quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A caneca do vinho




Hora da janta e falta o vinho...


-Pega na caneca branca e vai ao Lírio buscar vinho. Despacha-te!!

Saiu porta fora com a caneca e uns centavos para o vinho. A taberna ficava perto e era preciso despachar, que a mãe não admitia atrasos.

De regresso a casa um "amiguinho" passa por ela e faz-lhe umas caretas.

- Olha que levas!

Pousa a caneca cheia de vinho na borda do passeio. Os dedos da sua mão pequena e magra começavam a doer. Descansa um minuto. Afinal a casa era já alí. Faltava pouco.

O rapazinho não a largava. Queria chamar a sua atenção, mas a menina não estava para brincadeiras. Além do mais a mãe detestava que ela brincasse na rua com rapazes, coisa que lhe agradava imenso por sinal, especialmente jogar à bola e às escondidas.

Mas naquele momento era impossível. O rapazinho como não conseguia captar a sua atenção resolveu aproximar-se e passou com uma das pernas sobre a caneca que estava no passeio.

- Ah! Quase a derrubas, bandido. Vou-te foder...

Risadas de patife que levou a menina à "ira". Começou a procurar no chão uma pedra. Não importava se pequena ou grande o mais importante é que fosse direitinha à cabeça do rapaz.

Procurou enquanto com o olho no rapaz, media o espaço que a separava dele. Pensou que já não ia a tempo de o castigar...

Por fim encontrou uma pequena pedra. Pouco maior que uma moeda de 5 tostões. E lá vai ela direitinha ao rapaz que num gesto vitorioso se voltara para a ver procurar o que não achava: a pedra!

Foi como um tiro e fez imensos estragos. O rapaz levou com a pedra no olho direito e o sangue cobria-lhe toda a cara, enquanto berrava como um cabrito desmamado, tapando a cara ensanguentada.

Sairam à rua os bombeiros que estavam no quartel e os bêbados da adega do Chico. A rapariga aproveitou a confusão para se esgueirar, encostada à parede e se enfiar em casa com o ar mais humilde que existe no Mundo!

O pai, conhecedor da filha que tinha, perguntou entre uma paciência de solitário:

- Que foi que fizeste?

A rapariga contou rapidamente ao pai a trama de há momentos atrás. Perguntou pela mãe que supostamente deveria estar à volta do jantar.

- A tua mãe foi ver o que se passava quando ouviu aquele griteiro todo... Deve estar a chegar.
Enfiou-se no quarto e aguardou o castigo. A mãe entra esbaforida pela casa e pergunta:
- Onde está essa rapariga?
O pai com o ar mais calmo que podia encontrar naquele momento de desastre, pergunta:
- O que lhe queres??
- Quero comê-la viva! Tu sabes o que ela fez ao pobre do rapazinho?
- Não. O que foi?
-Deitou-lhe um olho abaixo. Levaram-no para o Hospital. Deus queira que não fique cego!
- A rapariga não tem culpa...
- O quê? Tu ainda defendes aquele estafermo?
- Tu não lhe tocas. Já disse. O caso é comigo.
A mãe nem queria acreditar! O pai que nunca se metera entre as duas e sobretudo nunca deixara que fosse severamente castigada, agora está a defendê-la?
A muito custo aceitou a admoestação do marido e começou a por as coisas na mesa para o jantar.
- Vem comer...
A rapariga vem cabisbaixo e senta-se sem um ai! A mãe envia-lhe um aviso com o olhar: na próxima levas pela de hoje e pela do dia...
Ela sabia que assim seria, por isso há que enfrentar as coisas e levar com as consequências.
Naquele dia o pai, sempre tão distante, ausente até, foi capaz de suster a mãe e não permitiu que a filha fosse castigada. Subiu e muito na sua consideração. Aquele, sim, é que era um pai de verdade!
No dia seguinte a escola estava em pé de guerra. Todos queriam molhar a sopa na rapariga, porque tinha aleijado e muito o rapaz que se arrogara no direito de a gozar com a caneca do vinho. A rapariga sentiu o perigo e queria tudo menos andar à porrada com aqueles diabos todos. Pelo que se definiu imediatamente: - aquele que me tocar vai ter que se entender com o meu pai que é polícia marítimo!
Gargalhada geral. Tocou para a entrada da sala de aulas e a rapariga e o rapaz trocaram um olhar de desculpas. Por momentos ficou arrependida do que fez, mas ninguém levava a melhor com ela e se não podia ser ao soco, eram as pedras as suas aliadas.
No recreio a rapariga dirige-se ao rapaz e pede-lhe desculpa. O gesto foi entendido pelo resto da turma, quando o rapaz disse que fora ele o causador da desgraça. Mas ia ficar bem. Afinal o que fez sangrar tanto foi a pele do sobrolho, que foi cortada com a pedra.
- Desculpa...
No local em que a rapariga colocou a caneca do vinho para descansar, havia um talho que naquela hora estava fechado, mas a dona do talho estava à janela e vira toda a cena.
Aproveitou uma passagem da mãe da rapariga e interpelou-a sobre o acidente do dia anterior. Trocaram as informações que sabiam.
- A sua menina não teve culpa. Estava a descansar a mão que trazia a caneca e o rapazinho passou-lhe com a perna por cima. Por pouco não lhe atirou com a caneca ao chão. Depois o rapaz teve azar com a pedra que ela lhe atirou.
- Aquela criança é o diabo e com pedras um perigo!
São crianças...

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