
Depois de nascer por um fio, descer apertadinho entre margens rochosas e verdejantes, o rio espreguiça-se num enorme estuário, antes de se misturar com as águas salgadas e remechidas do mar. É a foz, ora de águas calmas como um lago, ora sacudidas e caprichosas pelas marés.
Na maré baixa o rio quase secava e era possível saltitar entre um pedacinho de areia e um laguinho de água quente pelo sol. Levantavam-se as pedras e por baixo apanhavam-se pequenos peixes, caranguejos ou simplesmente areia movediça.
O estuário parecia enorme aos olhos de uma criança. Perdia-se de vista! E como era bom brincar na areia molhada e depois lavar os pés em pequenas poças de água quente, ou então correr na areia menos húmida e olhar para trás para ver as pegadas que ficavam inscritas na areia. Mas o mais interessante era fazer desenhos na areia e caminhar tendo por horizonte uma povoação muito bela que ficava no sopé de um monte. No cimo do monte havia uma construção granítica, que hoje constitui um lugar muito aprazível e muito visitado pelos turistas.
Mas voltando ao rio, quando a maré enchia vinha até ao casario e muitas vezes, sobretudo em épocas muito chuvosas, chegava a dar algumas dores de cabeça aos moradores da margem. A água entrava por todos os lados e quando baixava a maré, deixava um rasto de lama e sugidade que era difícil limpar.
Certo dia, uma menina mais ou menos com oito anos de idade, pediu à mãe para que a deixasse ir um bocadinho até às pocinhas. A mãe acedeu ao pedido e disse-lhe para que de vez em quando olhasse para a janela da casa. Quando a mãe quisesse que a menina regressasse a casa colocaria um lençol branco à janela. Era sinal que deveria voltar e rapidamente.
Como a mãe não admitia faltas de respeito e exigia obediência total, a menina disse que cumpriria à risca o que a mãe lhe ordenara, ou não voltaria a colocar os seus pézinhos nas pocinhas e na areia em maré baixa.
Brincou o quanto pôde. Pena não ter companhia! De vez em quando olhava para a janela e ficava aliviada, porque não via o lençol.
Por pouco tempo se distraiu a seguir com um olhar um caranguejo verde e de tenazes em riste. Quando se voltou já o lençol esvoaçava à janela. Tinha que regressar. No caminho havia uma passagem estreita e levemente inclinada. Não passavam duas criaturas ao mesmo tempo. Quando a menina a alcançou apareceu um rapazola que resolveu gozar com a situação. A rapariga parou e aguardou que o rapaz a deixasse passar...
- Só te deixo passar se me deres alguma coisa...
- Mas eu não tenho nada comigo!
- Arranja-te. Se não tens nada contigo dou-te uma tareia, que tal?
A menina ficou apreensiva. O rapaz era mais velho e muito mais forte que ela. Impossível medir forças com ele. Ela estava em desvantagem. Mas não mostrou parte de fraca.
- Tenho aqui umas conchas...
- Para que quero essa merda?
A menina fez questão de levar a coisa a sério e começou a inventar uma boa saída.
- Espera! Tenho uma coisa que talvez te interesse...
- O quê?
Pensou no que poderia interessar ao doido do rapaz, que a fizesse sair daquela situação e chegar a casa a tempo e horas para não ser castigada. Reparou que o rapaz tinha uns sapatos todos rotos e não hesitou.
- Tenho em casa uns sapatos novos que te devem servir. Posso dar-tos se quiseres...
- Hum. Onde é a tua casa?
- Sabes onde é a adega do chico? É aí. Aparece amanhã de manhã, que tos dou.
Ficou combinado. O rapaz deixou- a passar.
Quando chegou a casa a mãe nada disse, por isso pensou que o incidente não a tinha prejudicado. Mas não tinha gostado nada daquele patife e da ameaça, por isso tratou de arranjar logo uma solução. Foi à despensa e procurou num caixote de coisas velhas uns sapatos ou coisa parecida para no dia seguinte dar ao seu chantagista.
E assim foi. No dia seguinte logo de manhã tocaram à campainha da porta. A menina estava sózinha e espreitou pela fechadura, mas não viu ninguém. Porguntou com uma voz grave: Quem é? E nada. Ninguém respondeu. Colou o ouvido direito à porta e esperou algum sinal de subida das escadas, uma vez que a entrada principal estava sempre aberta. E nada, outra vez! Desistiu e foi tratar dos seus afazeres.
De novo um toque à porta. A menina não fez qualquer barulho ou pergunta. Apenas olhou pelo buraco da fechadura e avistou o rapaz. Foi pé-ante-pé buscar uma vasoura de piaçaba, bem pesada por sinal e, repentinamente, abriu a porta. Antes que o rapaz pudesse fazer qualquer movimento, ou dissesse ququer coisa, levou com a vassoura na cabeça, nas costas, por todo o lado. O rapaz caiu pelas escadas e quando chegou à porta a custo se levantou de tal forma foram as vassouradas. A menina de cima das escadas atira-lhe com um par de sapatos velhos que foram direitinhos à cabeça do arrependido chantagista e, aos berros disse:
- Aqui estão os sapatos. Se cá voltares, quem te vai dar outra tareia é o meu pai, que já sabe de tudo! Por isso é bom que não te atrevas a ameaçar-me outra vez!!!

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ResponderExcluirÉ esta a "menina" que eu conheço, determinada e sem medos... para ela tudo tem solução, é necessário enfrentar as adversidades da vida com convicção e de cabeça erguida...
ResponderExcluirTenho a certeza que o rapaz aprendeu a licção e não voltou a repetir a mesma brincadeira ridícula!!!!!