sábado, 10 de janeiro de 2009

As sandálias velhas



Morava no cima de vila e era de uma família abastada. Tinha tudo o que uma rapariga da sua idade podia desejar.

Rica, bonita, estudava num colégio de freiras e todos os anos ia ao Brasil passar férias. Mas mesmo que não fosse para tão longe, os seus familiares poderiam proporcionar-lhe todo o conforto deste mundo. Era filha única!

Sempre bem vestida e bem calçada, decerto desconhecia quantos pares de sapatos, botas, sandálias, estariam arrumados pelos armários. Mas isso agora não vem ao caso.

Uma vizinha e familiar viu certo dia um par de sandálias à porta da cozinha. Já muito velhas deve ter pensado que aquelas sandálias seriam deitadas ao lixo, pois a menina rica não as calçaria por certo...

Sem consultar ninguém, uma vez que as viu com ar de sandálias velhas, prontas para o lixo, pegou nelas e levou-as a uma menina que morava perto daquela, numa casa muito modesta e que por sinal, em matéria de sapatos, sandálias e afins, pouco ou nada tinha. Costumava até andar descalça. Muitas vezes tinha furado os pés com picos e bocados de vidro da calçada.

Quando esta menina vê as sandálias e perguntou se eram para si, a vizinha acenou com a cabeça, fornecendo a informação que a menina rica não as calçaria mais, porque já estavam muito velhas...

Mas para a menina pobre as sandálias estavam optimas! E serviam-lhe na perfeição!!!

No dia seguinte, contente como um fuso, a menina pobre foi à padaria buscar os habituais petins para todo o dia e, como de costume, passou pela casa da menina rica, onde pendurada na janela sempre a esperava a mãe da tal menina, para lhe pedir que trouxesse pão para si também. Atirava-lhe umas moedas dentro de um envelope que ela apanhava do chão. - E quantos são hoje, Dona?

- Traz 10 que já me chega.

De repente o olhar da Dona pousa nos pézinhos da menina pobre e dispara:

- Onde foste roubar essas sandálias?

- Eu não roubei nada Dona. Foi F.. que mas deu, porque já estavam velhas!

- Mentirosa! Essas sandálias são da minha filha e toca a tirá-las dos pés antes que te dê uma coça!

- Sim senhora. Já vou.

E a menina pobre tirou as sandálias, ficou descalça e subiu-as até à entrada da cozinha.

- Quando deixares o pão, livra-te de tocar em mais alguma coisa!!!!

A menina desceu as escadas a custo, porque as suas lágrimas impediam-na de ver. Sentia medo, mas também ódio. Não era justo. Nada tinha roubado e muito menos umas sandálias!... Sabia lá onde encontrar tal coisa!!!!

De regresso a casa deixou os pães na casa da Dona e seguiu para a sua. Ia muito triste.

Quando a sua avó a viu nem queria acreditar na sua tristeza e logo indagou o motivo. Ela lá contou a história e disse à avó que a partir daquele dia nunca mais iria trazer pão para a tal Dona.

A filha que fosse como ela às 7 da manhã buscar o pão à padaria, porque para além do mais, tinha bons sapatos e boas pernas!!!

A Avó riu-se mas bem sabia que aquela raiva passaria depressa. A sua neta era dotada de bons sentimentos e já teria perdoado à doida da mulher tanta aleivosia.

Na tarde desse dia a vizinha que trouxera as sandálias veio visitar a família da menina pobre e logo levou o recado!

- Evita trazer seja o que for lá da tua família rica, porque hoje aconteceu uma coisa desagradável!

- O quê?

- A nossa meina teve que descalçar as sandálias que tu trouxeste porque a Dona disse que foram roubadas...

- Omessa!!!!

-É o que te digo...

- Quem vai tratar do assunto sou eu e é já!!

O acidente já tinha sido esquecido, quando a vizinha, toda contente, veio no dia seguinte com o par de sandálias na mão...

- Toma! São tuas! - disse a rir-se de contentamento e orgulho.

- Não as quero, obrigada. Prefiro andar descalça...

- Vá lá não sejas orgulhosa. Ela não sabia que tinha sido eu a tirá-las e percebeu que tu estavas inocente.

- Mesmo assim. Não as quero, muito obrigada.

Nessa semana foi com os avós à feira e trouxe um lindo par de sapatos abertos, que fizeram a alegria dos seus passos.

Quanto ao pão que habitualmente trazia para a Dona, nunca mais o trouxe. Deixou de olhar para a janela onde a Dona se pendurava e ignorou sempre os seus apelos.

As crianças também têm orgulho.

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