sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A chantagem







Depois de nascer por um fio, descer apertadinho entre margens rochosas e verdejantes, o rio espreguiça-se num enorme estuário, antes de se misturar com as águas salgadas e remechidas do mar. É a foz, ora de águas calmas como um lago, ora sacudidas e caprichosas pelas marés.
Na maré baixa o rio quase secava e era possível saltitar entre um pedacinho de areia e um laguinho de água quente pelo sol. Levantavam-se as pedras e por baixo apanhavam-se pequenos peixes, caranguejos ou simplesmente areia movediça.

O estuário parecia enorme aos olhos de uma criança. Perdia-se de vista! E como era bom brincar na areia molhada e depois lavar os pés em pequenas poças de água quente, ou então correr na areia menos húmida e olhar para trás para ver as pegadas que ficavam inscritas na areia. Mas o mais interessante era fazer desenhos na areia e caminhar tendo por horizonte uma povoação muito bela que ficava no sopé de um monte. No cimo do monte havia uma construção granítica, que hoje constitui um lugar muito aprazível e muito visitado pelos turistas.

Mas voltando ao rio, quando a maré enchia vinha até ao casario e muitas vezes, sobretudo em épocas muito chuvosas, chegava a dar algumas dores de cabeça aos moradores da margem. A água entrava por todos os lados e quando baixava a maré, deixava um rasto de lama e sugidade que era difícil limpar.

Certo dia, uma menina mais ou menos com oito anos de idade, pediu à mãe para que a deixasse ir um bocadinho até às pocinhas. A mãe acedeu ao pedido e disse-lhe para que de vez em quando olhasse para a janela da casa. Quando a mãe quisesse que a menina regressasse a casa colocaria um lençol branco à janela. Era sinal que deveria voltar e rapidamente.

Como a mãe não admitia faltas de respeito e exigia obediência total, a menina disse que cumpriria à risca o que a mãe lhe ordenara, ou não voltaria a colocar os seus pézinhos nas pocinhas e na areia em maré baixa.

Brincou o quanto pôde. Pena não ter companhia! De vez em quando olhava para a janela e ficava aliviada, porque não via o lençol.

Por pouco tempo se distraiu a seguir com um olhar um caranguejo verde e de tenazes em riste. Quando se voltou já o lençol esvoaçava à janela. Tinha que regressar. No caminho havia uma passagem estreita e levemente inclinada. Não passavam duas criaturas ao mesmo tempo. Quando a menina a alcançou apareceu um rapazola que resolveu gozar com a situação. A rapariga parou e aguardou que o rapaz a deixasse passar...

- Só te deixo passar se me deres alguma coisa...

- Mas eu não tenho nada comigo!

- Arranja-te. Se não tens nada contigo dou-te uma tareia, que tal?

A menina ficou apreensiva. O rapaz era mais velho e muito mais forte que ela. Impossível medir forças com ele. Ela estava em desvantagem. Mas não mostrou parte de fraca.

- Tenho aqui umas conchas...

- Para que quero essa merda?

A menina fez questão de levar a coisa a sério e começou a inventar uma boa saída.

- Espera! Tenho uma coisa que talvez te interesse...

- O quê?

Pensou no que poderia interessar ao doido do rapaz, que a fizesse sair daquela situação e chegar a casa a tempo e horas para não ser castigada. Reparou que o rapaz tinha uns sapatos todos rotos e não hesitou.

- Tenho em casa uns sapatos novos que te devem servir. Posso dar-tos se quiseres...

- Hum. Onde é a tua casa?

- Sabes onde é a adega do chico? É aí. Aparece amanhã de manhã, que tos dou.

Ficou combinado. O rapaz deixou- a passar.

Quando chegou a casa a mãe nada disse, por isso pensou que o incidente não a tinha prejudicado. Mas não tinha gostado nada daquele patife e da ameaça, por isso tratou de arranjar logo uma solução. Foi à despensa e procurou num caixote de coisas velhas uns sapatos ou coisa parecida para no dia seguinte dar ao seu chantagista.

E assim foi. No dia seguinte logo de manhã tocaram à campainha da porta. A menina estava sózinha e espreitou pela fechadura, mas não viu ninguém. Porguntou com uma voz grave: Quem é? E nada. Ninguém respondeu. Colou o ouvido direito à porta e esperou algum sinal de subida das escadas, uma vez que a entrada principal estava sempre aberta. E nada, outra vez! Desistiu e foi tratar dos seus afazeres.

De novo um toque à porta. A menina não fez qualquer barulho ou pergunta. Apenas olhou pelo buraco da fechadura e avistou o rapaz. Foi pé-ante-pé buscar uma vasoura de piaçaba, bem pesada por sinal e, repentinamente, abriu a porta. Antes que o rapaz pudesse fazer qualquer movimento, ou dissesse ququer coisa, levou com a vassoura na cabeça, nas costas, por todo o lado. O rapaz caiu pelas escadas e quando chegou à porta a custo se levantou de tal forma foram as vassouradas. A menina de cima das escadas atira-lhe com um par de sapatos velhos que foram direitinhos à cabeça do arrependido chantagista e, aos berros disse:

- Aqui estão os sapatos. Se cá voltares, quem te vai dar outra tareia é o meu pai, que já sabe de tudo! Por isso é bom que não te atrevas a ameaçar-me outra vez!!!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Igreja



Numa aldeia, paredes meias com a Galiza, fica uma Igrejinha, mais ou menos igual à da fotografia. Essa igreja foi construída num terreno doado pela família muito conceituada e respeitada, aí conhecida pela dos Santos.

Os Santos eram gente boa, obstinada no trabalho agrícola, que conseguiram ao longo dos anos uma considerável fortuna e uma casa farta de tudo.

A Igreja fica num plano superior ao lado da propriedade dessa família e é servida por uma escadaria em granito. Até há bem pouco tempo, no adro dessa Igreja estavam enterradas as cepas de bom vinho, que se estendiam numa longa latada para dentro da propriedade vizinha pertencente à família.

Da dita doação, também fazia parte o terreno do então pequeno cemitério situado a sul da Igreja e que era delimitado por um muro que o separava das terras dos doadores.

Por isso, da casa e rossio dos Santos, podia-se apreciar tudo o que se passava na Igreja e no cemitério, para onde caíam também pelo Outono, as peras maduras de uma pereira cujos galhos tombavam sobre o dito muro.

Para ver de palanque um casamento, um funeral, uma procissão ou qualquer outro ofício religioso, bastava uma pessoa empoleirar-se sobre o muro de divisão e daí se tinham todas as vistas.

Um certo dia a Junta de Freguesia resolveu fazer obras de beneficiação na Igreja e levantar as ossadas dos corpos nela enterrados, como era hábito na altura, especialmente para as famílias de beneméritos e outros privilegiados da época.

A empreitada ficou a cargo da Junta que contratou rapazes muito jovens. As obras começaram e demoraram a concluir-se e nada se diria a respeito, se não fosse uma cena a que alguém assistiu.

Num dos dias quentes daquele fim de Primavera, depois da janta, a rapaziada estava bem comida e bem bebida. Começaram com a limpeza e à medida que iam arrancando o soalho, traziam para o adro da igreja os desperdícios e tudo o que encontravam nos ditos jazigos.

A dada altura começaram a rir-se como perdidos e atiravam com coisas pelo ar. Não se percebia muito bem do que se tratava, mas parecia que a brincadeira tinha a ver com o que eles encontravam dentro das sepulturas.

Um deles saiu da Igreja com uma cabeleira feita de cabelos negros, asa de corvo, compridos e que colocou na sua própria cabeça, pavoniando-se para os outros. Todos riram da palhaçada. Outro, atirou com uma caveira que conservava os dentes todos (ou quase), pegou nela e arremessou-a a um colega que gritou uma série de impropérios. Outro trazia um farrapo preto enorme, tentando descobrir o que era e prontinho para o enfiar na cabeça de outro. Devia ter sido o fato ou vestido do de cujus. Ossos e mais ossos, uns soltos, outros agarrados aos esqueletos, tudo ia parar ao monte de terra que estava à porta da Igreja entre risadas e brincadeiras infantis.

