segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A vaca da vizinha



- Tio Zé! Oh! Tio Zé!!

- Quem raio me chama?

- Sou eu. A minha vaca parece que vai parir! Pode vir vê-la?

- Já vou, já vou. Aquece água e traz bastante azeite...


Uhm!!!!!!!!!! Vai haver novidade e aquela endriabada da neta do Zé não vai descansar enquanto não se emploleirar numa das traves da corte para assistir ao parto!!!


- Laurinda, vou à Maria ver como está a vaca. Logo te dou notícias...

- A rapariga vai contigo?

- És tola ou quê? Só se for para me empatar mais que a vizinha. Ela fica contigo. Vê se não a deixas escapar-se.


Mas já era tarde demais. Num dos estrados para ração estavam um par de olhos verdes, arregalados até ao couro cabeludo, enfiados numa cara franzina de quem não se alimentava, nem à lei da bala! Curiosa. Impressionantemente quieta, para quem tanto reboliço fazia durante o dia e até à noite! Caladinha, que nem um rato, porque se fosse vista alí era coça da brava!!!


-Então tio Zé?

-Ainda está atrasada, mas deve ser esta noite...ou talvez amanhã, pela madrugada. Não sei! A ver vamos como diz o cego.

- Que faço com a água e o azeite?

- Por enquanto nada. Volto daqui a mais umas duas horas. Tem calma, mulher!!!

- Pois, que remédio!!!


Porra! E a rapariga tem que regressar a casa. Afinal o espectaculo está atrasado. Mas ela volta!!! Ah! se volta!!


Sorrateira, aparece com o ar mais angelical deste mundo vinda da retrete.

- Onde te meteste, que não te vejo há muito tempo??

- Fui à retrete! Venho agora mesmo de lá! Não viu bó??

- Não te afastes da casa e muito menos não te quero na casa da vizinha. Vê se me obedeces, por favor.

- Tá bem, tá bem, eu obedeço...fique descansada!!!


Cearam o caldo que ficou do jantar e um resto de arroz com peixe frito. Estava tudo muito bom, mas a rapariga não tocou em nada, a não ser no pão e numa pinguinha de vinho que a fez estremecer de azedume...Comentaram que a rapariga cada vez estava pior para comer. Assim, qualquer dia adoecia e depois é que iam ser elas!!!

- Cala-te. Ela come quando lhe apetece...

- E come o que não deve!

- Que queres que se faça? Bater, não podemos. Obrigar, muito menos, porque gomita tudo... É cá uma canseira!. Temos que a levar à Vila para que o Doutor a veja.


E a conversa virou para a vaca da vizinha.


- É hoje que vai nascer?

- Não sei. Tá tudo muito atrasado...

- Se calhar vai deitar para as tantas da noite, não ????

- Sei lá!!!


Arrumou-se a cozinha e aconchegaram-se as brasas ainda acesas da lareira. Os potes já estavam de lado, mais pretos que o carvão. Seriam lavados no dia seguinte e se chovesse era bem provável que ficassem até à hora do jantar sob as pingas que caíam do telhado. Assim, aproveitava-se a água e o serviço estava meio feito!


-Vamos para a cama, que amanhã é um novo dia com muito para fazer!! - Diz a avó para a neta.

- Já????

- Sim, já! Além disso tens de dormir, já que não comes nada, minha menina!!

- Oh bó, deu-me agora mesmo uma fome...

-Tás a brincar comigo??

- A sério, bó. Apetecia-me um fundinho de caldo. Mas muito pouco, se faz favor.


O caldo vem ainda quente e a mocinha pegou a custo na colher.


- Que boa que tá bó!! Vou comer tudo...

- ?????!!!!!!!!!!!!!


Entretanto o avô Zé preparava-se para ir espreitar a vaca da vizinha.


- Vou ver se há novidades!!!

- Não vou esperar, Zé, que amanhã tenho de me levantar mais cedo.

- Faz isso mulher. Deita-te e descansa...


A mocinha comia muito devagar, uma colher atrás da outra e sempre mexendo e remexendo o caldo. Um feijão para este lado, um pedaço de batata para aquele, um troço de couve quase a cair do prato, enfim, o caldo nunca mais acabava.


- Vê se te despachas que quero ir pra cama, rapariga!!!

- Bó, eu vou comer o caldo todo, mas está muito quente e não quero escaldar-me. Vai-te deitar bó, que eu vou já para a cama.

