sábado, 3 de janeiro de 2009

Uma alma do outro mundo



Por volta das 4 da manhã, ouvia-se um rumor abafado de corpos saindo das alcovas.

Fazia-se tudo em silêncio para não acordar a criança.

Alguém foi à janela e disse que estava escuro como breu. Mas não era problema, levavam-se duas candeias: uma à frente com o Zé e outra mais atrás com a Julieta.

A criança choramingou fingindo ter acordado naquele instante. Ouve-se "raios! a rapariga acordou, parece que adivinha..." Deixa lá, o remédio é levá-la e pronto.

Saíram de casa uma boa meia hora depois com um pedaço de broa e um café no bucho.

Lá fora, uma brisa fresca de dia que prometia calor, fustigou as faces do grupo que se pôs a caminho pelos caminhos tortuosos até ao moinho.

Alguns levavam às costas sacos de milho para moer e as mulheres cruzavam conversa ensonada. O caminho metia medo. As sombras das árvores ondulavam ao mais pequeno sopro matinal e pareciam fantasmas deambulando à nossa frente.

De repende ouve-se um cão. Insistente, o seu latido, acompanhou o grupo durante todo o percurso. Alguém lembrou a mais recente morte de um da terra. Cruzes, não podia ser a sua alma. Talvez fosse o cão dos Monteiro. Não podia ser!! A quinta fica no cimo da vila, muito lá para trás....

Não será o da Guida? Esse já morreu faz tempo.

Calem-se...escutem. O cão deixou de ladrar, mas ficou um latido pungente, melancólico, como se fosse um choro canino.

Foda-se isto tá a merter-me medo. Zé, trás para mais perto a lanterna... Sois uns medrosos!! Não vos cabe um feijão no cu!

É preciso apressar o passo. Estamos perto, mas o que falta do caminho é o pior...

Chegados a uma encruzilhada alguém pensou na tia Galdina que há muito tempo estava acamada. Coitada, nunca mais ninguém a viu e da última vez até veio a casa dela um doutor da Vila. Mas não havia nada a fazer, segundo o genro. Coitada. Será que morreu?? E se veio despedir-se de nós!!!????

Fez-se um silêncio de morte. Olha, olha foi aqui neste lugar que o Xico da Quina encontrou um cão enorme... tão grande, tão grande que não podia ser deste mundo.

Cala-te que assustas a criança...

Foi séria a coisa!!. O rapaz que viu o cão nunca mais falou! Prendeu-se-lhe a língua para sempre!

Vamos mas é dar à sola. Este caminho está ensopado. Deixaram correr água por aqui. Bandidos do carago.

Já estavam a chegar quando um barulho de folhas secas gelou o sangue do grupo. Calma! Parem!

O que é isto? Algum animal que se assustou... Sentiu-se uma respiração ofegante que não era de cão ou então era de cão muito grande!

Não pode ser...é uma alma perdida...

Vamos para o moinho, depressa.

Ao regressar a casa alguém correu a dar a notícia. A tia Galdina tinha morrido de madrugada!

Um comentário:

  1. Este está muito bom...

    Dava para desenvolver bastante mais... muito bem, Maria...

    Beijo grande

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