E a brincadeira durou quase a tarde toda.

Alguém soube do sucedido e a notícia correu célere por toda a aldeia. Aquilo era o mesmo que profanar sepulturas! E quem é que afinal acompanhava as obras e permitiu tal ultrage?

No dia seguinte as obras pararam e as ossadas foram recolhidas para um grande caixote.

De quem eram? De que família? Quando e como faleceram? Ninguém sabia! Estava tudo numa alfândega!

Perderam-se as relíquias de quem, porventura foi importante para aquela comunidade...

Mas quem manda àqueles inergúmenos contratar idiotas??

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

As muralhas





No tempo em que não havia televisão e a rádio apenas oferecia folhetins, viver entre muralhas era uma espécie de cativeiro libertador, salutar e mágico.

Muito próximo das muralhas, situava-se a casa de uma família modesta constituída por pai, mãe e quatro filhos. Muitas vezes essa família aumentava com a chegada de parentes: avós, tios e primos. Também faziam parte da família, uma empregada e uma costureira.

A Rosinha, assim se chamava a costureira, era uma linda moça, com um rosto branco e sereno e uns olhos azuis muito rasgados e penetrantes. Confeccionava as roupas, especialmente as de uma certa menina, a quem ela adorava. A Rosinha tinha uma deficiência grave nas pernas e movia-se com a ajuda de duas muletas que lhe sacudiam o corpo frágil e pequeno. Quando se via sentada na máquina de costura eléctrica, a Rosinha nem parecia deficiente de tão linda que era.

Todos os anos, quando entrava a Primavera, o perfume a humanidade envolvia todo o espaço e, num ímpeto, era urgente sair de casa e passear pelas muralhas. Aí, um ventinho doce soprava vindo do rio e era incrível como apetecia cantar, correr, saltar, brincar, com quem quer que aparecesse por lá. Muitas vezes se aceitavam propostas de namoro, como se aquela estação do ano, a convite, assim o exigisse. Os dias eram mais longos e as temperaturas amenas, o que obrigava a levantar cedo da cama e deitar tarde para se aproveitar o tempo todo e viver ao máximo a Primavera.

O burgo de casas baixas e todas juntinhas, tinha um aspecto de presepe e as muralhas pareciam mantos enormes que escondiam esse aglomerado de casas. As vistas de cima das muralhas eram estonteantes e de baixo sumptuosas. Quem sofresse de vertigens não poderia debruçar-se nos baluartes.

De vez em quando algumas pessoas menos cultas e também muito porcas, despejavam baldes de lixo de cima das muralhas. Não era frequente, porque era arriscado. Mas havia sempre alguém que não temia o perigo e lá ia o lixo a céu aberto para cima do verde que rodeava as muralhas. Um dia, uma pobre rapariga, bambalhona e com pouco juízo foi deitar um balde de lixo e, porque se aproximou um pouco mais, escorregou e caiu das muralhas. A morte foi instantânea.

A Vila ficou em estado de choque. As pessoas ali residentes comentaram por muito tempo o sucedido, apontando o dedo aos responsáveis pela educação da rapariga. Mas a pobre fazia aquilo todos os dias e ninguém se importava. Ninguém sequer comentou que aquela desgraça podia acontecer.

A rapariga foi a enterrar num dia chuvoso e triste, como triste tinha sido o seu fim.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O afinador de concertinas


Era um indivíduo apessoado, forte, bem humorado e muito solidário. Tinha perdido ainda novo, num acidente, uma das pernas. Nunca se conformou com essa perda e de vez em quando zangava-se com as muletas que trazia debaixo dos braços para lhe facilitar a locomoção e atirava com elas para alguns metros de distância resmungando sempre: "suas putas!!".
O seu dia-a-dia passava-o numa pequena oficina que tinha no rés-do-chão da sua casa, onde fazia as afinações sob a orientação do seu tio Velino e dava lições de acordeão, porque nisso era barra. Também conversava com a mulher, quando esta descia para passar a ferro na mesa da oficina.

Gostava de gozar com o pessoal mais jovem e sobretudo com uma rapariguinha que vinha de longe com o seu acordeão de 2 oitavas a pé, alguns dois klms, ou mais. Essa rapariga tinha paixão pelo acordeão, mas era uma preguiçosa para aprender, que metia dó. Ele, sempre com uma paciência de Jó, lá a encaminhava com promessas de grande futuro nos bailes da Vila ou até, quem sabe, numa grande cidade! Essas divagações levavam a rapariguinha para lugares onde jamais estaria, fantasiando com os tais bailes e verbenas, onde tocaria para muita gente dançar. Tais fantasias retiravam-lhe a pouca vontade que tinha de estudar e aprender, o que fazia com que o Sr. José ficasse possesso!!

Um dia a rapariga chegou esbaforida pelo calor e pelo cansaço do percurso que havia feito com o acordeão às costas e encontrou o seu professor muito arrochadinho, com grandes olheiras e um enorme inchaço na cara. Perguntou, um tanto surpreendida com a carinha de lástima que ele apresentava, o que lhe tinha acontecido. O afinador manda-a sentar e, ao contrário dos outros dias, não lhe pede para tocar nada, apenas para o ouvir.

- Ouve bem o que te vou dizer!

-????

- Hoje não vou perder tempo contigo, por dois motivos: primeiro porque tou com uma dor de dentes que me rebenta com a cabeça; segundo porque tens que aprender a estudar o que te mando em casa e não aqui!!. Aqui é para eu te ensinar, não para tu, minha preguiçosa, estudares, ouviste??

- Sim senhor. E do que é essa bochecha assim inchada?

- Foi ontem. Tive que arrancar um dente!


A rapariga quiz saber pormenores. Então lá contou com todos os detalhes o episódio do dia anterior.
Por volta da meia noite, mais coisa, menos coisa, começou a sentir uma dor fortíssima num dente canino. Bochechou com aguardente, que quase apanhava uma bebedeira, mas nada! O dente continuava a doer que metia medo e quando metia ar pela boca a dor era tão violenta que o fazia chorar. Ele, um homem daqueles, a chorar por causa de um miserável dente! Foi então que pensou em descer à oficina para pegar num alicate e tirar o dente. Quando saiu de casa para ir para a oficina, tinha de descer uns quatro degraus, como era noite e a dor o impedia de raciocinar, tropeçou com uma das moletas e quase contou as escadas com os costados!
Ficou tão furioso com o dente que quando pegou no alicate nem sequer hesitou! Puxou com tanta força que o dente começou a abanar, mas não saiu. Se tinha dores, com mais dores ficou e os nervos já estavam a endoidecê-lo!
Voltou mais uma vez ao dente, mas com um alicate maiorzinho que colocou bem perto da gengiva. Encostou-se à mesa e com as duas mãos puxou com toda a sua força o maldito dente. Saiu finalmente, mas foi difícil estancar a hemorragia!
Mostrou o dente à rapariga que arregalou os olhos de admiração. Aquilo não era um dente era um fueiro! Porra! E lá tinha o buraco por onde entrava o ar quando ele respirava pela boca! Via-se muito bem o raio do buraco.
Foi preciso muita coragem, pensou a rapariga.
- Agora vai para casa e estuda esta música. Se amanhã não a tocares toda como deve ser, arranco-te uma orelha com o mesmo alicate com que arranquei o meu dente. Podes crer!
A rapariguinha foi todo o caminho a pensar no sucedido e como o seu professor estava abatido e com dores. Também ia com medo da ameaça.
Quando chegou a casa pegou no acordeão e só o largou depois de saber tocar muito bem a tal música. A avó que sempre lhe pedia para tocar uma modinha para a alegrar, ficou admirada com tanto estudo.
Quando soube da desgraça do afinador de concertinas e da ameaça que tinha feito à neta, caso a musiquinha não fosse na ponta dos dedos disse para a neta: Abençoado professor!!



quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Géninha







O seu verdadeiro nome era Eugénia, como a mãe. Filha de um juiz e uma dona de casa exemplar, era a mais velha de 3 filhos. Tinham uma enorde herdade no Alentejo, mas passavam a maior parte do tempo em Lisboa, onde numa qualquer comarca o pai exercia a sua função de juiz.
Não casou, apesar de ser um optimo partido. Seguiu estudos superiores, mas não se conhece o que profissionalmente realizou na vida.

