quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Igreja



Numa aldeia, paredes meias com a Galiza, fica uma Igrejinha, mais ou menos igual à da fotografia. Essa igreja foi construída num terreno doado pela família muito conceituada e respeitada, aí conhecida pela dos Santos.

Os Santos eram gente boa, obstinada no trabalho agrícola, que conseguiram ao longo dos anos uma considerável fortuna e uma casa farta de tudo.

A Igreja fica num plano superior ao lado da propriedade dessa família e é servida por uma escadaria em granito. Até há bem pouco tempo, no adro dessa Igreja estavam enterradas as cepas de bom vinho, que se estendiam numa longa latada para dentro da propriedade vizinha pertencente à família.

Da dita doação, também fazia parte o terreno do então pequeno cemitério situado a sul da Igreja e que era delimitado por um muro que o separava das terras dos doadores.

Por isso, da casa e rossio dos Santos, podia-se apreciar tudo o que se passava na Igreja e no cemitério, para onde caíam também pelo Outono, as peras maduras de uma pereira cujos galhos tombavam sobre o dito muro.

Para ver de palanque um casamento, um funeral, uma procissão ou qualquer outro ofício religioso, bastava uma pessoa empoleirar-se sobre o muro de divisão e daí se tinham todas as vistas.

Um certo dia a Junta de Freguesia resolveu fazer obras de beneficiação na Igreja e levantar as ossadas dos corpos nela enterrados, como era hábito na altura, especialmente para as famílias de beneméritos e outros privilegiados da época.

A empreitada ficou a cargo da Junta que contratou rapazes muito jovens. As obras começaram e demoraram a concluir-se e nada se diria a respeito, se não fosse uma cena a que alguém assistiu.

Num dos dias quentes daquele fim de Primavera, depois da janta, a rapaziada estava bem comida e bem bebida. Começaram com a limpeza e à medida que iam arrancando o soalho, traziam para o adro da igreja os desperdícios e tudo o que encontravam nos ditos jazigos.

A dada altura começaram a rir-se como perdidos e atiravam com coisas pelo ar. Não se percebia muito bem do que se tratava, mas parecia que a brincadeira tinha a ver com o que eles encontravam dentro das sepulturas.

Um deles saiu da Igreja com uma cabeleira feita de cabelos negros, asa de corvo, compridos e que colocou na sua própria cabeça, pavoniando-se para os outros. Todos riram da palhaçada. Outro, atirou com uma caveira que conservava os dentes todos (ou quase), pegou nela e arremessou-a a um colega que gritou uma série de impropérios. Outro trazia um farrapo preto enorme, tentando descobrir o que era e prontinho para o enfiar na cabeça de outro. Devia ter sido o fato ou vestido do de cujus. Ossos e mais ossos, uns soltos, outros agarrados aos esqueletos, tudo ia parar ao monte de terra que estava à porta da Igreja entre risadas e brincadeiras infantis.

E a brincadeira durou quase a tarde toda.

Alguém soube do sucedido e a notícia correu célere por toda a aldeia. Aquilo era o mesmo que profanar sepulturas! E quem é que afinal acompanhava as obras e permitiu tal ultrage?

No dia seguinte as obras pararam e as ossadas foram recolhidas para um grande caixote.

De quem eram? De que família? Quando e como faleceram? Ninguém sabia! Estava tudo numa alfândega!

Perderam-se as relíquias de quem, porventura foi importante para aquela comunidade...

Mas quem manda àqueles inergúmenos contratar idiotas??

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