
As alcovas estavam separadas por finas paredes em madeira e estuque. Nalguns pontos já se via a madeira e noutros, o estuque que havia sido retocado, formava bolhas, umas mais salientes ou mais extensas que outras.
Também se viam alguns buracos verticais, que deixavam passar a luz e os sons de um compartimento para o outro.
Da forma como entrava o dia, pela única janela daquele espaço, essas bolhas formavam figuras grotescas jogando com o efeito claro/escuro ou, luz/sombra.
Da forma como entrava o dia, pela única janela daquele espaço, essas bolhas formavam figuras grotescas jogando com o efeito claro/escuro ou, luz/sombra.
A luminosidade, os contrates e os sons que vinham do exterior, excitavam a imaginação e era frequente ver/imaginar figuras representativas de animais, caras de pessoas, árvores, bonecas e outras coisas.
Nalgumas situações essas representações pareciam ganhar vida. Era uma espécie de jogo com a visão projectada sobre as paredes irregulares e velhas de estuque.
A imagem que mais vezes aparecia era a de uma sedutora bailarina de flamengo. Podia ver-se a sua saia multicolor de folhos sobrepostos, o seu peito semi inclinado, os braços e mãos em posição de passodoble.
As criações fantásticas de animais eram quase sempre em atitudes agressivas. Cães raivosos, dentes afiados, gatos com o dorso em arco, vacas e cabras pastando serenamente... Enfim tudo o que a imaginação de uma criança podia alcançar.
O escuro tomava conta do local e as figuras desapareciam para voltarem como por encanto durante o sono. E na manhã seguinte, mal raiava o dia lá vinham algumas delas, porque outras desapareciam de forma definitiva.
A pesquisa minuciosa de alguna pontos chave tornava-se inútil. Tinham desaparecido mesmo as tais figuras que representavam histórias vividas silenciosamente por muito tempo, muito tempo...
O cansaço da pesquisa obrigava a adormecer. E lá vinham de novo aquelas imagens, algumas delas metiam medo, queria afastá-las do pensamento, pois já não faziam parte da imaginação, mas elas permaneciam como pedras feitas de estuque.
Era no tempo em que nem se sonhava com televisão.
Os velhos dessa época diziam frequentemente : "Quando o ferro falar e o homem voar, o Mundo está para acabar".

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