Era uma criatura gorda que fumava como um homem. Vestia de forma simples e masculina. Não tinha conversa, a não ser com quem simpatizava muito. Parecia fria, distante.

A Géninha visitou uma só vez uns familiares directos, remediados, que viviam no Norte. Da sua visita recorda-se apenas uma "soirée" um tanto inusitada.

Sentada numa poltrona, fumava lentamente um cigarro e fazia questão de soprar o fumo para cima, como se estivesse a recordar momentos vividos, provavelmente, muito bons. Depois como por esmola, passava um olhar vazio pela sala onde se encontravam os familiares e uma criança muito curiosa que lhe seguia todos os movimentos.

A dada altura tocam à porta e eis que chega uma amiga da família. Vinha de saia exuberante, comprida com folhos, uma blusa atrevida cintada e nos cabelos negros compridos e encaracolados, tinha uma fita que realçava os seus olhos lindos.

Fizeram-se as apresentações e a partir desse momento a Géninha "regressou" à sala, olhando com sofisticado semblante a nova recém chegada. Alguém colocou uma música da moda no gravador e os presentes tiveram vontade de bater o pé.

Mas foi puxada uma nova música, entre o flamengo e o passodoble e a visita ensaiou os primeiros passos de um bailado a sós. Rodopiou, atirou com os cabelos para trás, pegou na saia e fê-la esvoaçar. Estavam todos encantados com os dotes da amiga. A Géninha não despregou mais os seus olhos dela. Parecia hipnotizada...

Vieram mais dois dedos de conversa para inglês ver e de novo se solicitou mais uma dança, mais uma música absorvente. A Géninha pediu um wisky e a amiga recém chegada também aproveitou o pedido. Seguiram-se mais copos de wisky e já as duas estavam nas nuvens.

A noite prometia comprometimento, não divertimento. Notava-se um clima de excitação na Géninha, sempre que olhava para a amiga da família. Esta também não se fazia rogada e de vez em quando aproximava-se da Géninha com um sorriso e um olhar lascivos.

A Géninha pede sem qualquer pudor que a amiga dance só para si.

Seguiu-se um momento de volúpia, sensual e até libidinoso... Em todos os passos de dança a dançarina ajoelhava-se aos pés da Géninha, enquanto esta mordia o filtro do cigarro e o apertava entre os lábios carnudos e rosados. A música convidava à sensualidade e enquanto os presentes se entretinham com minúcias tarefas, as duas olhavam-se de forma muito comprometida. Não se sabia o que iria acontecer depois, mas o que aconteceu naquele momento foi algo de imprevisto, incontrolável! A dançarina rodopiou num movimento lento com os braços e as mãos em espanholadas piruetas e roça a Géninha com os seios na cara. Esta move-se incómoda na poltrona e ajeita-se de forma a facilitar outro movimento igual. Já a dançarina ia e vinha pela sala ao som do flamengo, quando a Géninha pousa o cigarro e tal qual uma cobra a encantar o passarinho, fita a dançarina e todos os seus movimentos. Percebe-se que queriam ficar a sós ou já se encontravam a sós pelo efeito do alcool. Mais um passo atrevido e, descontrolada, a dançarina cai nos braços da Géninha, que lhe dá um longo beijo na boca.

Finge-se que nada se passou, alguém chamou alguém que não ouviu, levantam-se os pratos e os copos da mesa, sussurra-se algo que ninguém percebe e o ambiente fica incómodo para a família, mas muito interessante para as duas que se olham com vontade de se lamberem.

No dia seguinte a Géninha pediu que chamassem a amiga e fecharam-se as duas muito tempo no quarto de dormir.

Muito mais tarde ouviu-se um comentário sobre a Géninha: tinha regressado ao Alentejo onde vivia com uma amiga, por isso nunca quiz casar.


sábado, 17 de janeiro de 2009

As do Pombal







Numa pequena e insignificante aldeia do Norte, havia um sítio que se chamava Pombal. Nada tinha a ver com as pombas, animais lindos e delicados. Era assim chamado porque a descendência daquela casa senhorial tinha de nome o Pombal.
Viviam naquela enorme mansão 4 irmãs. Uma delas solteirona e com uma enorme barriga que parecia andar de nove meses. Era por certo uma doença que a pobre mulher carregou a sua vida curta. As irmãs eram saudáveis. Não se lhe conheciam pretendentes... Alguém inventou um dia que uma delas tinha tido um desgosto de amor. Mas nada se sabia ao certo.

O lugar de Pombal ficava numa espécie de seara muito ensoleirada. Quando o verão chegava esse lugar sufocava os pulmões mais arejados. Era um calor insuportável. As janelas da mansão estavam sempre fechadas.

No terreiro da casa o chão parecia feito de barro. Duro aqui, arenoso alí. Quando se caminhava sobre ele os pés ficavam amarelos da cor da terra e o pó penetrava em todos os sítios, até mesmo nos ouvidos.

Um certo dia depois do meio-dia, ouviu-se um grande reboliço no pátio de acesso às escadas que levavam à entrada da mansão. Uma gritaria de meter medo. Foi então que se percebeu a razão: uma enorme cobra ameaçava as raparigas e parecia querer entrar dentro da casa.

-Para trás Satanás!!! - dizia uma
-É o diabo! - dizia outra

O certo é que não havia vivalma que pudesse com uma enchada cortar a cobra ao meio e as irmãs estavam aterrorizadas.

As cobras e os répteis em geral trazem mau presságio e imenso medo e as raparigas não fugiam à regra. Além disso, aquele animal era tudo menos algo que viesse por bem. Que pena não existir um homem por perto!...

Uma das irmãs, a mais valente por certo, agarrou num fueiro do carro das vacas e tentou imobilizar a cobra. Com a extremidade do pau em V, conseguiu depois de algum esforço e suor em bica, pregar a cobra ao chão. Uma das outras irmãs pegou noutro pau e bateu na cobra de forma desordenada. Quando a cobra já estava mais morta que viva, a irmã que começara a tarefa pegou num pano e no rabo da cobra e num movimento desumano rodou a cobra de modo a que a sua cabeça se esfacelou contra o chão. Os movimentos eram de tal forma violentos que a cobra começou a soltar-se aos bocados. Um nojo!

A coragem e força da mulher parecia vinda do sobrenatural. Ninguém tinha assistido a uma cena igual.

A partir desse episódio toda a aldeia comentava que a mulher só podia estar possuída.

Como era possível pegar numa cobra tão grande e rodá-la daquela forma até se desfazer?


sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sinal comadre!


Era o tempo das colheitas, por S. Miguel, e todo o cenário convidava a debulhar, malhar, os cereais maduros que ficariam guardados nos celeiros limpos e arejados.

Era preciso gente. Muita gente para trabalhar. Vinham de todos os lados, da Veiga, de Prado, da Corga, dos montes sem nome, lá para muito longe da vista.

E ficavam em casa, todos, durante dias, até que a faina amainasse!

Verão quente e Outono morno. Das alcovas vinha um odor de corpos suados e mal lavados. Uma tosse de quem vai ter pulmões infectados, estranha o silêncio. Um sussurro de gente que se volta na cama quente.

Amanhece e toda a labuta se inicia pelas cinco da manhã. Na cozinha todos têm assunto:

- Não se dorme nada com este calor!

- O tio Zé tossiu muito durante a noite!

- Pois, ele fuma que nem um cavalo!!

- Hoje temos muito que lhe dar! Oxalá o tempo não aqueça muito!



Já cheira a café fresco e alguém pede o mata-bicho.

- Devagar com isso que é muito forte!

- Eu não trabalho bem se não tiver o bucho quente com esta maravilha de aguardente!

-Tá mesmo boa, cá vai!



O pão é de mistura e vai muito bem, migado dentro das malgas, no café muito quente.



Já toda a gente está a postos e parte, ainda noite, para os campos.



Vem o fim de tarde e todos regressam. Lavam as mãos e as caras e sentam-se à mesa para a última refeição.



