
Era soqueiro e tinha uma oficina feita de madeira com quatro metros quadrados. A oficina tinha uma janela que estava sempre fechada e uma porta sempre aberta para um pátio sobre o qual pendia uma velha videira de uvas morangueiras, que exalavam um perfume doce, durante o Outono.
Era uma figura pequena, magra e curvada pelo peso dos anos. No seu nariz adunco, pousavam umas lunetas muito antigas.
Andava devagar, porque as pernas já não eram como outrora, quando o levavam para qualquer lado onde houvesse festa. Ele era primeiro violino na Banda. Tocava com a alma e o coração, mesmo sem nada receber em troca.
As suas mãos eram únicas!. Não sei se preferia vê-las a dedilhar as cordas do violino ou a cortar à navalha o couro duro dos socos...
Era também meu professor de solfejo, porque o meu pai queria a todo o custo que a filha tocasse concertina, mas tinha que ser por música, que de ouvido não era grande coisa...
Enquanto eu solfejava, o Tio Diniz, cortava a madeira e o couro para fazer os socos. Eu olhava para a navalha e admirava a facilidade do corte e de como era certeira e não se desviava do risco.
Olhava para as suas mãos magras, calejadas, muito firmes...
Tudo servia para me distanciar do solfejo, que era uma seca!
Ele advinhava os meus pensamentos e fazia-me repetir a escala, quando me sentia distraída.
Um dia senti-o um pouco nervoso, mas não me atrevi a perguntar nada. O respeito era muito. Contudo algo se teria passado, porque estava "azedo", mordaz e logo me preveniu que não admitia distracções.
E a aula começou: comigo no solfejo e o Tio Diniz com a navalha de cortar couro.
Por um instante, não sei bem o que se passou, mas algo nos distraiu... Qualquer coisa que sombreou a oficina e fugiu à frente da porta e que nos fez parar.
Num instante o Tio Diniz golpeou um dos seus dedos com aquela terrível navalha! Arregalei os olhos e parei de solfejar. Não tirei mais os olhos da mão que sangrava muito. Levantou-se, resmungou qualquer coisa que não percebi e disse-me para continuar a solfejar.
Eu não queria desobedecer, mas a sua mão sangrando prendia-me a atenção e perguntei-lhe se não queria que fosse chamar a mulher. Respondeu-me com um não muito assertivo. Ele trataria do assunto.
Os meus olhos saltitavam entre o livro de solfejo e os passos dele. Apertando a mão ensanguentada, dirigiu-se a uma parede da oficina. Olhou para cima. Olhou para o outro lado, para a esquina da outra parede. Parecia procurar alguma coisa... Mas o quê?
Fiquei estupefacta quando o vi envolver o dedo e parte da mão numa enorme teia de aranha acizentada e poeirenta!
Quando voltou ao seu lugar a hemorragia já estancara. Voltou-se para mim e disse-me que as aranhas e as suas teias, ao contrário do que muita gente pensa, não servem apenas para apanhar insectos voadores. Servem sobretudo para fazer parar as hemorragias!
Muitos anos se passaram depois deste episódio.
Mas sempre que vejo as teias de aranhas, recordo aquele dia e não tenho dúvidas que na natureza está a satisfação de todas as nossas necessidades, mesmo aquelas que nos parecem absurdas.

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