quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natais diferentes

Antigamente não se falava de Pai Natal, árvore de Natal, brinquedos, prendinhas, bolo-rei, e outras coisas mais, porque era tempo de vacas magras.
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Fazia um frio de arrepiar e toda a casa estava numa penumbra por falta de petróleo para o candeeiro. O calor não abundava e só na cozinha, parca de móveis, resistia uma lareira sempre a luzir. O tempo passava entre o calorzinho das brasas e as histórias do avô sobre príncipes e princesas, que viviam em castelos encantados, onde tudo era farto, bom e bonito.
O Natal aproximava-se e era preciso fazer o Presépio.
Na antevéspera ia-se à Corga, onde um curso de água cristalina jorrava devagarinho. Era a água mais pura que havia na aldeia. Fria como o gelo, consolava no Verão e só apetecia fervida e tépida no Inverno. À volta dessa fonte os muros que a circundavam estavam pejados de musgo verde escuro, com uns filamentos que pareciam pelos sedosos. Com uma faca velha levantavam-se "postas" de musgo que se acondicionavam numa caixa velha.
Era o primeiro trabalho e também o mais difícil naquela época de inverno rigoroso. Depois escolhia-se o melhor canto da casa para aí se construir o Presépio, com a Sagrada Família em destaque, mas onde não faltavam os reis magos, os pastores e as suas ovelhinhas, a Igreja, o lago com os patinhos, as galinhas, o burrinho e o moinho, tudo disposto segundo uma ordem que parecia descer do mais alto para o mais baixo, arquitetando-se um pedestal para o símbolo inequívoco do Natal: o Menino Jesus.
Era o Menino Jesus que depositava em cada casa e para as crianças em especial, um prenda que aparecia no dia de Natal, sempre depois da meia-noite, no sapatinho de cada criança. Só era possível colocar um sapato ou botinha, nunca o par, porque o Menino Jesus, tinha muitos meninos a quem distribuir as prendas. Estas eram, invariavelmente, e todos os anos, umas meias novas, um cachecol, um par de sapatos, uma camisola, um chocolate, um lencinho, um véu para a Missa, um agasalho qualquer, e outras peças necessárias e há muito solicitadas.
Nem se dormia, mas os mais velhos só colocavam as prendas depois da pequenada estar ferrada no sono.
Havia natais (quando a economia familiar o permitia), em que as crianças se surpreendiam: apesar de haver apenas um sapato na lareira para receber a prenda, o par que se encontrava debaixo da cama, tinha outra prendinha. Mais modesta, mas que alegria encontrar essa enorme surpresa!
Este acontecimento raro fazia com que se procurassem todos os sapatos, mesmo os velhos que já não se usavam, para ver se o Menino Jesus estava a "brincar" com os presentes das crianças, colocando-os nos sapatos arrumados noutros lugares.
Em nenhuma manhã dos 365 dias do ano se acordava tão cedo! Era a euforia completa! E por tão pouco, meu Deus!
Para agradecer ao Menino Jesus tanta generosidade, a Missa, a primeira do dia, estava reservada à pequenada, que nessas manhãs de Natal podiam saborear um pequeno almoço diferente, com a doçaria típica do Natal: os formigos, as rabanadas de vinho, a aletria e o pão-de-ló feito na padaria da aldeia.
O Presépio ficava no canto da sala até aos Reis e todos os dias era inspecionado não fosse algum musgo ficar amarelo, ou qualquer figurinha vinda de gerações anteriores, ter caído, ou algo que tirasse o "brilho" ao Presépio tão lindo!
E todos os anos se suspirava pelo Natal. Pelo Menino Jesus e pelo Presépio, uma cabaninha feita em madeira, palha e musgo, onde se colocava a Sagrada Familia, simbolizando a pobreza que o Messias prometido, havia escolhido para o seu Santo Nascimento.
Natais assim nunca mais aconteceram. Que saudade!

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