- Fazes isso? A sério??

- A sério bó. Vais ver que vou comer tudo. Depois ponho o prato na maceira e vou dormir. Podes ir descansada.


O caldo foi para a pia do porco mal a avó virou costas e quanto à ida para a cama era tudo falsidade daquela safada!


Estava escuro como breu, mas lá bem alta estava uma Lua de meter inveja. Se estivesse muito perto dali quase parecia o sol a iluminar todos os espaços que ficavam com um ar de lavado. Mesmo aquele caminho sempre todo sujo de estrume, parecia branco!!!! Incrível!


Pé ante pé, lá se esgueirou para perto da entrada da corte onde estava a vaca da vizinha... Ouviu as vozes do avô e da vizinha. O avô dizia que a hora estava a aproximar-se e que precisaria de pelo menos mais um homem para segurar na vaca! A vizinha foi chamar o Sacristão. Uma figura caricata: muito alto e magro. Um nariz que não acabava mais e sempre fanhoso.

Não tinha ar de muita força, isso não, mas era jeitoso na ajuda. Mais valia gente com jeito que com força. Para a força estava alí o grande e indomável Riquitau, alcunha do avô e parteiro, nos meios mais mal falantes da Vila e arredores!!!

Os três adultos em volta da vaca aguardavam que esta desse um ar de quem vai parir... Nesta altura já a rapariguinha estava no camarote da corte, medindo todos os passos e abstendo-se de fazer o mínimo ruído para não sair dalí com o rabo quente...


A vaca começou a ficar impaciente. O tio Zé de mangas arregaçadas até ao pescoço, pediu a garrafa do azeite e num movimento rápido besuntou as mãos e os braços. Depois enfiou até ao sovaco a mão e o braço direiro no ventre da vaca da vizinha. Moveu levemente o braço como quem pretende alargar o buraco por onde, supostamente, iria sair a cria...


- Já falta pouco...

- Coitada, os animais também sofrem muito....

- Felizmente não berram como algumas mulheres!!!! - disse o Tio Zé!


Mais uma pausa. A noite parecia que não acabava mais. De vez em quando a mocinha fechava os olhos de cansaço e quase se deixou vencer pelo sono. Mas acordou...E se caísse no chiqueiro da corte ao pé da vaca da vizinha??? Foge!!!!!!!!!


Mais uma investida e nada. As horas passaram lentas... A conversa era quase sempre a mesma: as culturas, o ano que ia mau, as regas, as doenças, as mortes, a política, a falta de energia para vir a luz, etc. etc. O sacristão também opinava de vez em quando, sobretudo quando se falava de padres e das suas proezas pelas aldeias. Ninguém escapava àqueles três cabaneiros...


A vaca voltou a mexer-se e levantou-se a custo. Começou o trabalho de parto. O sacristão ocupou estrategicamente o lado esquedo da vaca, a vizinha o lado direito e o avô estava atento à saída da cria. Voltou a besuntar a mão e braço com muito azeite. Enfiou de vagar a mão na boca do corpo da vaca da vizinha. Sentiu a cria e devagar aproveitou o primeiro e longo puxo da vaca. Cagou-se toda. O avô pediu ao sacristão para pegar num pouco de palha e limpar o cu da vaca. E o milagre começou a processar-se, primeiro vejo uma pata pequena de animal que sai lentamente. O avô ordena um EMPURREM enérgico para ajudar a vaca a expulsar a cria. Todos fazem imensa força. Todos sofrem incluindo a mocinha que babava de tanto pasmo.
A cria saiu finalmente e logo a vaca da vizinha se pôs a lambê-la como se a quisesse limpinha para as visitas. Depois deitou-se na palha limpinha e acabada de espalhar.
Era uma linda cria. A mocinha ficou logo apaixonada pelo animal.
- Bô, posso levá-la para o campo pastar, quando ela puder andar??
- ???
- Que tás aí a fazer? Porque não estás a dormir com a tua avó?? Tu passaste aqui a noite toda?
É desta vez que te vou assentar os cinco mandamentos.
A vizinha estava tão contente que pediu misericórdia para o comportamento da mocinha. Foi perdoada. No dia seguinte toda a rapaziada da aldeia soube que a vaca da vizinha tinha dado à luz um lindo vitelinho e já tinha madrinha e tratadora.

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