Ainda é cedo para dormir e por isso vão para um serão debulhar o minho e o feijão.

As conversas são sempre as mesmas: a gente que morre e do que morre. O que aconteceu a fulano e a beltrano. Alguém que tinha ido à bruxa e tinha perdido uma fortuna! A tuberculose.



Na roda estava a tia Rosa. Mulher de mais de cinquenta anos, mas que aparentava muitos mais e que viera de muito longe para ajudar a prima, que sempre a tinha ajudado na vida.
Tratavam-se por comadres, mas na verdade nunca o foram. A tia Rosa, mulher baixinha, de cara redonda e rosada tinha estampado no rosto a dureza da sua vida. Casara sete vezes e sete vezes enviuvara. Dizia que em cada espiga de milho via um homem!
Não gostava de se lavar e tinha umas rastas no cabelo mais espessas que os novelos de linho antes de dobar.

Era pouco faladora, sempre atenta e uma trabalhadora de se lhe tirar o chapéu. Tinha uma forte inclinação para tudo o que era sobrenatural.

Um dia, num lindo dia de verão, por sinal à hora do descanso, depois da janta, a única criança da casa quis penteá-la. Ela a princípio não deixou, mas perante a insistência da pequena lá acedeu e deixou entrar um pente. Foi em vão. O pente não entrava e só as cãs sentiram os dentes do pente. A criança desistiu da tarefa.

Numa daquelas noites depois de muito trabalho, os corpos pediam descanso ainda que não fosse necessário dormir. De novo as voltas nos leitos, os suspiros, o ressonar e a tosse forte e contínua. Silêncio sepulcral... Um ruído de passos rompe o silêncio.
Quem seria? Estava tudo fechado e todos nas alcovas. Não está ninguém lá fora...
De novo passinhos rápidos seguidos de barulhos de quem entra e sai, entra e sai...
- Comadre!! Comadre!! Sinal...
Silêncio schhh.......
- Comadre! Sinal!
Silêncio...

No dia seguinte, os olhos dos trabalhadores evidenciavam cansaço, uma noite mal dormida. As bocas bocejavam até às orelhas!

- Ouviu-se muito barulho esta noite!!
- Também ouvi... Vinha do forro da casa. Parecia gente a andar de um lado para o outro!

E a mesma voz repete: - Comadre, sinal....

- Não foi nada. Foram os ratos!
- Os ratos?
- Sim. Ratos ou ratazanas, que se passeiam toda a noite no forro da casa...

A tia Rosa não acreditou que eram os ratos. Tinha de ser um sinal de alma penada! Isso sim. Tinha a certeza e para o quê, haveríamos de ver!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A caneca do vinho




Hora da janta e falta o vinho...


-Pega na caneca branca e vai ao Lírio buscar vinho. Despacha-te!!

Saiu porta fora com a caneca e uns centavos para o vinho. A taberna ficava perto e era preciso despachar, que a mãe não admitia atrasos.

De regresso a casa um "amiguinho" passa por ela e faz-lhe umas caretas.

- Olha que levas!

Pousa a caneca cheia de vinho na borda do passeio. Os dedos da sua mão pequena e magra começavam a doer. Descansa um minuto. Afinal a casa era já alí. Faltava pouco.

O rapazinho não a largava. Queria chamar a sua atenção, mas a menina não estava para brincadeiras. Além do mais a mãe detestava que ela brincasse na rua com rapazes, coisa que lhe agradava imenso por sinal, especialmente jogar à bola e às escondidas.

Mas naquele momento era impossível. O rapazinho como não conseguia captar a sua atenção resolveu aproximar-se e passou com uma das pernas sobre a caneca que estava no passeio.

- Ah! Quase a derrubas, bandido. Vou-te foder...

Risadas de patife que levou a menina à "ira". Começou a procurar no chão uma pedra. Não importava se pequena ou grande o mais importante é que fosse direitinha à cabeça do rapaz.

Procurou enquanto com o olho no rapaz, media o espaço que a separava dele. Pensou que já não ia a tempo de o castigar...

Por fim encontrou uma pequena pedra. Pouco maior que uma moeda de 5 tostões. E lá vai ela direitinha ao rapaz que num gesto vitorioso se voltara para a ver procurar o que não achava: a pedra!

Foi como um tiro e fez imensos estragos. O rapaz levou com a pedra no olho direito e o sangue cobria-lhe toda a cara, enquanto berrava como um cabrito desmamado, tapando a cara ensanguentada.

Sairam à rua os bombeiros que estavam no quartel e os bêbados da adega do Chico. A rapariga aproveitou a confusão para se esgueirar, encostada à parede e se enfiar em casa com o ar mais humilde que existe no Mundo!

O pai, conhecedor da filha que tinha, perguntou entre uma paciência de solitário:

- Que foi que fizeste?

A rapariga contou rapidamente ao pai a trama de há momentos atrás. Perguntou pela mãe que supostamente deveria estar à volta do jantar.

- A tua mãe foi ver o que se passava quando ouviu aquele griteiro todo... Deve estar a chegar.
Enfiou-se no quarto e aguardou o castigo. A mãe entra esbaforida pela casa e pergunta:
- Onde está essa rapariga?
O pai com o ar mais calmo que podia encontrar naquele momento de desastre, pergunta:
- O que lhe queres??
- Quero comê-la viva! Tu sabes o que ela fez ao pobre do rapazinho?
- Não. O que foi?
-Deitou-lhe um olho abaixo. Levaram-no para o Hospital. Deus queira que não fique cego!
- A rapariga não tem culpa...
- O quê? Tu ainda defendes aquele estafermo?
- Tu não lhe tocas. Já disse. O caso é comigo.
A mãe nem queria acreditar! O pai que nunca se metera entre as duas e sobretudo nunca deixara que fosse severamente castigada, agora está a defendê-la?
A muito custo aceitou a admoestação do marido e começou a por as coisas na mesa para o jantar.
- Vem comer...
A rapariga vem cabisbaixo e senta-se sem um ai! A mãe envia-lhe um aviso com o olhar: na próxima levas pela de hoje e pela do dia...
Ela sabia que assim seria, por isso há que enfrentar as coisas e levar com as consequências.
Naquele dia o pai, sempre tão distante, ausente até, foi capaz de suster a mãe e não permitiu que a filha fosse castigada. Subiu e muito na sua consideração. Aquele, sim, é que era um pai de verdade!
No dia seguinte a escola estava em pé de guerra. Todos queriam molhar a sopa na rapariga, porque tinha aleijado e muito o rapaz que se arrogara no direito de a gozar com a caneca do vinho. A rapariga sentiu o perigo e queria tudo menos andar à porrada com aqueles diabos todos. Pelo que se definiu imediatamente: - aquele que me tocar vai ter que se entender com o meu pai que é polícia marítimo!
Gargalhada geral. Tocou para a entrada da sala de aulas e a rapariga e o rapaz trocaram um olhar de desculpas. Por momentos ficou arrependida do que fez, mas ninguém levava a melhor com ela e se não podia ser ao soco, eram as pedras as suas aliadas.
No recreio a rapariga dirige-se ao rapaz e pede-lhe desculpa. O gesto foi entendido pelo resto da turma, quando o rapaz disse que fora ele o causador da desgraça. Mas ia ficar bem. Afinal o que fez sangrar tanto foi a pele do sobrolho, que foi cortada com a pedra.
- Desculpa...
No local em que a rapariga colocou a caneca do vinho para descansar, havia um talho que naquela hora estava fechado, mas a dona do talho estava à janela e vira toda a cena.
Aproveitou uma passagem da mãe da rapariga e interpelou-a sobre o acidente do dia anterior. Trocaram as informações que sabiam.
- A sua menina não teve culpa. Estava a descansar a mão que trazia a caneca e o rapazinho passou-lhe com a perna por cima. Por pouco não lhe atirou com a caneca ao chão. Depois o rapaz teve azar com a pedra que ela lhe atirou.
- Aquela criança é o diabo e com pedras um perigo!
São crianças...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A vaca da vizinha



- Tio Zé! Oh! Tio Zé!!

- Quem raio me chama?

- Sou eu. A minha vaca parece que vai parir! Pode vir vê-la?

