quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Dores de barriga





Era uma vez uma criança que padecia de dores abdominais.


Obstipada quase sempre, recusava uma alimentação saudável, porque era muito mais interessante comer o que lhe apetecia e quando assim o entendia.


Apesar da constante preocupação dos seus avós, com quem vivia e convivia dia e noite, essa criança, como vivia de ar puro, loucas corridas pelos campos, brincadeiras incríveis entre muros cobertos de eras e velhas ruínas de casas de pedra, comia tudo o que fosse fruta verde, gomos de roseira, ervas azedas e outras iguarias.

Daí não ser estranha aquela indisposição abdominal permanente, que dava imensas dores de cabeça a quem, com tanto carinho, dela cuidava.


Mas havia uma solução que ela detestava. Um clister de água morninha e depois era só esperar o espirro de caca velha, que lhe saía em jacto pelo ánus!

Era uma operação muito delicada que envolvia muitos cuidados de higiene e sempre tinha que haver duas pessoas grandes para essa tarefa. É que a crinça era irrequieta demais e ninguém a segurava contra vontade.

Um dia desses, de muito calor por sinal, chegou a casa dos avós dessa menina a prima Aida. Essa visita trazia sempre algo de inovador: ou eram notícias da Capital de um tal Senhor Doutor, novidades do filho Vasco, ou alguma tarefa importante...

Mas como era muito divertido ouvi-la falar, sobretudo das coisas que se passaram com ela na sequência de um acidente de automóvel, que quase lhe levou metade da testa, a menina não desconfiou que a prima estava alí com uma missão diferente: segurá-la enquanto passava o líquido do recipiente, para o seu intestino.

A Avó começa a preparar tudo e quando já é chegada a hora do clister a menina é convidada docemente para ir para a alcova. E a menina muito obediente vai! Um olhar de espanto trocaram as primas, que não acreditavam que era dessa vez que menina não faria mais uma das muitas rebeldes cenas de gritaria, pontapés e afins...

Chegadas ao quarto, a menina sobe para a cama e nega a cánula dizendo que não quer mais aquilo!. Foram muitas as preces, que não ia doer, que ia ser a última, que fazia muito mal o cócó na barriga da menina, etc. etc.

Tudo em vão. Nova troca de olhares. Tinha de ser à força e a mais nova, a prima, é que ia suportar a força primária da criança que não queria clister, coisa nenhuma!

A muito custo lá entrou um pouquinho de água quente. Mas um gesto mais repentino e lá saiu a cánula. Agora é que são elas! As primas nem sabiam como fazer. O diacho da rapariga nem amarrada deixava fazer alguma coisa...

Mais umas preces, mais uns ralhetes...Nada...

De novo se empenharam na tarefa "contra-vontade". É nesse momento que a menina avista o chapéu domingueiro do seu avô, pendurado na parede tão perto da sua mão. Novinho em folha!! E se melhor o pensa, mais rapidamente o faz, pega no chapéu e cobre o rabito nu que aguardava nova investida!

A prima ri à gargalhada e a avó fica desolada, porque o chapéu vai ficar todo cagado!

- Não minha filha, não faças isso pelo amor de Deus. O teu avô vai me matar quando vir o chapéu novo dos Domingos nesse estado. Dá-mo cá, por favor....

-Eu dou se prometeres que nunca mais me pões isso no cu!

-Prometo meu amor, prometo...

Acabaram os clisteres, embora o aparelho tenha continuado pendurado na porta de acesso à retrete.

Mas nunca mais se usou e a menina continuou obstipada.

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