segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O afinador de concertinas


Era um indivíduo apessoado, forte, bem humorado e muito solidário. Tinha perdido ainda novo, num acidente, uma das pernas. Nunca se conformou com essa perda e de vez em quando zangava-se com as muletas que trazia debaixo dos braços para lhe facilitar a locomoção e atirava com elas para alguns metros de distância resmungando sempre: "suas putas!!".
O seu dia-a-dia passava-o numa pequena oficina que tinha no rés-do-chão da sua casa, onde fazia as afinações sob a orientação do seu tio Velino e dava lições de acordeão, porque nisso era barra. Também conversava com a mulher, quando esta descia para passar a ferro na mesa da oficina.

Gostava de gozar com o pessoal mais jovem e sobretudo com uma rapariguinha que vinha de longe com o seu acordeão de 2 oitavas a pé, alguns dois klms, ou mais. Essa rapariga tinha paixão pelo acordeão, mas era uma preguiçosa para aprender, que metia dó. Ele, sempre com uma paciência de Jó, lá a encaminhava com promessas de grande futuro nos bailes da Vila ou até, quem sabe, numa grande cidade! Essas divagações levavam a rapariguinha para lugares onde jamais estaria, fantasiando com os tais bailes e verbenas, onde tocaria para muita gente dançar. Tais fantasias retiravam-lhe a pouca vontade que tinha de estudar e aprender, o que fazia com que o Sr. José ficasse possesso!!

Um dia a rapariga chegou esbaforida pelo calor e pelo cansaço do percurso que havia feito com o acordeão às costas e encontrou o seu professor muito arrochadinho, com grandes olheiras e um enorme inchaço na cara. Perguntou, um tanto surpreendida com a carinha de lástima que ele apresentava, o que lhe tinha acontecido. O afinador manda-a sentar e, ao contrário dos outros dias, não lhe pede para tocar nada, apenas para o ouvir.

- Ouve bem o que te vou dizer!

-????

- Hoje não vou perder tempo contigo, por dois motivos: primeiro porque tou com uma dor de dentes que me rebenta com a cabeça; segundo porque tens que aprender a estudar o que te mando em casa e não aqui!!. Aqui é para eu te ensinar, não para tu, minha preguiçosa, estudares, ouviste??

- Sim senhor. E do que é essa bochecha assim inchada?

- Foi ontem. Tive que arrancar um dente!


A rapariga quiz saber pormenores. Então lá contou com todos os detalhes o episódio do dia anterior.
Por volta da meia noite, mais coisa, menos coisa, começou a sentir uma dor fortíssima num dente canino. Bochechou com aguardente, que quase apanhava uma bebedeira, mas nada! O dente continuava a doer que metia medo e quando metia ar pela boca a dor era tão violenta que o fazia chorar. Ele, um homem daqueles, a chorar por causa de um miserável dente! Foi então que pensou em descer à oficina para pegar num alicate e tirar o dente. Quando saiu de casa para ir para a oficina, tinha de descer uns quatro degraus, como era noite e a dor o impedia de raciocinar, tropeçou com uma das moletas e quase contou as escadas com os costados!
Ficou tão furioso com o dente que quando pegou no alicate nem sequer hesitou! Puxou com tanta força que o dente começou a abanar, mas não saiu. Se tinha dores, com mais dores ficou e os nervos já estavam a endoidecê-lo!
Voltou mais uma vez ao dente, mas com um alicate maiorzinho que colocou bem perto da gengiva. Encostou-se à mesa e com as duas mãos puxou com toda a sua força o maldito dente. Saiu finalmente, mas foi difícil estancar a hemorragia!
Mostrou o dente à rapariga que arregalou os olhos de admiração. Aquilo não era um dente era um fueiro! Porra! E lá tinha o buraco por onde entrava o ar quando ele respirava pela boca! Via-se muito bem o raio do buraco.
Foi preciso muita coragem, pensou a rapariga.
- Agora vai para casa e estuda esta música. Se amanhã não a tocares toda como deve ser, arranco-te uma orelha com o mesmo alicate com que arranquei o meu dente. Podes crer!
A rapariguinha foi todo o caminho a pensar no sucedido e como o seu professor estava abatido e com dores. Também ia com medo da ameaça.
Quando chegou a casa pegou no acordeão e só o largou depois de saber tocar muito bem a tal música. A avó que sempre lhe pedia para tocar uma modinha para a alegrar, ficou admirada com tanto estudo.
Quando soube da desgraça do afinador de concertinas e da ameaça que tinha feito à neta, caso a musiquinha não fosse na ponta dos dedos disse para a neta: Abençoado professor!!



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