- Já vou, já vou. Aquece água e traz bastante azeite...


Uhm!!!!!!!!!! Vai haver novidade e aquela endriabada da neta do Zé não vai descansar enquanto não se emploleirar numa das traves da corte para assistir ao parto!!!


- Laurinda, vou à Maria ver como está a vaca. Logo te dou notícias...

- A rapariga vai contigo?

- És tola ou quê? Só se for para me empatar mais que a vizinha. Ela fica contigo. Vê se não a deixas escapar-se.


Mas já era tarde demais. Num dos estrados para ração estavam um par de olhos verdes, arregalados até ao couro cabeludo, enfiados numa cara franzina de quem não se alimentava, nem à lei da bala! Curiosa. Impressionantemente quieta, para quem tanto reboliço fazia durante o dia e até à noite! Caladinha, que nem um rato, porque se fosse vista alí era coça da brava!!!


-Então tio Zé?

-Ainda está atrasada, mas deve ser esta noite...ou talvez amanhã, pela madrugada. Não sei! A ver vamos como diz o cego.

- Que faço com a água e o azeite?

- Por enquanto nada. Volto daqui a mais umas duas horas. Tem calma, mulher!!!

- Pois, que remédio!!!


Porra! E a rapariga tem que regressar a casa. Afinal o espectaculo está atrasado. Mas ela volta!!! Ah! se volta!!


Sorrateira, aparece com o ar mais angelical deste mundo vinda da retrete.

- Onde te meteste, que não te vejo há muito tempo??

- Fui à retrete! Venho agora mesmo de lá! Não viu bó??

- Não te afastes da casa e muito menos não te quero na casa da vizinha. Vê se me obedeces, por favor.

- Tá bem, tá bem, eu obedeço...fique descansada!!!


Cearam o caldo que ficou do jantar e um resto de arroz com peixe frito. Estava tudo muito bom, mas a rapariga não tocou em nada, a não ser no pão e numa pinguinha de vinho que a fez estremecer de azedume...Comentaram que a rapariga cada vez estava pior para comer. Assim, qualquer dia adoecia e depois é que iam ser elas!!!

- Cala-te. Ela come quando lhe apetece...

- E come o que não deve!

- Que queres que se faça? Bater, não podemos. Obrigar, muito menos, porque gomita tudo... É cá uma canseira!. Temos que a levar à Vila para que o Doutor a veja.


E a conversa virou para a vaca da vizinha.


- É hoje que vai nascer?

- Não sei. Tá tudo muito atrasado...

- Se calhar vai deitar para as tantas da noite, não ????

- Sei lá!!!


Arrumou-se a cozinha e aconchegaram-se as brasas ainda acesas da lareira. Os potes já estavam de lado, mais pretos que o carvão. Seriam lavados no dia seguinte e se chovesse era bem provável que ficassem até à hora do jantar sob as pingas que caíam do telhado. Assim, aproveitava-se a água e o serviço estava meio feito!


-Vamos para a cama, que amanhã é um novo dia com muito para fazer!! - Diz a avó para a neta.

- Já????

- Sim, já! Além disso tens de dormir, já que não comes nada, minha menina!!

- Oh bó, deu-me agora mesmo uma fome...

-Tás a brincar comigo??

- A sério, bó. Apetecia-me um fundinho de caldo. Mas muito pouco, se faz favor.


O caldo vem ainda quente e a mocinha pegou a custo na colher.


- Que boa que tá bó!! Vou comer tudo...

- ?????!!!!!!!!!!!!!


Entretanto o avô Zé preparava-se para ir espreitar a vaca da vizinha.


- Vou ver se há novidades!!!

- Não vou esperar, Zé, que amanhã tenho de me levantar mais cedo.

- Faz isso mulher. Deita-te e descansa...


A mocinha comia muito devagar, uma colher atrás da outra e sempre mexendo e remexendo o caldo. Um feijão para este lado, um pedaço de batata para aquele, um troço de couve quase a cair do prato, enfim, o caldo nunca mais acabava.


- Vê se te despachas que quero ir pra cama, rapariga!!!

- Bó, eu vou comer o caldo todo, mas está muito quente e não quero escaldar-me. Vai-te deitar bó, que eu vou já para a cama.

- Fazes isso? A sério??

- A sério bó. Vais ver que vou comer tudo. Depois ponho o prato na maceira e vou dormir. Podes ir descansada.


O caldo foi para a pia do porco mal a avó virou costas e quanto à ida para a cama era tudo falsidade daquela safada!


Estava escuro como breu, mas lá bem alta estava uma Lua de meter inveja. Se estivesse muito perto dali quase parecia o sol a iluminar todos os espaços que ficavam com um ar de lavado. Mesmo aquele caminho sempre todo sujo de estrume, parecia branco!!!! Incrível!


Pé ante pé, lá se esgueirou para perto da entrada da corte onde estava a vaca da vizinha... Ouviu as vozes do avô e da vizinha. O avô dizia que a hora estava a aproximar-se e que precisaria de pelo menos mais um homem para segurar na vaca! A vizinha foi chamar o Sacristão. Uma figura caricata: muito alto e magro. Um nariz que não acabava mais e sempre fanhoso.

Não tinha ar de muita força, isso não, mas era jeitoso na ajuda. Mais valia gente com jeito que com força. Para a força estava alí o grande e indomável Riquitau, alcunha do avô e parteiro, nos meios mais mal falantes da Vila e arredores!!!

Os três adultos em volta da vaca aguardavam que esta desse um ar de quem vai parir... Nesta altura já a rapariguinha estava no camarote da corte, medindo todos os passos e abstendo-se de fazer o mínimo ruído para não sair dalí com o rabo quente...


A vaca começou a ficar impaciente. O tio Zé de mangas arregaçadas até ao pescoço, pediu a garrafa do azeite e num movimento rápido besuntou as mãos e os braços. Depois enfiou até ao sovaco a mão e o braço direiro no ventre da vaca da vizinha. Moveu levemente o braço como quem pretende alargar o buraco por onde, supostamente, iria sair a cria...


- Já falta pouco...

- Coitada, os animais também sofrem muito....

- Felizmente não berram como algumas mulheres!!!! - disse o Tio Zé!


Mais uma pausa. A noite parecia que não acabava mais. De vez em quando a mocinha fechava os olhos de cansaço e quase se deixou vencer pelo sono. Mas acordou...E se caísse no chiqueiro da corte ao pé da vaca da vizinha??? Foge!!!!!!!!!


Mais uma investida e nada. As horas passaram lentas... A conversa era quase sempre a mesma: as culturas, o ano que ia mau, as regas, as doenças, as mortes, a política, a falta de energia para vir a luz, etc. etc. O sacristão também opinava de vez em quando, sobretudo quando se falava de padres e das suas proezas pelas aldeias. Ninguém escapava àqueles três cabaneiros...


A vaca voltou a mexer-se e levantou-se a custo. Começou o trabalho de parto. O sacristão ocupou estrategicamente o lado esquedo da vaca, a vizinha o lado direito e o avô estava atento à saída da cria. Voltou a besuntar a mão e braço com muito azeite. Enfiou de vagar a mão na boca do corpo da vaca da vizinha. Sentiu a cria e devagar aproveitou o primeiro e longo puxo da vaca. Cagou-se toda. O avô pediu ao sacristão para pegar num pouco de palha e limpar o cu da vaca. E o milagre começou a processar-se, primeiro vejo uma pata pequena de animal que sai lentamente. O avô ordena um EMPURREM enérgico para ajudar a vaca a expulsar a cria. Todos fazem imensa força. Todos sofrem incluindo a mocinha que babava de tanto pasmo.
A cria saiu finalmente e logo a vaca da vizinha se pôs a lambê-la como se a quisesse limpinha para as visitas. Depois deitou-se na palha limpinha e acabada de espalhar.
Era uma linda cria. A mocinha ficou logo apaixonada pelo animal.
- Bô, posso levá-la para o campo pastar, quando ela puder andar??
- ???
- Que tás aí a fazer? Porque não estás a dormir com a tua avó?? Tu passaste aqui a noite toda?
É desta vez que te vou assentar os cinco mandamentos.
A vizinha estava tão contente que pediu misericórdia para o comportamento da mocinha. Foi perdoada. No dia seguinte toda a rapaziada da aldeia soube que a vaca da vizinha tinha dado à luz um lindo vitelinho e já tinha madrinha e tratadora.

sábado, 10 de janeiro de 2009

O vestido branco de bolinhas vermelhas









Desejava muito um vestido todo branco, cintadinho, manguinhas curtas e com bolinhas vermelhas...

