sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sinal comadre!


Era o tempo das colheitas, por S. Miguel, e todo o cenário convidava a debulhar, malhar, os cereais maduros que ficariam guardados nos celeiros limpos e arejados.

Era preciso gente. Muita gente para trabalhar. Vinham de todos os lados, da Veiga, de Prado, da Corga, dos montes sem nome, lá para muito longe da vista.

E ficavam em casa, todos, durante dias, até que a faina amainasse!

Verão quente e Outono morno. Das alcovas vinha um odor de corpos suados e mal lavados. Uma tosse de quem vai ter pulmões infectados, estranha o silêncio. Um sussurro de gente que se volta na cama quente.

Amanhece e toda a labuta se inicia pelas cinco da manhã. Na cozinha todos têm assunto:

- Não se dorme nada com este calor!

- O tio Zé tossiu muito durante a noite!

- Pois, ele fuma que nem um cavalo!!

- Hoje temos muito que lhe dar! Oxalá o tempo não aqueça muito!



Já cheira a café fresco e alguém pede o mata-bicho.

- Devagar com isso que é muito forte!

- Eu não trabalho bem se não tiver o bucho quente com esta maravilha de aguardente!

-Tá mesmo boa, cá vai!



O pão é de mistura e vai muito bem, migado dentro das malgas, no café muito quente.



Já toda a gente está a postos e parte, ainda noite, para os campos.



Vem o fim de tarde e todos regressam. Lavam as mãos e as caras e sentam-se à mesa para a última refeição.



Ainda é cedo para dormir e por isso vão para um serão debulhar o minho e o feijão.

As conversas são sempre as mesmas: a gente que morre e do que morre. O que aconteceu a fulano e a beltrano. Alguém que tinha ido à bruxa e tinha perdido uma fortuna! A tuberculose.



Na roda estava a tia Rosa. Mulher de mais de cinquenta anos, mas que aparentava muitos mais e que viera de muito longe para ajudar a prima, que sempre a tinha ajudado na vida.
Tratavam-se por comadres, mas na verdade nunca o foram. A tia Rosa, mulher baixinha, de cara redonda e rosada tinha estampado no rosto a dureza da sua vida. Casara sete vezes e sete vezes enviuvara. Dizia que em cada espiga de milho via um homem!
Não gostava de se lavar e tinha umas rastas no cabelo mais espessas que os novelos de linho antes de dobar.

Era pouco faladora, sempre atenta e uma trabalhadora de se lhe tirar o chapéu. Tinha uma forte inclinação para tudo o que era sobrenatural.

Um dia, num lindo dia de verão, por sinal à hora do descanso, depois da janta, a única criança da casa quis penteá-la. Ela a princípio não deixou, mas perante a insistência da pequena lá acedeu e deixou entrar um pente. Foi em vão. O pente não entrava e só as cãs sentiram os dentes do pente. A criança desistiu da tarefa.

Numa daquelas noites depois de muito trabalho, os corpos pediam descanso ainda que não fosse necessário dormir. De novo as voltas nos leitos, os suspiros, o ressonar e a tosse forte e contínua. Silêncio sepulcral... Um ruído de passos rompe o silêncio.
Quem seria? Estava tudo fechado e todos nas alcovas. Não está ninguém lá fora...
De novo passinhos rápidos seguidos de barulhos de quem entra e sai, entra e sai...
- Comadre!! Comadre!! Sinal...
Silêncio schhh.......
- Comadre! Sinal!
Silêncio...

No dia seguinte, os olhos dos trabalhadores evidenciavam cansaço, uma noite mal dormida. As bocas bocejavam até às orelhas!

- Ouviu-se muito barulho esta noite!!
- Também ouvi... Vinha do forro da casa. Parecia gente a andar de um lado para o outro!

E a mesma voz repete: - Comadre, sinal....

- Não foi nada. Foram os ratos!
- Os ratos?
- Sim. Ratos ou ratazanas, que se passeiam toda a noite no forro da casa...

A tia Rosa não acreditou que eram os ratos. Tinha de ser um sinal de alma penada! Isso sim. Tinha a certeza e para o quê, haveríamos de ver!

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