
No tempo em que não havia televisão e a rádio apenas oferecia folhetins, viver entre muralhas era uma espécie de cativeiro libertador, salutar e mágico.
Muito próximo das muralhas, situava-se a casa de uma família modesta constituída por pai, mãe e quatro filhos. Muitas vezes essa família aumentava com a chegada de parentes: avós, tios e primos. Também faziam parte da família, uma empregada e uma costureira.
A Rosinha, assim se chamava a costureira, era uma linda moça, com um rosto branco e sereno e uns olhos azuis muito rasgados e penetrantes. Confeccionava as roupas, especialmente as de uma certa menina, a quem ela adorava. A Rosinha tinha uma deficiência grave nas pernas e movia-se com a ajuda de duas muletas que lhe sacudiam o corpo frágil e pequeno. Quando se via sentada na máquina de costura eléctrica, a Rosinha nem parecia deficiente de tão linda que era.
Todos os anos, quando entrava a Primavera, o perfume a humanidade envolvia todo o espaço e, num ímpeto, era urgente sair de casa e passear pelas muralhas. Aí, um ventinho doce soprava vindo do rio e era incrível como apetecia cantar, correr, saltar, brincar, com quem quer que aparecesse por lá. Muitas vezes se aceitavam propostas de namoro, como se aquela estação do ano, a convite, assim o exigisse. Os dias eram mais longos e as temperaturas amenas, o que obrigava a levantar cedo da cama e deitar tarde para se aproveitar o tempo todo e viver ao máximo a Primavera.
O burgo de casas baixas e todas juntinhas, tinha um aspecto de presepe e as muralhas pareciam mantos enormes que escondiam esse aglomerado de casas. As vistas de cima das muralhas eram estonteantes e de baixo sumptuosas. Quem sofresse de vertigens não poderia debruçar-se nos baluartes.
De vez em quando algumas pessoas menos cultas e também muito porcas, despejavam baldes de lixo de cima das muralhas. Não era frequente, porque era arriscado. Mas havia sempre alguém que não temia o perigo e lá ia o lixo a céu aberto para cima do verde que rodeava as muralhas. Um dia, uma pobre rapariga, bambalhona e com pouco juízo foi deitar um balde de lixo e, porque se aproximou um pouco mais, escorregou e caiu das muralhas. A morte foi instantânea.
A Vila ficou em estado de choque. As pessoas ali residentes comentaram por muito tempo o sucedido, apontando o dedo aos responsáveis pela educação da rapariga. Mas a pobre fazia aquilo todos os dias e ninguém se importava. Ninguém sequer comentou que aquela desgraça podia acontecer.
A rapariga foi a enterrar num dia chuvoso e triste, como triste tinha sido o seu fim.

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