Fez esse pedido à mãe, mas só a Avó lho concedeu.

Um dia foram à vila e numa loja de fazendas escolheram as duas o tecido. O empregado da loja disse que para um vestido para tão franzina rapariguinha, não levava muito pano. Por isso, qualquer duas alturas, contando um pouco com a roda do vestido e mais uns laçarotes, era suficiente.

- Ela quer um tecido todo branco com bolinhas vermelhas! Tem??

- Parece que há por aqui alguma coisa parecida, se bem que a moda agora não é nada dada às bolinhas...

- Esta "chita", parece-lhe bem? É forte e ainda dá para o resto do Verão, se o vestido for confeccionado já!!!!

- Eu quero este . É mesmo este!

- Quanto custa o metro?

E lá vieram com o pacote do tecido. Pelo caminho a Avó disse à neta que agora o mais difícil era encontrar quem fizesse o vestido!

Talvez a Maria do Lindolfo desse um jeitinho. Vamos ver!

A Maria estava muito doente e há muito tempo que não pegava em trabalhos de costura. Tinha a espinha lixada e já não via muio bem.

Então quem poderia fazer o vestido para a rapariga o poder "estrear" no Domingo, como ela tanto queria?

- Já sei! Vais á tua madrinha e tia! Sim, porque ela é modista e fazer o vestido não vai ser nada difícil...

- Bó eu não vou lá pedir nada!

- Porquê? Não vejo qual é o teu problema. Sabes onde ela mora e se é a tua madrinha, para alguma coisa servirá. Levas o pano e dizes como queres o vestido. Depois perguntas quanto é que te vai levar por fazê-lo. O resto é comigo...

No dia seguinte a rapariguinha foi à madrinha com o embrulho debaixo do braço. Ia indecisa e pouco confiante. Nunca escondeu que aquela ala familiar não lhe era muito querida. As tias, por parte do pai, nunca foram com a sua cara e tão pouco a rapariga tinha algum carinho por elas. Além disso, a rapariga aprendera música e mostrava estar virada para coisas mais finas. Ao contrário, as tias achavam que ela devia pegar muitas vezes na enchada e na vassoura, que em concertinas e outras desnecessidades....

- Bom dia tia. A minha avó pede-lhe o favor de me fazer um vestido. Tenho aqui o pano. Pode ser?

- Mostra lá...
- O Verão tá quase no fim. Para que queres tu um vestido de Verão?

- Gostava muito, se não fosse maçada...

- Quando o queres pronto?

- Queria vesti-lo no Domingo...

- Não pode ser. Tenho muito que fazer e além disso é preciso lavar primeiro o pano, senão encolhe...

- A tia é que sabe.

- Quando posso vir buscar?

- Primeiro tens que o provar. Passa por aqui lá para quinta-feira da semana que vem.

- Ah! A minha avó pergunta quanto é que vai custar o vestido...

- Depois eu vejo. Depende do trabalho que ele me der.

- Obrigada.

Na tal quinta provou o vestido. Achara-se linda e era mesmo aquele feitio com que tinha sonhado!!

Passados uns oito dias o vestido estava pronto.

- A tia já sabe quanto é o trabalho, para eu dizer à minha avó??

- Já. 5ooo reis e olha, é por ser para ti...

Regressou a casa com um misto de alegria e dor. Como é que a avó tinha 5000 reis para pagar o vestido à tia madrinha?? Onde é que ela os iria buscar?

- Então minha filha, já tens o vestido?

- Já sim bó...

- Quanto é que ela disse que custava?

- 5000 reis...

- O quê???

- E disse-me que esse preço é por ser para mim...

- Olha uma destas! Por ser para ti, ela nem devia levar um tostão, quanto mais 5000 reis!. Não te preocupes. Vou dar um jeito, minha filha...

A rapariga bem viu o ar preocupado da avó que queria tudo, menos ficar a dever um centavo àquela gente...

No dia seguinte a avó foi à figueira e retirou os figos mais bonitos. Havia também uns "fatões" cor de púrpura que só nós tínhamos no quintal e umas uvas "colhão de galo" cuja cor variava entre o rosa vítreo e a cor de mel.

Colocou tudo num cesto, muito bem enfeitado com folhas de figueira e videira. Disse-me para levar ao Hotel do Peso, onde o Sr. Lino, gerente, apreciava aquelas novidades.

- Quanto peço bó??

- Pelos figos 1000 reis. Pelas uvas 3000 reis e vê se consegues fazer o que falta para o vestido com os fatões. Depois pega no dinheiro e leva-o à tua madrinha. Se o dinheiro não chegar, diz-lhe que amanhã levas o que faltar. Corre!

E lá foi a rapariga com o cesto da fruta com muito cuidado, vender ao Hotel. O gerente já a conhecia e dava-lhe sempre um pão com manteiga que ela adorava. Costumava regatear o preço das frutas ou dos legumes, mas naquele dia não estava disposto a reclamar nada. Gostara do açafate da fruta e levou-o com ele.

Quando regressou trazia o pão e tirou do bolso algum dinheiro.

- Quanto queres pela fruta toda?

- Pelas uvas....

- Faz o preço a tudo. Anda, despacha-te que tenho pressa.

- 5000 reis...

- Leva lá 6 000... A fruta merece isso e muito mais e tu também! - E riu-se.

A rapariga correu para a casa da tia, depois de ter agradecido ao gerente a generosa compra. Pagou os 5000 reis e regressou a casa, contentíssima, porque ainda sobrara dinheiro!!





As sandálias velhas



Morava no cima de vila e era de uma família abastada. Tinha tudo o que uma rapariga da sua idade podia desejar.

Rica, bonita, estudava num colégio de freiras e todos os anos ia ao Brasil passar férias. Mas mesmo que não fosse para tão longe, os seus familiares poderiam proporcionar-lhe todo o conforto deste mundo. Era filha única!

Sempre bem vestida e bem calçada, decerto desconhecia quantos pares de sapatos, botas, sandálias, estariam arrumados pelos armários. Mas isso agora não vem ao caso.

Uma vizinha e familiar viu certo dia um par de sandálias à porta da cozinha. Já muito velhas deve ter pensado que aquelas sandálias seriam deitadas ao lixo, pois a menina rica não as calçaria por certo...

Sem consultar ninguém, uma vez que as viu com ar de sandálias velhas, prontas para o lixo, pegou nelas e levou-as a uma menina que morava perto daquela, numa casa muito modesta e que por sinal, em matéria de sapatos, sandálias e afins, pouco ou nada tinha. Costumava até andar descalça. Muitas vezes tinha furado os pés com picos e bocados de vidro da calçada.

Quando esta menina vê as sandálias e perguntou se eram para si, a vizinha acenou com a cabeça, fornecendo a informação que a menina rica não as calçaria mais, porque já estavam muito velhas...

Mas para a menina pobre as sandálias estavam optimas! E serviam-lhe na perfeição!!!

No dia seguinte, contente como um fuso, a menina pobre foi à padaria buscar os habituais petins para todo o dia e, como de costume, passou pela casa da menina rica, onde pendurada na janela sempre a esperava a mãe da tal menina, para lhe pedir que trouxesse pão para si também. Atirava-lhe umas moedas dentro de um envelope que ela apanhava do chão. - E quantos são hoje, Dona?

- Traz 10 que já me chega.

De repente o olhar da Dona pousa nos pézinhos da menina pobre e dispara:

- Onde foste roubar essas sandálias?

- Eu não roubei nada Dona. Foi F.. que mas deu, porque já estavam velhas!

- Mentirosa! Essas sandálias são da minha filha e toca a tirá-las dos pés antes que te dê uma coça!

