domingo, 19 de dezembro de 2010

Páscoa na aldeia


A Páscoa é uma das festas mais apreciadas naquela aldeia. Os familiares vêm beijar a Cruz e, quando o tempo o permite, ficam o dia todo para confraternizar, comendo, bebendo e mexericando na vida de toda a gente.
Numa dessas festas, lá muito para trás no tempo, o Compasso, ou a Cruz, como lhe queiram chamar, passava logo ao início da tarde e quem vinha para comer o repasto da Páscoa, já entrara na sala e se acomodava, porque o mês ia fresco.
Por toda a casa sentia-se um cheirinho a doces e a perfume barato que vinha dos visitantes. Mas o mais agradável era o cheiro da natureza lá fora a anunciar uma Primavera recheada de cor e alegria.
A tia Lola apresentava-se como uma verdadeira dama, ou não fosse ela modista e do Peso, onde gente muito fina e educada passava todos os verões nos hoteis locais. A sua pele da cara parecia seda e apresentava um aspecto ceráfico. Cheirava a pó-de-arroz e parecia sempre muito pálida e doente. Em contrapartida o tio e marido dela era uma "besta" na verdadeira acessão da palavra. Habituado à caça e à pesca a tempo inteiro e de controlador aduaneiro em part-time, fazia tudo à grande e à francesa, numa ostentação sem limites.
Era assim um casal esquisito. Ela muito franzina, ele um cavalo possante e empertigado. Tiveram um filho que cresceu entre os mimos da mãe e a rispidez do pai. Nem era carne, nem peixe. Mas não era mau rapaz.
Acontecia que a rapaziada toda junta só se lembrava de asneiras. Os primos andavam todos na mesma faixa etária, pelo que bastava que um se lembrasse de algo para rir, que todos desatavam a rir como tolos. Rapazes e raparigas eram iguais nas maneiras, na educação e também nas asneiras.
O avô desses "anjinhos" costumava tomar-se da pinga nesses dias de Páscoa, porque acompanhava a Cruz pela aldeia e se não ia com algum ofício, ia mesmo na procissão dos que gostavam de molhar a palavra.
Quando ele regressava a casa havia sempre barulho. O avô da pequenada tinha mau vinho e embirrava com tudo e todos. Também de nada valiam as palavras doces da avó, sempre conciliadora, sempre de paz, não gostando de dar nas vistas e muito menos ser falada na aldeia. É que ela sim, era uma pessoa muito querida e importante para a aldeia.
Ora o que se lembra a rapaziada de fazer ao avô no regresso a casa?
Encheram um copo de vinagre de vinho e colocaram-no bem à vista na mesa, ainda com algumas sobras de pão-de-ló e restos de aletria e arroz-doce.
Quando o velho entrou na sala mal disposto e a resmungar, quase caía porque se esqueceu de um degrau à entrada da sala. Depois de uma asneira conseguiu a custo endireitar-se antes de chegar à mesa. Foi-lhe dada uma cadeira, porque alguém reparou que se não se sentasse naquele momento, ia cair redondo no chão.
- O que há para beber?
Ninguém se mexeu. A avó respirou fundo e perguntou-lhe se não estava cansado. Que era melhor ir deitar-se. Que no dia seguinte era dia de trabalho...
- O que há para beber, já disse?
E um dos rapazinhos estende-lhe o copo de vinagre. Mete-o aos beiços e lá vai o liquido. Nem deu pelo cheiro a vinagre. Nem cuspiu o vinho. Nada! Só disse:
- Porra, o meu vinho "botou-se"!

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