Era uma aldeia encantada.
Trocavam-se ovos por milho, cabras por vitelos, vinho por aguardente. Havia sempre um parentesco ainda que no 2º ou 3º grau, ou na falta dele, todos eram comadres e compadres.
A gente era humilde e sempre bem disposta. Não havia electricidade, pelo que os serões eram à luz de uma ou duas candeias de azeite. Nas casas mais ricas havia uma lanterna a petróleo e apenas no Peso havia electricidade fornecida por geradores.
Nesse local existiam quatro hotéis, que no período de termas se transformava numa pequena cidade cheia de perfumes e gente de fora. Eram os hóspedes. A melhor altura do ano era essa: a chegada dos forasteiros para as águas milagrosas que curavam diabéticos, doenças do fígado, e outras mazelas. Os hotéis enchiam-se de gente da aldeia que deixava a enorme e pesada lida do campo para se transformarem em criados de hotel, bem vestidos, penteados e perfumados.
Dava gosto ver os hóspedes passearem-se pela estrada, única e principal via rodoviária da aldeia, a caminho das fontes, ou então de camioneta para os mais pesados ou com menos saúde. Entre os hoteis e as termas, havia uns escassos quinhentos metros, ou nem mesmo isso, o bastante para se fazer um passeio a pé ou de carro com os dizeres do hotel.
Num destes hoteis havia uma pequena capela onde ao Domingo se celebrava Missa especialmente para os hóspedes. Era muito pequena, mas acolhedora.
Um dia, triste dia, faleceu um dos habituais hospedes. Era uma pessoa muito gorda e já aparentava alguma idade. Dizia-se que o pobre padecia de obesidade motivada pela biabetes. Que era gordo, era. Que estava no hotel para tomar as águas da fonte velha, também era verdade. Agora que fosse morrer ali, é que foi um pouco estranho.
O velório fez-se nessa dita capela contígua ao hotel onde se encontrava hospedado. Como estava sozinho, não havia familiares para o acompanharem nas primeiras horas do fatidico dia. Por isso alguém do hotel se lembrou de, a troco de uns tostões, convidar um jovem para acompanhar o falecido durante a noite. Não fosse alguém chegar de fora e da família e dar com o nariz na porta da capela.
O jovem aceitou a tarefa. Um morto não faz mal a ninguém e sempre havia luz para iluminar o local. Sim, porque ali havia luz de gerador e não como no resto da aldeia lanternas e candeias.
A noite começou a passar lenta, tão lentamente que o jovem passou pelas brasas enquanto fazia vigília ao falecido.
Já muito longa ia a noite quando se começou a ouvir um barulhinho estranho, que fez com que o jovem se levantasse para indagar de onde vinha...
Foi nesse preciso momento que o morto deu um peido monumental e o seu enorme ventre desabou!
O jovem nem teve tempo de respirar, saiu pela porta fora a correr e mesmo sendo noite escura só parou quando já não tinha mais fôlego!
Refeito do susto, voltou atrás. Mil coisas lhe passaram pela cabeça e uma delas é que o hóspede se calhar até estava vivo...
Mas não foi capaz de entrar na capela. O medo era maior e impediu-o de rever o hospede.
na menhã seguinte as pernas ainda lhe tremiam e estupefacto assistiu à saída da capela do corpo inerte do ex-barrigudo hospede.


