
O verão vinha quente e todo o povorel sentia, pela tardinha, uma imensa vontade de sair, de se distrair, de fugir às tarefas árduas dos campos. O tempo convidava ao namoro, ao passeio e, sobretudo, à descontracção.
Aqui e ali ouvia-se música de concertina. Eram os famosos bailes dos Santos Populares, que antecediam as colheitas. Primeiro Santo António, o casamenteiro, depois o São João, não menos namoradeiro e sempre rapioqueiro e por fim o São Pedro, para abençoar os namoricos!
Os rapazes e as raparigas agitavam-se à porta dos salões improvisados para os bailes e, entre risinhos e piscar de olhos, lá iam filando o par preferido.
O convite era sempre muito cerimonioso: - A menina dança?
E a menina nem sempre ia dançar, porque aquele não era o tal par que ela esperava. E seguia-se uma "tampa".
Às vezes dava para o torto e a moçoila ficava toda a noite a chupar no dedo. Porque uma tampa num rapaz é sempre motivo para que os outros fiquem de pé atrás...
Numa aldeia belíssima do Norte, a onda dos bailaricos era moda todos os anos por essa altura. E quase todas as raparigas casamenteiras se preparavam e aperaltavam para a festa aos sábados e domingos de tarde. Os rapazes, também nao ficavam atrás e lá se enchiam de brilhantina e perfume barato.
Como alguns tinham de caminhar muito para lá chegar e os caminhos eram tortuosos e cheios de pó, havia quem tivesse o cuidado de trocar de "vitorinos" antes de entrar na sala de baile.
Um certo rapaz, muito apreciado pelo mulherio, apresentava-se impecavelmente vestido e calçado nesses festejos de Verão. E a tal ponto era o seu zelo que depressa começou a ser cobiçado pelas raparigas e odiado pelos rapazes, que não compreendiam como fazia ele a proeza de se apresentar sempre com os sapatos a brilhar e sem um pingo de sugidade.
A coisa começou a intrigar meia dúzia de matulões que o começaram a seguir para ver como e por onde andava, para estar sempre limpo e asseado.
Numa dessas noites, seguindo-o, repararam que ele vinha se socos até um local próximo da sala de baile. Sorrateiros, escondidos pelo crepúsculo, seguiram todos os passos do rapaz e puderam verificar que ele guardava, num palheiro, um par de sapatos novos e uma muda de roupa.
Ficaram de boca aberta e logo pensaram numa partida à maneira. Era uma brincadeira sem consequências, para que ele não tivesse tanta vaidade.
Entre muitas ideias, um rapaz dito de boas famílias, achou interessante que se colocasse em cada sapato um chouriço de caca de gente. Houve quem fizesse uma cara de nojo, mas perante a ideia de o dito rapaz poder enfiar os pés em tal achado, logo se apressaram para no dia seguinte levarem os mais perfeitos cagalhões para os enfiar nos ditos sapatos.
E assim se fez. Mas a brincadeira não foi só para o impedir de ir ao baile, mas e também para poderem apreciar o tipo de pessoa que era ele, perante tal agressiva prova.
À noitinha estavam todos a postos, camuflados como puderam para não ser vistos. E lá chegou o felizardo, todo contente para se aperaltar para o baile.
Como sempre tirou a roupa e trocou-a. A seguir calçou um par de meias limpinho e enfiou o seu pé direito no sapato. Pareceu-lhe que escorregara depressa e sentiu algo húmido, mas podia ser do fresco da noite. Depois calçou o outro e igual sensação.
Levantou-se, esticou o corpo, ajustou o cinto e empertigou-se quando ajustou o nó da gravata. Logo a seguir olhou para os seus lindos sapatos. Sentiu um cheiro a merda terrífico e começou por levantar os pés não fosse ter pisado algo semelhante. Mas nada. O cheiro intensificava-se e não o largou mais. Os passos tornaram-se hesitantes e parecia que o cheiro vinha do chão, mas não se via nada.
Mais uns passos e os pés pareciam estar a marinar numa espécie de creme nívea. E outra vez se dedica a inspecionar o chão. Mas que raio. Onde estaria a merda?
Os maus da fita já não podiam aguentar mais o riso e enquanto uns tapavam as suas bocas, outros estavam a ponto de se mijarem a rir do pobre rapaz.
Ao fim de algum tempo lutando contra o cheiro não localizado, resolve tirar um dos sapatos e quase cai de espanto. Não podia acreditar! Tinha os sapatos cagados e com um cheiro nauseabundo!
Quem teria feito semelhante brincadeira de mau gosto??
Até hoje ninguém sabe. O que se sabe é que o dito rapaz nunca mais voltou aos bailes daquela região.

Nenhum comentário:
Postar um comentário