quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Reincarnação

Teria à volta de 13 anos, mais ou menos.
Adolescente magra, morena, enfezada, de olhos encovados, foi para aquela terrinha de pescadores e de gente humilde, aperfeiçoar o que aprendera em criança.
A sua mestra, mestra em concertina e afins, era uma linda rapariga na casa dos 20 e tal anos, que tocava muito bem, pelo menos, tocava melhor que a dita rapariga.
Um dia sairam à rua para procurar não sei o quê. Na rua, todas as pessoas que passavam por elas, as olhavam com ar de admiração e até medo.
Alheias à curiosidade humana, seguiram em frente, às suas vidas.
As ensaiadelas iam de vento em popa, algumas vezes quebradas pelo endiabrado irmão da mestra, rapaz ainda pequeno, que tornava a vida das pessoas num inferno! Era levado dos diabos.
Uma vizinha chamou do outro lado do quintal e a rapariga veio saber do que se tratava a pedido da sua mestra.
- É a vizinha que quer falar com a tua mãe.
- Diz-lhe que espere. A minha mãe não tarda.
A rapariga correu a dar o recado à vizinha. Entretanto, esta, um pouco assustada perguntou:
- Tu quem és?
- Eu?
- Sim. A quem pertences?
- A senhora não conhece a minha família! Não sou de cá. Porquê?
A mulher virou as costas e parece ter "rosnado" qualquer coisa...
A mestra deu o recado à mãe e esta disse que mais tarde iria ver a vizinha. E aquilo passou.
No dia seguinte houve necessidade de sair à rua e de novo os olhares, a coscuvilhice e o medo estampado na cara das pessoas...
- Porque me olham assim?
- Quem?
- As mulheres que vão ali mais à frente.
- Não ligues, são umas cabaneiras!
E riu-se.
À janta a mãe da mestra olhava de soslaio a rapariga. Esta apercebeu-se mas nada disse. A conversa ia animada e não se pensou mais no assunto.
Mas a rapariga estava desconfiada: primeiro as mulheres que não tiravam os olhos dela, depois a mãe da mestra que também resolvera admirá-la como se nunca a tivesse visto...
Enfim, as coisas não estavam de feição e ela resolveu indagar por conta própria.
- Ó Senhora Maria tem alguma coisa contra mim?
-Eu, filha? Não! valha-me Deus...
-Então porque me olha como se fosse uma ladra?
-Não, não é nada disso. Anda sentar-te aqui comigo. Sabes que sou muito amiga dos teus paizinhos e de ti também, por isso não quero que fiques aborrecida com o que te vou dizer...
A rapariga nem queria acreditar! Agora percebia toda aquela admiração e até medo que as pessoas deixavam escapar, quando ela aparecia em público.
Há mais ou menos um ano atrás tinha morrido uma menina daquela terrinha de Deus, com a mesma idade, nome e feições.
Era de tal modo a cara da falecida que já havia pessoas a dizer que a morta ressuscitara ou então tinha reincarnado.
Queira saber mais sobre a menina falecida, mas não lhe quiseram adiantar mais nada, a não ser que era da sua idade e igualzinha a ela.


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