bom de ver que aquilo passou de boca em boca muito rapidinho. Ora, o corno (no caso a mãe), foi a última a saber, mas a tempo de impedir que continuasse o romance nas suas barbas. O que faz ela, a mãe? Quando avista a dita mulher que vinha como de costume para fazer a limpeza, a mãe aborda-a do tipo: - Ou deixas o meu homem em paz, ou dou-te uma coça que nunca mais esqueces.
A outra não se devia ter calado, embora essa fosse a atitude mais sensata. Vai daí, gera-se uma discussão e a mãe que não tem papas na língua e é muito lestinha nas decisões, pega no apanhador que a outra trazia na mão e desfez o objeto na cabeça da outra.
Os gritos foram mais que muitos. A mãe ameaçou novamente: - Meteste-te com o meu homem e dou cabo de ti.
Toda a vila ficou a saber do acontecimento. Não voltou a repetir-se e o pai também teve a sua dose. Mas esta deve se ter passado em local e em tom de voz que ninguém viu ou ouviu. O romance tinha acabado e para sempre.
O apanhador nunca mais foi útil. Ficou desfeito. Também era de pau oco!
