
Por volta das 4 da manhã, ouvia-se um rumor abafado de corpos saindo das alcovas.
Fazia-se tudo em silêncio para não acordar a criança.
Alguém foi à janela e disse que estava escuro como breu. Mas não era problema, levavam-se duas candeias: uma à frente com o Zé e outra mais atrás com a Julieta.
A criança choramingou fingindo ter acordado naquele instante. Ouve-se "raios! a rapariga acordou, parece que adivinha..." Deixa lá, o remédio é levá-la e pronto.
Saíram de casa uma boa meia hora depois com um pedaço de broa e um café no bucho.
Lá fora, uma brisa fresca de dia que prometia calor, fustigou as faces do grupo que se pôs a caminho pelos caminhos tortuosos até ao moinho.
Alguns levavam às costas sacos de milho para moer e as mulheres cruzavam conversa ensonada. O caminho metia medo. As sombras das árvores ondulavam ao mais pequeno sopro matinal e pareciam fantasmas deambulando à nossa frente.
De repende ouve-se um cão. Insistente, o seu latido, acompanhou o grupo durante todo o percurso. Alguém lembrou a mais recente morte de um da terra. Cruzes, não podia ser a sua alma. Talvez fosse o cão dos Monteiro. Não podia ser!! A quinta fica no cimo da vila, muito lá para trás....
Não será o da Guida? Esse já morreu faz tempo.
Calem-se...escutem. O cão deixou de ladrar, mas ficou um latido pungente, melancólico, como se fosse um choro canino.
Foda-se isto tá a merter-me medo. Zé, trás para mais perto a lanterna... Sois uns medrosos!! Não vos cabe um feijão no cu!
É preciso apressar o passo. Estamos perto, mas o que falta do caminho é o pior...
Chegados a uma encruzilhada alguém pensou na tia Galdina que há muito tempo estava acamada. Coitada, nunca mais ninguém a viu e da última vez até veio a casa dela um doutor da Vila. Mas não havia nada a fazer, segundo o genro. Coitada. Será que morreu?? E se veio despedir-se de nós!!!????
Fez-se um silêncio de morte. Olha, olha foi aqui neste lugar que o Xico da Quina encontrou um cão enorme... tão grande, tão grande que não podia ser deste mundo.
Cala-te que assustas a criança...
Foi séria a coisa!!. O rapaz que viu o cão nunca mais falou! Prendeu-se-lhe a língua para sempre!
Vamos mas é dar à sola. Este caminho está ensopado. Deixaram correr água por aqui. Bandidos do carago.
Já estavam a chegar quando um barulho de folhas secas gelou o sangue do grupo. Calma! Parem!
O que é isto? Algum animal que se assustou... Sentiu-se uma respiração ofegante que não era de cão ou então era de cão muito grande!
Não pode ser...é uma alma perdida...
Vamos para o moinho, depressa.
Ao regressar a casa alguém correu a dar a notícia. A tia Galdina tinha morrido de madrugada!

Este está muito bom...
ResponderExcluirDava para desenvolver bastante mais... muito bem, Maria...
Beijo grande