- Sim senhora. Já vou.

E a menina pobre tirou as sandálias, ficou descalça e subiu-as até à entrada da cozinha.

- Quando deixares o pão, livra-te de tocar em mais alguma coisa!!!!

A menina desceu as escadas a custo, porque as suas lágrimas impediam-na de ver. Sentia medo, mas também ódio. Não era justo. Nada tinha roubado e muito menos umas sandálias!... Sabia lá onde encontrar tal coisa!!!!

De regresso a casa deixou os pães na casa da Dona e seguiu para a sua. Ia muito triste.

Quando a sua avó a viu nem queria acreditar na sua tristeza e logo indagou o motivo. Ela lá contou a história e disse à avó que a partir daquele dia nunca mais iria trazer pão para a tal Dona.

A filha que fosse como ela às 7 da manhã buscar o pão à padaria, porque para além do mais, tinha bons sapatos e boas pernas!!!

A Avó riu-se mas bem sabia que aquela raiva passaria depressa. A sua neta era dotada de bons sentimentos e já teria perdoado à doida da mulher tanta aleivosia.

Na tarde desse dia a vizinha que trouxera as sandálias veio visitar a família da menina pobre e logo levou o recado!

- Evita trazer seja o que for lá da tua família rica, porque hoje aconteceu uma coisa desagradável!

- O quê?

- A nossa meina teve que descalçar as sandálias que tu trouxeste porque a Dona disse que foram roubadas...

- Omessa!!!!

-É o que te digo...

- Quem vai tratar do assunto sou eu e é já!!

O acidente já tinha sido esquecido, quando a vizinha, toda contente, veio no dia seguinte com o par de sandálias na mão...

- Toma! São tuas! - disse a rir-se de contentamento e orgulho.

- Não as quero, obrigada. Prefiro andar descalça...

- Vá lá não sejas orgulhosa. Ela não sabia que tinha sido eu a tirá-las e percebeu que tu estavas inocente.

- Mesmo assim. Não as quero, muito obrigada.

Nessa semana foi com os avós à feira e trouxe um lindo par de sapatos abertos, que fizeram a alegria dos seus passos.

Quanto ao pão que habitualmente trazia para a Dona, nunca mais o trouxe. Deixou de olhar para a janela onde a Dona se pendurava e ignorou sempre os seus apelos.

As crianças também têm orgulho.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Não sei se te conto...


Tinha seis verdes aninhos apenas e uma louca vontade de ter uma daquelas bonecas espanholas...
Sim, essas que abriam e fechavam os olhos, de longas pestanas pretas, escondendo lindíssimos olhos verdes ou azuis...
De cabelos loiros aos cachos sobre um corpinho feito de curvas e vestido de cetim...
Dessas, que só em Espanha havia, e eram muito caras! Oh! Se eram...
Mas como a menina desejava uma dessas bonecas, nem que fosse para ter uma vezinha só no seu colinho...
Um belo dia, a mãe chega a casa com uma enorme caixa. Vendo a filha de olhos irrequietos, mortinha por perguntar o que tinha a caixa, a mãe disse-lhe que ali dentro estava uma boneca, igual ou parecida àquela, que ela tanto desejava.
O coração da menina palpitou rápido e a respiração ficou ofegante como se tivesse acabado de correr cem metros...
Pediu à mãe que lha mostrasse, pelo Amor de Deus... A mãe consentiu com a cabeça, mas primeiro era necessário que a menina se portasse bem, comesse toda a comidinha e fizesse todas as vontades da progenitora.
A todas as questões a cabeça da menina disse um mudo, mas sincero "sim".
A caixa da boneca foi para cima do armário da roupa, não fosse a menina abrir a caixa...
A menina estava impaciente. Nunca mais chegava a hora de ver a sua boneca... Porque a boneca era para si, não era????
Bom, isso ainda era discutível! Se a menina se portasse como uma menina educada talvez, caso contrário a boneca regressaria ao sítio de onde veio.
Meu Deus, a menina nem queria pensar em tal situação. Acho que iria morrer de desgosto.
A menina portou-se lindamente, ao ponto dos pais cogitarem, um dia talvez, lá para o Natal, comprarem uma boneca igual ou parecida!
Mas a menina desconhecia que aquela boneca não lhe estava destinada.
Passaram escassos dois dias. Dias de sofrimento em que a menina, apenas uma vez, viu a boneca, que lhe fez vir a lágrimas aos olhos. Uma só vez.
A muito custo e a pedido insistente da menina, que já estava cansada de obedecer cegamente a tudo e a todos!
Cedinho, a menina levantou-se ao terceiro dia com a firme vontade de exigir à sua mãe aquela boneca. Tinha o direito a ela. Afinal portara-se sempre muito bem e qual era o presente que tinha recebido? Ver, uma única vez, aquela bonequinha de olhos fechados, sempre a dormir naquela caixa fria sobre o armário!!!
Quando olhou para o armário a caixa já lá não se encontrava...
Aflita procurou a mãe, mas esta já tinha saído para o trabalho. O pai estava pronto para sair também. Restava esperar pela hora do almoço.
Apeteceu-lhe fazer tudo de errado naquela manhã. Estava furiosa, porque não sabia onde encontrar a sua boneca...
Hora de almoço. Logo que a mãe pôs os pés em casa, já a menina estava atrás da porta de entrada e lhe perguntava pela boneca...
- Minha filha, tu nem sabes o que aconteceu!!! - Conta a mãe, que sabia mentir como ninguém - A tua boneca fugiu!
-?????
- Fugiu pela fechadura da nossa porta!
- ??? Como? - disse a menina estupefacta! - Quando? Porquê???
- Não sei dizer-te. Eu vi-a sair, mas já não cheguei a tempo de a apanhar! Regressou àquelas casas que estão do outro lado do rio. Vês? Foi para o Monte de Santa Tecla. Lá muito no alto. Perdeu-se por certo!!! Foi embora e nunca mais vai voltar. Tens que acreditar em mim, minha filha!
A menina não quiz ouvir mais nada. Durante muito tempo não saiu do seu quarto. Chorava e dormia, dormia e chorava. Foi impossível alimentá-la e a custo foi bebendo um pouco de leite.
Em vão foram as promessas de uma nova boneca, de um novo brinquedo.
Ela apaixonara-se por aquela boneca que tinha visto apenas uma vez e quase nem pôde tocá-la!
Que fazer?
A mãe mostrava ares de preocupada. A filha fora sempre tão franzina, tão achacada a desgostos, sem apetite, sempre com a ameaça de doenças pulmonares...
Não devia ter-lhe mostrado a boneca que era para a filha do Doutor da Alfândega! Mas o mal já estava feito...
A menina nunca deixou de olhar para cima do armário na esperança de rever a sua boneca de olhos verdes, vestida de cetim vermelho... Como era linda... E de espreitar pelo buraco da fechadura tão pequeno! Mas como é possível passar por alí uma boneca tão linda como a dela?
Porque é que a boneca fugiu, justamente por alí?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Dores de barriga





Era uma vez uma criança que padecia de dores abdominais.


Obstipada quase sempre, recusava uma alimentação saudável, porque era muito mais interessante comer o que lhe apetecia e quando assim o entendia.


Apesar da constante preocupação dos seus avós, com quem vivia e convivia dia e noite, essa criança, como vivia de ar puro, loucas corridas pelos campos, brincadeiras incríveis entre muros cobertos de eras e velhas ruínas de casas de pedra, comia tudo o que fosse fruta verde, gomos de roseira, ervas azedas e outras iguarias.

Daí não ser estranha aquela indisposição abdominal permanente, que dava imensas dores de cabeça a quem, com tanto carinho, dela cuidava.


Mas havia uma solução que ela detestava. Um clister de água morninha e depois era só esperar o espirro de caca velha, que lhe saía em jacto pelo ánus!

Era uma operação muito delicada que envolvia muitos cuidados de higiene e sempre tinha que haver duas pessoas grandes para essa tarefa. É que a crinça era irrequieta demais e ninguém a segurava contra vontade.

