domingo, 31 de janeiro de 2010

O hóspede

Era uma aldeia encantada.
Todos se conheciam e o tempo não passava pelas pessoas e pelos costumes.
Trocavam-se ovos por milho, cabras por vitelos, vinho por aguardente. Havia sempre um parentesco ainda que no 2º ou 3º grau, ou na falta dele, todos eram comadres e compadres.
A gente era humilde e sempre bem disposta. Não havia electricidade, pelo que os serões eram à luz de uma ou duas candeias de azeite. Nas casas mais ricas havia uma lanterna a petróleo e apenas no Peso havia electricidade fornecida por geradores.
Nesse local existiam quatro hotéis, que no período de termas se transformava numa pequena cidade cheia de perfumes e gente de fora. Eram os hóspedes. A melhor altura do ano era essa: a chegada dos forasteiros para as águas milagrosas que curavam diabéticos, doenças do fígado, e outras mazelas. Os hotéis enchiam-se de gente da aldeia que deixava a enorme e pesada lida do campo para se transformarem em criados de hotel, bem vestidos, penteados e perfumados.
Dava gosto ver os hóspedes passearem-se pela estrada, única e principal via rodoviária da aldeia, a caminho das fontes, ou então de camioneta para os mais pesados ou com menos saúde. Entre os hoteis e as termas, havia uns escassos quinhentos metros, ou nem mesmo isso, o bastante para se fazer um passeio a pé ou de carro com os dizeres do hotel.
Num destes hoteis havia uma pequena capela onde ao Domingo se celebrava Missa especialmente para os hóspedes. Era muito pequena, mas acolhedora.
Um dia, triste dia, faleceu um dos habituais hospedes. Era uma pessoa muito gorda e já aparentava alguma idade. Dizia-se que o pobre padecia de obesidade motivada pela biabetes. Que era gordo, era. Que estava no hotel para tomar as águas da fonte velha, também era verdade. Agora que fosse morrer ali, é que foi um pouco estranho.
O velório fez-se nessa dita capela contígua ao hotel onde se encontrava hospedado. Como estava sozinho, não havia familiares para o acompanharem nas primeiras horas do fatidico dia. Por isso alguém do hotel se lembrou de, a troco de uns tostões, convidar um jovem para acompanhar o falecido durante a noite. Não fosse alguém chegar de fora e da família e dar com o nariz na porta da capela.
O jovem aceitou a tarefa. Um morto não faz mal a ninguém e sempre havia luz para iluminar o local. Sim, porque ali havia luz de gerador e não como no resto da aldeia lanternas e candeias.
A noite começou a passar lenta, tão lentamente que o jovem passou pelas brasas enquanto fazia vigília ao falecido.
Já muito longa ia a noite quando se começou a ouvir um barulhinho estranho, que fez com que o jovem se levantasse para indagar de onde vinha...
Foi nesse preciso momento que o morto deu um peido monumental e o seu enorme ventre desabou!
O jovem nem teve tempo de respirar, saiu pela porta fora a correr e mesmo sendo noite escura só parou quando já não tinha mais fôlego!
Refeito do susto, voltou atrás. Mil coisas lhe passaram pela cabeça e uma delas é que o hóspede se calhar até estava vivo...
Mas não foi capaz de entrar na capela. O medo era maior e impediu-o de rever o hospede.
na menhã seguinte as pernas ainda lhe tremiam e estupefacto assistiu à saída da capela do corpo inerte do ex-barrigudo hospede.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Reincarnação

Teria à volta de 13 anos, mais ou menos.
Adolescente magra, morena, enfezada, de olhos encovados, foi para aquela terrinha de pescadores e de gente humilde, aperfeiçoar o que aprendera em criança.
A sua mestra, mestra em concertina e afins, era uma linda rapariga na casa dos 20 e tal anos, que tocava muito bem, pelo menos, tocava melhor que a dita rapariga.
Um dia sairam à rua para procurar não sei o quê. Na rua, todas as pessoas que passavam por elas, as olhavam com ar de admiração e até medo.
Alheias à curiosidade humana, seguiram em frente, às suas vidas.
As ensaiadelas iam de vento em popa, algumas vezes quebradas pelo endiabrado irmão da mestra, rapaz ainda pequeno, que tornava a vida das pessoas num inferno! Era levado dos diabos.
Uma vizinha chamou do outro lado do quintal e a rapariga veio saber do que se tratava a pedido da sua mestra.
- É a vizinha que quer falar com a tua mãe.
- Diz-lhe que espere. A minha mãe não tarda.
A rapariga correu a dar o recado à vizinha. Entretanto, esta, um pouco assustada perguntou:
- Tu quem és?
- Eu?
- Sim. A quem pertences?
- A senhora não conhece a minha família! Não sou de cá. Porquê?
A mulher virou as costas e parece ter "rosnado" qualquer coisa...
A mestra deu o recado à mãe e esta disse que mais tarde iria ver a vizinha. E aquilo passou.
No dia seguinte houve necessidade de sair à rua e de novo os olhares, a coscuvilhice e o medo estampado na cara das pessoas...
- Porque me olham assim?
- Quem?
- As mulheres que vão ali mais à frente.
- Não ligues, são umas cabaneiras!
E riu-se.
À janta a mãe da mestra olhava de soslaio a rapariga. Esta apercebeu-se mas nada disse. A conversa ia animada e não se pensou mais no assunto.
Mas a rapariga estava desconfiada: primeiro as mulheres que não tiravam os olhos dela, depois a mãe da mestra que também resolvera admirá-la como se nunca a tivesse visto...
Enfim, as coisas não estavam de feição e ela resolveu indagar por conta própria.
- Ó Senhora Maria tem alguma coisa contra mim?
-Eu, filha? Não! valha-me Deus...
-Então porque me olha como se fosse uma ladra?
-Não, não é nada disso. Anda sentar-te aqui comigo. Sabes que sou muito amiga dos teus paizinhos e de ti também, por isso não quero que fiques aborrecida com o que te vou dizer...
A rapariga nem queria acreditar! Agora percebia toda aquela admiração e até medo que as pessoas deixavam escapar, quando ela aparecia em público.
Há mais ou menos um ano atrás tinha morrido uma menina daquela terrinha de Deus, com a mesma idade, nome e feições.
Era de tal modo a cara da falecida que já havia pessoas a dizer que a morta ressuscitara ou então tinha reincarnado.
Queira saber mais sobre a menina falecida, mas não lhe quiseram adiantar mais nada, a não ser que era da sua idade e igualzinha a ela.