sábado, 26 de setembro de 2009

Furacão


Estava no 5º ano do liceu e fazer exames nessa altura era obra!

Porque queria terminar o liceu para poder iniciar uma nova vida - a de trabalho - uma vez que estava longe a possibilidade de continuar a estudar, foi fazer os exames ao novo liceu de Braga. Novinho em folha, ainda não dispunha de corpo docente, pelo que foram convidadas para os exames, as barras em chumbos do Liceu Carolina Micaelas do Porto.

Azar!!! A fama de más em matéria de exigência escolar, levava a temer-se muitos chumbos naquele ano. Então, quando se falava da prof. de matemática até dava arrepios!!

Há que aguentar e lá foram muitas meninas para aquele liceu terminar o secundário.

Uma delas estava com dificuldades económicas. Os pais fizeram um grande sacrifício para a poder manter durante o período de exames numa pensão, com pensão completa. Por isso não podia chumbar.

Os seus dias eram passados entre os livros e apenas estudava, comia e dormia. Vieram os dias das escritas e os resultados foram bons. Numa das secções (letras), não dispensou da oral por apenas 2 décimas. Lamentou, mas era melhor não recorrer da nota...

Vieram as orais de letras e passou com uma boa nota final. Respirou de alívio e nessa tarde foi para a pensão descansar e pensar nas próximas orais de ciências.

Não viu as pautas porque era praticamente impossível estar escalada para o dia seguinte à sua última oral de letras. Podia, quando muito, ser suplente, mas nem isso.

Estava exausta e foi descansar. Dormiu serenamente e despreocupadamente. No dia seguinte calmamente, com ar triunfante, foi para o liceu assistir a algumas orais de ciências. Sentiu o calorzinho que antecipava as féria grandes!

No átrio, passou pelas pautas. Por curiosidade procurou nesse dia os nomes das colegas que se encontravam indicadas e a letra em que iam as orais...

No 1º lugar às 8,30 da manhã daquele preciso dia, lê incrédula o seu nome. Esfregou os olhos...estava a ter uma miragem terrífica. Olhou para o relógio de pulso. Eram 9,30 h . As orais tinham começado há uma hora e ela era a primeira na disciplina de física!!!

Nem queria acreditar. Verifica o número da sala onde decorrem as orais... E como se fosse um furacão sobe as escadas duas a duas e entra na sala a correr, esbaforida, onde o silêncio era sepulcral! Estava a ser "triturada" uma das suplentes, a primeira que a substituiu!

- Senhora doutora, posso falar?

A presidente de júri levantou os olhos que tinha pregados à secretária e antes de mais nada pediu ao "furacão" que se calasse porque decorria uma oral.

- Cale-se e sente-se. Não vê que está a decorrer uma oral e uma das suas colegas está a ser examinada?

Acenou com a cabeça que sim e procurou um lugar na assembleia. A sala estava repleta e teve que gramar com os olhares reprovadores das colegas...

A oral terminou e a presidente do júri interpelou nestes termos a sala:

- Levante-se a senhora que entrou nesta sala como se fosse uma locomotiva!!!
Risota geral!

As locomotivas naquele tempo já atingiam uma certa velocidade, mas ainda não aspiravam a TGV!

Levantou-se e sentiu que o Mundo inteiro estava sobre os seus ombros. Naquele momento passou pela sua cabeça o que diriam os seus pais, quando lhes tivesse que explicar que teria de permanecer em Braga, naquela pensão por mais x dias, porque faltara à chamada naquele dia fatídico! Como seria passar o tempo até concluir todas as orais e quando seriam? Como justificar-se perante aquela assembleia com três professoras tão severas - que eram do Porto! - e as colegas que já a olhavam de lado e de forma reprovadora?

As palavras estavam presas na garganta e a sua vontade era começar aos berros. Mas isso era proibido e o melhor era apelar para a melhor e mais convincente forma de contar o sucedido.

- Senhora Doutora, peço desculpa pela minha entrada e peço desculpa também à colega que estava a ser examinada, mas fiquei descontrolada quando me vi na primeira linha de entrada nas provas orais de ciências, depois de ter saído ontem daqui às 18 horas. É que ontem a essa hora terminei as minhas provas orais de letras e sinceramente não julguei que estaria designada hoje para a primeira oral de ciências. Não sei se tenho alguma possibilidade de fazer hoje exame, é que se ficar para o final das orais os meus pais matam-me, porque estou numa pensão a gastar o seu dinheiro...

Risinhos...

- Silêncio, minhas senhoras! - gritou a presidente do júri que até alí lhe tinha prestado a maior atenção.

- Para ser possível admitir o seu pedido, precisa de perguntar à colega que acabou a sua oral se pretende desistir...caso contrário vai para o último dia de orais como manda o regulamento.

Não tinha fixado a cara da colega que acabara a oral e por isso procurou ajuda entre os presentes. Não encontrou ajuda e então, com o seu despacho habitual, disparou:

- Quem é a colega que acabou de fazer a oral?

- Sou eu...

- Importas-te de desistir?

- Não me importa. Eu desisto da oral...
- Obrigada.
Tinha-lhe corrido mal!!!

Uff! Que alívio!

Passaram alguns minutos. Percebeu-se que tentavam resolver a questão burocrática. Os minutos pareciam anos.

Não se sentou e aguardou que a chamassem.

A presidente de júri esclareceu que a prova da colega ficara sem efeito e em sua substituição iria chamar-se a senhora que faltara à chamada. A decisão do júri foi unânime.

- Senhora....responda às questões que lhe vão ser colocadas pela Drª....

Saiu do seu lugar e sentou-se na secretária em frente ao júri. As suas pernas tremiam e o seu coração pareceia que queria saltar do peito.

A examinadora apercebeu-se do seu estado de espírito. Disparou a primeira questão e a resposta dada era errada...

- Compreendo o seu estado e o seu nervosismo. Tente ficar calma. Tenho a certeza que sabe a resposta. Não se precipite!!

Afinal as professoras do Carolina eram humanas e estavam ali para lhe dar uma oportunidade.
O exame decorreu sem incidentes e a nota final foi muito boa apesar de tudo!!


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