Um dia desses, de muito calor por sinal, chegou a casa dos avós dessa menina a prima Aida. Essa visita trazia sempre algo de inovador: ou eram notícias da Capital de um tal Senhor Doutor, novidades do filho Vasco, ou alguma tarefa importante...

Mas como era muito divertido ouvi-la falar, sobretudo das coisas que se passaram com ela na sequência de um acidente de automóvel, que quase lhe levou metade da testa, a menina não desconfiou que a prima estava alí com uma missão diferente: segurá-la enquanto passava o líquido do recipiente, para o seu intestino.

A Avó começa a preparar tudo e quando já é chegada a hora do clister a menina é convidada docemente para ir para a alcova. E a menina muito obediente vai! Um olhar de espanto trocaram as primas, que não acreditavam que era dessa vez que menina não faria mais uma das muitas rebeldes cenas de gritaria, pontapés e afins...

Chegadas ao quarto, a menina sobe para a cama e nega a cánula dizendo que não quer mais aquilo!. Foram muitas as preces, que não ia doer, que ia ser a última, que fazia muito mal o cócó na barriga da menina, etc. etc.

Tudo em vão. Nova troca de olhares. Tinha de ser à força e a mais nova, a prima, é que ia suportar a força primária da criança que não queria clister, coisa nenhuma!

A muito custo lá entrou um pouquinho de água quente. Mas um gesto mais repentino e lá saiu a cánula. Agora é que são elas! As primas nem sabiam como fazer. O diacho da rapariga nem amarrada deixava fazer alguma coisa...

Mais umas preces, mais uns ralhetes...Nada...

De novo se empenharam na tarefa "contra-vontade". É nesse momento que a menina avista o chapéu domingueiro do seu avô, pendurado na parede tão perto da sua mão. Novinho em folha!! E se melhor o pensa, mais rapidamente o faz, pega no chapéu e cobre o rabito nu que aguardava nova investida!

A prima ri à gargalhada e a avó fica desolada, porque o chapéu vai ficar todo cagado!

- Não minha filha, não faças isso pelo amor de Deus. O teu avô vai me matar quando vir o chapéu novo dos Domingos nesse estado. Dá-mo cá, por favor....

-Eu dou se prometeres que nunca mais me pões isso no cu!

-Prometo meu amor, prometo...

Acabaram os clisteres, embora o aparelho tenha continuado pendurado na porta de acesso à retrete.

Mas nunca mais se usou e a menina continuou obstipada.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Uma alma do outro mundo



Por volta das 4 da manhã, ouvia-se um rumor abafado de corpos saindo das alcovas.

Fazia-se tudo em silêncio para não acordar a criança.

Alguém foi à janela e disse que estava escuro como breu. Mas não era problema, levavam-se duas candeias: uma à frente com o Zé e outra mais atrás com a Julieta.

A criança choramingou fingindo ter acordado naquele instante. Ouve-se "raios! a rapariga acordou, parece que adivinha..." Deixa lá, o remédio é levá-la e pronto.

Saíram de casa uma boa meia hora depois com um pedaço de broa e um café no bucho.

Lá fora, uma brisa fresca de dia que prometia calor, fustigou as faces do grupo que se pôs a caminho pelos caminhos tortuosos até ao moinho.

Alguns levavam às costas sacos de milho para moer e as mulheres cruzavam conversa ensonada. O caminho metia medo. As sombras das árvores ondulavam ao mais pequeno sopro matinal e pareciam fantasmas deambulando à nossa frente.

De repende ouve-se um cão. Insistente, o seu latido, acompanhou o grupo durante todo o percurso. Alguém lembrou a mais recente morte de um da terra. Cruzes, não podia ser a sua alma. Talvez fosse o cão dos Monteiro. Não podia ser!! A quinta fica no cimo da vila, muito lá para trás....

Não será o da Guida? Esse já morreu faz tempo.

Calem-se...escutem. O cão deixou de ladrar, mas ficou um latido pungente, melancólico, como se fosse um choro canino.

Foda-se isto tá a merter-me medo. Zé, trás para mais perto a lanterna... Sois uns medrosos!! Não vos cabe um feijão no cu!

É preciso apressar o passo. Estamos perto, mas o que falta do caminho é o pior...

Chegados a uma encruzilhada alguém pensou na tia Galdina que há muito tempo estava acamada. Coitada, nunca mais ninguém a viu e da última vez até veio a casa dela um doutor da Vila. Mas não havia nada a fazer, segundo o genro. Coitada. Será que morreu?? E se veio despedir-se de nós!!!????

Fez-se um silêncio de morte. Olha, olha foi aqui neste lugar que o Xico da Quina encontrou um cão enorme... tão grande, tão grande que não podia ser deste mundo.

Cala-te que assustas a criança...

Foi séria a coisa!!. O rapaz que viu o cão nunca mais falou! Prendeu-se-lhe a língua para sempre!

Vamos mas é dar à sola. Este caminho está ensopado. Deixaram correr água por aqui. Bandidos do carago.

Já estavam a chegar quando um barulho de folhas secas gelou o sangue do grupo. Calma! Parem!

O que é isto? Algum animal que se assustou... Sentiu-se uma respiração ofegante que não era de cão ou então era de cão muito grande!

Não pode ser...é uma alma perdida...

Vamos para o moinho, depressa.

Ao regressar a casa alguém correu a dar a notícia. A tia Galdina tinha morrido de madrugada!

Violência conjugal ...depois da morte


Numa aldeia pequena, cheia de mistério, nasceu uma menina enfezada, quase raquítica, numa família de pequenos agricultores.
O dia do seu nascimento foi sempre uma incognita... Na realidade nem a mãe e muito menos os avós sabiam ao certo quando essa criança havia nascido para a vida...
Mas isso não era importante.
Cresceu entre sopas de vinho, pão azedo cozido às quintas-feiras e muito amor dos avós. Era mais ou menos educada embora dissesse todo o tipo de asneiras, situação que merecia o riso dos grandes pela mestria e oportunidade no seu emprego e também uns bons açoites por parte de quem a queria educada e fina.
Quando chegou a hora de casar, casou. Contrariando os seus progenitores e não valendo de nada todos os conselhos que recebeu para que não fizesse tal asneira. Mas, quem pensa não casa e quem casa não pensa.
Um dia, aborreceu-se da vida que levava e quiz terminar tudo... Mas foi impossível, pelo que o castigo era continuar casada, independentemente da sua nova vontade. "Gramou" anos a fio uma vida aborrecida, cheia de desaires económicos, morta de tédio....
Quando chegou o dia do juízo final quiz que a sua alma fosse entregue ao Senhor, dentro dos canônes que sempre professou.
E assim aconteceu.
Embora não fosse muito cristão, quiz ser cremada e é então neste momento que acontece uma coisa nunca vista.
SãoPedro convidou a alma dessa mulher a exibir as qualidades que poderiam abrir-lhe as Portas do Céu.
A mulher um tanto confusa entre a "visão" do seu corpo inerte dentro de um caixão e toda a assembleia chorando baba e ranho, vira-se para São Pedro e pergunta-lhe:
- São Pedro, vês aquele homem sentado no primeiro banco da Igreja, ao lado de uma pessoa loura?
- Vejo...É o teu marido!
- Pois é. Parece estar triste, mas na realidade vai ficar bem de vida. Fica com 65% da minha pensão...
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- Será que posso ter um último desejo antes de arder para sempre?
- Vou conceder-te tal desejo se for para enaltecer a tua alma.
- São Pedro permite-me que lhe dê um par de murros naquela fussa que foi uma coisa que nunca pude fazer enquanto vivi...
- Mas minha filha, isso não serve para enaltecer a tua alma e não deixa de ser pecado...
-Pecado foi ter aguentado uma vida imensa o traste do homem e nunca me ter sido dada a possibilidade de fazer justiça...
-Pois seja. Mas isso tem de ir a Conselho Superior.
Para espanto de todos, um ventinho frio passou pela assembleia e parou junto ao viúvo. Como por magia, leva um murro no nariz que o prosta por terra. Tudo e todos ficaram sem respiração.
Depois a mulher olhou para o seu corpo inerte...
Estava saldada a dívida.
Voltou ao seu corpo e antes de arder em Paz, foi a Conselho Superior.