Era uma velhinha de olhos azuis, cabelo todo grisalho preso com uma trança enrolada atrás da cabeça, com um semblante de quem outrora foi muito linda. O seu sorriso, sempre disponível, conferia-lhe um arzinho matreiro e, por vezes, sarcástico.
Era uma avó excelente. Tinha tudo o que um neto pode desejar: bons conselhos sem ser chata, boa cozinheira, brincalhona e, sobretudo, amiga.
Arranjava-se logo de manhã ao sair da alcova e depois de se refrescar da noite dormida. Vestia-se sempre de roupa limpa, por baixo e por cima e nunca esquecia o seu xaile e o seu avental. Depois, mesmo nos dias frios, agazalhava os bichos (que eram muitos), e quando entrava na cozinha o seu nariz estava frio como a água gelada. Sentia todos os dias esse frio quando lhe dava um beijo carinhoso e a acordava com falinhas mansas.
Gostava de uma boa conversa e quase todos os dias tinha a visita das comadres. Eram algumas, porque essa velhinha era parteira e madrinha de quase todos os que ajudava a nascer para a vida, na aldeia.
Morgada, fora uma doce e querida donzela que vestia saiote até aos pés e que era impedida de rodopiar a saia para que não se lhe vissem os tornezelos.
Viveu a sua vida sempre sob esse respeito de si porópria. Detestava a ganância, o orgulho e a vaidade.
Foi mártire de um marido que não lhe dava o devido valor. O que mais temia nele era o vexame. Odiava as festas: Natal, Páscoa. Era nessas datas que o marido lhe dava mais dores de cabeça. Não sabia beber e quase sempre acabava a festa em briga, o que a fazia sofrer imenso.
Nas tardes soalheiras, vinham a casa para uma cabaneirice, certas comadres que davam tudo para se apresentar com algo novo: sapatos, saias, casacos...etc. Quando chegavam a primeira coisa que gostavam de apresentar era o que traziam de novo. Que fora uma prenda. Que fora comprado na feira da Vila. Que lhes mandara este ou aquele da França. Que compraram na Galiza, etc.etc. A velhinha nem prestava atenção a tais relatos. Queria ela lé saber a proveniência da novidade da comadre!?
Mas do que ela gostava mesmo era quando as comadres vinham com alpergatas novinhas em folha. O seu espirito brincalhão não parava de surpreender e era uma risota sem tamanho as marotices que ela fazia. Estando as perninhas das comadres esticadinhas ao sol, com as tais alpergatas nos pézinhos, a velhinha safada aproximava-se lentamente e como quem não quer a coisa, fazia pontaria no sentido dos pés das comadres e...lá vai...uma mijadela daquelas sobre os estreados adereços. A valhinha não usava calcinhas...
Claro que as atingidas só sentiam a mijadela quando o mijo arrefecia nas alpergatas. Algumas no calor da conversa só "acordavam" com o cheiro a urina. Tal marotice enfurecia as comadres que praguejavam, mas sem uma palavra sequer contra a mijona. Ela ria-se e quando elas ripostavam respondia-lhes que era para batizar a prenda.
Batismo com urina, convenhamos, não era muito agradável. Mas a velhinha ria e fazia rir toda a gente. Caíam na esparrela, mesmo as mais espertas e logo percebiam que exibir coisas novas no quinteiro da velhinha não era a melhor escolha.
E assim se passavam as tardes quentes junto daquela que jamais será esquecida. Uma velhinha malandreca a valer.


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